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Olá, alma delicada, meu nome não importa, o certo é que sempre tendi
ao desequilíbrio emocional.
Amo minha família e todos aqueles que encontrei pela vida, é
verdade, por mais que tenha feito eles pensarem exatamente o
contrário e hoje sintam calafrios só de ouvirem alguém pronunciar
meu nome, que é... já disse que não importa!
Bem, em momentos assim que me encontro sozinho posso dialogar comigo
mesmo e abri com as duas mãos meu coração horrendo em direção ao
vazio do infinito. Posso somatizar ou dar risadas marotas dos meus
infernos. Posso me sentir constrangido ou vangloriado pelos meus
anseios, egoísmos e fúrias repentinas, algumas explicáveis, outras
imaginárias, algumas tão ambas as coisas, que nem sei mais o que é o
que.
Tenho medo de ser, não entendo a função da vida! O sentido das
coisas me escapa.
Creio que feri aqueles que me amaram por ser uma pessoa, apesar de
todo afeto, extremamente solitária e querer o impossível onde só há
o possível. Quer saber, não tem nada haver com tudo isso, sobretudo
a parte de ser solitário, e também não é a hora de me explicar a
vocês, até porque agora é tarde e estarão de pleno acordo
quando terminar este relato!
Os feri, sim, e não foi só emocionalmente, quando digo "feri" quero
dizer que tornei a carne exposta. E nesse dia o rosa se tornou minha
cor preferida.
Ainda criança certos detalhes já prenunciavam minha futura aptidão.
Um dia, por exemplo, besliquei um bebê sem motivo algum e depois
fiquei muito magoado. Ali, comecei a entender o sentido da
perversidade e também que eu era um morde e assopra desgraçado: algo
que iria fazer parte do decorrer da minha vida como uma... uma
tatuagem. "Olha, eu não sou escritor, não espere metáforas
grandiosas ou mesmo originais!" Como ia dizendo, descobri que era um
morde e assopra e não pense você, Lesma, que é uma tremenda
besteira, pois uma questão muito grave é ser um morde e assopra - já
que além do autor do atentado ir de encontro inevitável ao
pedantismo mais abjeto, ainda desmerece aquele que sofreu a mordida.
Morda e saia de cena com o pedaço da carne. Faça dele um troféu.
Muito mais íntegro seria. Entretanto, demorei até esse instante para
aprender, por isso fiz o que fiz e muito bem feito por sinal aquilo
que irei lhe contar em seguida. "Desculpa os rodeios, mas é que sou
um cara confuso."
Foi numa primavera, uma primavera de sol lancinate e horroroso,
estava morrendo de calor e dor de cabeça, e não era essa dor de
cabeça que uma novalgina ou outra resolve, eu tinha literalmente
enfiado ela na parede, porque não aguentava mais pensar. MInha mãe é
um pessoa, ou melhor, era uma pessoa extremamente nervosa. Indigesta
mesmo.Também era difícil vê-la calada, e o que saia daquela boca eu
prefiro nem comentar. E como eu disse, fazia calor, logo eu estava à
flor da pele. Pra piorar ainda havia bebido muita vodka no dia
anterior. Ela como de costume não parava de lançar sua verborragia
para todos os 16 cantos da rosa dos ventos e, eu não queria, pois
sabia que esse simples gesto faria eclodir um mundo de
possibilidades desastrosas, mas tinha que ir na cozinha beber uma
garrafa inteira de água. Foi então que assinei minha sentença para
com a vida. Como era inevitável: nós, espíritos fracos, iniciamos um
discussão onde todos os impropérios reinavam, estava me segurando
pra não espancá-la e foi exatamente o contrário que fiz, não me
segurei e a espanquei, mas não só. Abri a gaveta e peguei uma faca
realmente afiada, não esperava que estivesse tanto, o que de maneira
alguma iria fazer diferença, já que estava extremamente nervoso e
sei golpear. O resultado foi que enfiei a faca na boca dela
exatamente na hora em que ela ia dá um berro. Ela caiu sem vida.
Fiquei prosternado junto ao corpo durante algum tempo esperando se
ela ainda conseguiria gritar, xingar, pronunciar qualquer coisa, mas
não. Nem ela podia falar depois da morte. Era tão novo vê-la muda.
Fiquei a observando como se estivesse diante de uma pintura... E
desabei arrebatado de rancor e beleza.
* *
*
Hoje estou no hospício, mas não sou maluco... Eu juro!
Do livro "mnemotécnica".
O palco da alucinação
Minha arte tem como herança toda miséria da cultura burguesa
ocidental. Sua felicidade e sofrimento mais extremos são fetiches
funestos do mais hediondo hedonismo. Ela permanece muda e sóbria
quando o que acontece é algo nítido; tanto que pouco sinto ao
escrever isto. O que a interessa da vida, é o abismo, que nem mais
tem o poder de me deixar aflito; e, do qual, cara a cara,
grotescamente, rimos.
Nos melancolizamos agradavelmente ao som do blues e de tudo que é
azul e vespertino. Morremos de amores frígidos pelo entardecer no
meu peito sanguíneo quando bate uma saudade do cordão umbilical
preso ao meu umbigo, após um carnaval vermelho.
Hora mágica
Escalo montanhas e, quando por acaso despenco, me agarro nas ervas;
revelando aromas de açafrão e almíscar há muito apreciados. Salto
sobre precipícios sem fundo. Estudo o Apocalipse, Schopenhauer e
Astrofísica e não me abato. Meu sonho vai de estrela a estrela pelo
espaço... ele espia novas galáxias onde o sol faz movimentos
improváveis e onde há mais sóis. E, se no caminho, vejo passando ao
longe, nebulosas, buracos negros e asteróides do tamanho de cidades,
fico ileso... O que é o vácuo, se o seu nada diante da minha
fantasia é nada?
Diário de uma besta
Eu sei, ando me intoxicando exageradamente; perdi completamente o
pudor em estranhas surubas; pisoteei um coração de carne semana
passada e mais um nessa; meus "amigos" são todos uns inúteis que a
poesia não captam., fazendo com que eu tenha que trabalhar com um
terço da minha cultura, emoção e cérebro de maneira que eu não gere
estéreis despeitos a cada segundo; tenho alimentado pequenos
monstros plagiadores que se voltam contra mim ( mesmo eu antevendo
esse desfecho) com a intenção de me superar através de seus plágios
sem a mínima imaginação; as minhas amantes são pessoas que nada tem
haver comigo, e tenho que me dá por satisfeito, porque no fundo sou
mais um que precisa de velocípede e bengala.
Sim, sou eu mesmo, amor, que há anos dou somente sorrisos cínicos
pasteurizados com gosto de morte das arcadas dentárias trincadas.
Eu, que vendi meu corpo para bichas viciadas e solitárias, por ser
igualmente viciado e solitário. Eu, que tenho a pupila mais dilatada
do mundo, que não me deixa negar de forma alguma que sou um rapaz
bastante doente. Eu, que quebro objetos inúteis, como se esses
mesmos objetos não fossem inanimados. Eu, que cismei em andar armado
e, ainda por cima, não me arrependo e continuo com os nervos à flor
da pele como uma abelha africana.
Do livro "mariposas no abajur".
Talles Machado Horta, Rio de
Janeiro, é alpinista do onírico à altitudes catastróficas, cineasta
com uma idéia na cabeça e sem câmera na mão e desembargador de luz e
quimeras; além de drag queen nas horas vagas. E-mail:
verdejar1984@hotmail.com
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