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IMPRESSÕES GRAVEMENTE LISÉRGICAS SOBRE VAN GOGH
 
                                                                  1 

 
  Van Gogh estava sendo vigiado pelos olhos dos girassóis - assim como eu sou vigiado pelas mariposas e pelo fato incontestável de que todas as coisas tem olhos - e bem soube. Por um momento sentiu sua privacidade violada; caiu num novo abismo e dialogou com Deus. Não era paranóia! Ele tinha e eu agora tenho certeza.

 
  Um dia elevou a cabeça aos céus e deu um tiro no céu da boca. Depois foi beber na taberna. Em outro assou a mão na lareira; ainda em outro, arrancou a própria orelha e a doou para uma prostituta provavelmente bela que não a merecia. Deveria haver um prazer deliciosamente sadomasoquista nisso: afinal, Van Gogh, como um gênio da pintura, sabia muito bem que fazer arte é prostituir - se.

 
  Ele realmente havia pirado!... Poucos, entretanto, com o silêncio impossível, teriam falado tanto em línguas mudas. E os diálogos eram sempre tão repletos dos mais derradeiros simbolismos. Os véus como um passe de mágica caiam. 

 
  A razão pela qual vendeu somente um quadro(o vinhedo vermelho) em vida por uma ninharia, é simples: era um artista demasiado verdadeiro e a arte vigorosa não foi feita para ser consumida por burgueses que representam o termo médio e muito menos pelo povo que está abaixo do médio; além de ter um talento medíocre para os negócios - o que faz muito sentido, pois o comércio dos homens é uma forma extremamente vil da baixeza humana - já que consiste em ganhar sempre mais numa determinada transação. É asqueroso e vicioso. Nem Heliogábalo e Caravaggio, os artistas mais sórdidos da estória da arte, cometeram, ao meu ver, tantas vilezas quanto o comércio dos homens. Ainda sim, queremos publicar livros, vender discos!

 
  As pessoas de caráter lúdico e gênio são chamadas, muitas vezes, de transloucadas, porque a humanidade encontra - se bastante enferma, depauperada. Essas pessoas "transloucadas" - não estão incluídos os muitos que por acreditarem ser massacrados por alguma espécie de sistema, encontram - se encerrados numa contra cultura qualquer, militante, domesticada e convivem em grupos; pois esses não possuem a independência onírica necessária - são designadas assim por fugirem completamente do estilo de vida estabelecido pelos fracos; não podendo jamais estarem aptos a exercerem o que dão o nome de "profissões", graças uma peculiar vastidão, insubordinação, indolência.

 
 
  Antonin Artaud o chamou de "o suicidado pela sociedade".

 
  Baudelaire não pôde conhecer sua pintura pra fazer uma crítica.

 
  As "Cartas a Théo" são sublimes. Pressinto, apesar de nunca ter lido.


 
                                                                   2 

 

 
   O insight... bom, é aí que devo me deter: matéria prima. Excesso. Ficção. Oxímoro. Vertigem. Falta de ar.  


 
  O Balé do Tempo

 

 
   Por esses véus vespertinos caindo dolentes em intervalos desuniformes multi-coloridos, escoltado pelas nunvens que podem ser todos os substantivos: o artesão sadomasoquista e ousado, sem bússola e mastro, vai de encontro há uma nova obviedade metafísica, com sua visão dita de prisma.

 
  O caminho é poço sem fundo. Hermetismo exdrúxulo. Uma caixinha dentro de outra caixinha. E, assim, sucessivamente até o infinito da poesia e da matemática.
  
  Algumas tem música; outras somente silêncio. Há ainda as que tem música e bailarina, que em seus rodopios líquidos satíricos - residem mistérios inauditos; seus passinhos quase pena ocasionam tragédias em civilizações imperceptíveis, inteiras.

 
  A Música: a chuva. O fluxo das artérias. O mar. Uma coxa de rio.

 
  A Bailarina: antena parabólica. Satélite. Brisa. Lithium. Cataclisma.

 
  O Silêncio:  Dilúvios cadentes ou bruscos, oriundos de um mesmo curso de vida e crepúsculo.