Meiotom - crônica


 

título

Felipe Stefani 

Pequena Crónica (Juventude);
Itamambuca
 
 
 
 
As ondas abriam longos trilhos espirituais, era assim que sempre as compreendi, espécie de dança, somos artistas de nós mesmos, decifrando braços cósmicos, as ondas. Vi um com as pernas retraídas descendo a onda como um albatroz sobre um pranchão antigo, a espuma envolveu-lhe e de súbito reergueu-se em sua constelação.
Itamambuca tinha areia dourada, cercada por montanhas, tudo era uma floresta mística. Todo o cosmos se condensara em seu ventre, nessa forma de se diluir no universo.
Quem disse que os Deuses querem triste seu Olimpo, mas nunca uma alegria vulgar, muito humana e assim era Itamambuca.
No costão esquerdo, sobre o paredão de pedras, a mata era densa, ali tinha um caminho que desvelamos na adolescência, que levava a uma pequena praia atemporal, a prainha. No costão esquerdo, as ondas, repentinas, curvavam-se sobre as pedras submersas, relâmpagos azuis, curvavam-se tão plenas, que era possível se abrigar em seu útero. Eu descia essas paredes como entregando o espírito, para ser em arte, idéia e pensamento. Lemos as ondas com o corpo, na dança, na arte, movimento cósmico.
As tartarugas vinham respirar ao nosso lado, rainhas marítimas, os cientistas dizem que descendem dos dinossauros. Então também éramos Dinossauros.
Tinha um pássaro vermelho, todo o corpo vermelho. Para mim ele era um Deus, intangível a filosofia.
Quando éramos adolescentes, combinávamos ficar acordados, assistíamos a vídeos de rock, kung-fu, bebíamos coca-cola, alguns resistiam, íamos ver o sol nascer, sonhávamos, estávamos no mundo. O mar, montanhas, vento, astros, isso é o mundo, e com o tempo, aprendi a ser artista nas paredes das ondas, aprimorei essa arte. É uma música inspirada, uma dança aérea, um vôo. O homem e seu balé, humano, espaço estético, a palma do mundo oferecendo seu fluxo, seu movimento. Os maiores artistas foram os melhores leitores, na escritura divina das ondas. Mesmo nos tempos modernos onde se quebra sutilmente a harmonia, a música continua límpida.
Acho que hoje sou um melhor artesão, ao falar dos trilhos líricos, ao compor suas citaras e reverberar na música do cosmos, pelas ondas condicionado, por tantos anos em seus braços, busco a harmonia com as vagas, vou esculpir a arte e rastrear o útero deste movimento marítimo, os tubos. O coração reverbera séculos de humanidade e dor, o apelo da arte e da busca, incessante, pela liberdade. Estamos sempre pelo mundo condicionados e dançamos. A liberdade é um caminho.

Felipe Stefani, Itamambuca; 2007.