OLHARES
SUZANA MAFRA
Gosto de espionar. Enquanto mastigo a maçã bambuzais balançam na beira do rio. Eu sei. Da pétala prata que cai mansamente nas águas geladas e do peixe escondido lá no fundo, quieto. Enquanto mastigo maçã os passarinhos bicam impiedosamente figos e jabuticabas. O espantalho? Riso torto de palha tremula no vento, parece que dança, parece feliz.
Então passa um ônibus empoeirado. Alguns descem e conversam. Alto. Riem. Voltam do trabalho na fábrica. Pressa de chegar em casa. Comer. Lambuzar-se de uma tarde inteira. Olhar pessegueiros floridos enquanto as galinhas andam em círculo.
Um tempo para desmantelar. Pétala a pétala a ser sorvida como as letras de um livro para leitor recém-alfabetizado. Subo na pedra para espionar, vejo tudo. Quase o bairro inteiro. Escuto quase a todos. Mães chamando filhos, teares em som repetitivo, risadas, galináceas coloridas abaixo, a pedra é onde preparam legumes para elas, agora é pedra do mundo, do olhar, mirante, mirabolante.
Cheiro de legumes crus. De penas que o vento traz. Do mundo, eu acho. Daqui de cima das árvores acho que é do mundo. São galhadas prateadas em luso de flores levemente rosadas no primeiro sol após uma noite gélida. O sol empurra as últimas gotas das plantas. Cheiro de
fadas nas narinas. Fadas que vivem dentro de flores soltando pó mágico, são menores que beija-flor. Já vi. Daqui decima vejo. Armo minha luneta onde pousam bem-te-vis.Agora estou no topo de uma árvore pinus elliotti, na galhada mais alta, fico olhando as folhas secas, da mesma cor da Torre Eiffel e dos meus cabelos enfeitados, camuflagem e espaço enorme para olhar além do bairro e do rio e dos pensamentos que descem. Sinos tocam.
Quase vejo o mar, quase sinto as ondas revolverem conchas e quase sinto o cheiro salgado. O sol aquece forte e desprendidamente algumas folhas se entregam ao vento, agarro-me à árvore e balanço junto para olhar de outro ângulo, então, consigo ver o pessegueiro, o galinheiro, os bambuzais, o rio e meu coração batendo forte de emoção. Pendurada de cabeça para baixo começo a ver o mundo pelas copas verdes, pelos vôos rápidos dos pequenos pássaros, pelos olhos dos acrobatas do circo que tinha lona azul e amarela.
Mas tudo isso é o que vejo sem falar no espelho que reflete imagens para dentro de um lago mágico, profundo. Ora disponível, ora intransponível. E sem falar no beijo, trocado a quatro olhos, em dois raios de cores, pousados em dois pássaros raros que ainda não voltaram para me contar.