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DO LIVRO MARIPOSAS NO ABAJUR
 
  
Engodo

 
  Margarido, poeta maldito, refletia sob forte influência destrutiva se concretizava o enforcamento de si com o lençol de tecido espanhol ou italiano. Não antes de deixar uma cartinha afirmando que não cometia tal atitude levado por motivações tolas, românticas e supérfulas; como provavelmente as mentes atrofiadas por fatores de ordem trabalhista e doméstica, possam vir futuramente afirmar com toda razão.
  Estava, há muito, vivendo aquém de suas expectativas metafísicas. Queria tanto visitar Saturno, conhecer a outra banda do mundo, criar uma nova arte, amar todos que pisavam a terra não só em teoria etc, etc...
  "Como todos podem ver, a culpa é dela, da mágoa canastra, que o fazia chorar após as noites depravadas e o tornava megalomaníaco a ponto dele ser alpinista do onírico à altitudes catastróficas etc, etc..."
  De fato, alguém que tira a própria vida mercerá o vale dos suicídas?! Quantas seqüelas, afinal, deixa para os seus, aqueles que se extinguem do colorido dela? E os que se utilizam propositalmente de tentativas infrutíferas: creio ser corte no pulso na forma vertical o menos higiênico e o menos adequado. Merece mais respeito um verdadeiro conturbado que deseja deixar entranhada essa impressão no finito de uma Era, em algum microscópico fiapo de tempo dizendo: Bem, eu não curti muito a vida, obrigado por tudo, vou nessa!
  O ambiente do lar de um anômalo, dias após a "anomalia", deixaria de herança uma atmosfera tão carregada, que outros residentes da casa a julgariam assombrada chegando mesmo a ver almas penadas. Todos chamariam aquela morada de abrigo do Exú Caveira!... lar da louca feiticeira! E o promissor artista seria, enfim, uma vaporosa lenda.
  Porém como não podia deixar de ser, pois tendia para o primeiro caso, o ator ainda estava preso em questões de ordem estética e emotiva. Enfim, tardou, e não se matou.  Essa devia ser a terceira ou quarta vez na semana que desistia do ato. Logo depois comeu e bebeu exagerado. Saciado e mais um pouco, dormiu feito preguiçosa jibóia no tronco da mesma vida que maldizia.
  Vai entender esse prepotente sujeitinho por quem a chuva também lamúria, prateada e energúmena!

 

 
Triângulo amoroso com Deus e o Diabo
 
  Estamos no banheiro olhando pela fechadura de Virgínia, menina pudica e de família, educada nos melhores conventos - o que lhe proporcionou uma erudição sacra sem igual. O máximo de contato que havia tido com a sexualidade, foram os boatos de lesbianismo que ocorriam de vez em sempre no convento, mas que nunca dera crédito.
  Ela agora se encontra nua, reparando minuciosamente pela primeira vez no seu jovial corpo em frente ao espelho. A virgem começa a sentir um calor tão forte, adicionado e muito pela sua vida de completa reclusão... este instante revelaria a chama que nela transbordaria a ponto de transar excêntricamente consigo própria. Exatamente quando dá a atenção devida aos seus seios de bicos rosas olhando para o teto e no delineamento perfeitamente delicado do seu rosto angélico de marfim, acontece a eclosão!
  A esta altura a imatura sexual já está perdendo o seu severo juízo, e sem sombra de remorso,  se dirigi  primeiramente para sua escova de dentes. Depois do choque inicial de ser desvirginada por um utensílio de higiene dentária, não satisfeita, começa a pensar na hipótese de usar a vassoura piaçava. Por mais incrível que pareça, ela está fazendo... Olha!
  "E não tenho dúvida que nesse momento pessoas mais que comuns estejam praticando algo do gênero e até mais singular e explícito, como por exemplo a necrofilia, sexo com a participação especial de suas necessidades fisiológicas. Nunca parou pra pensar na hipótese de que alguém nesse momento esteja passando fezes no rosto dizendo: mija e caga em mim só mais uma vez! Não? Tudo bem, mas tira a mão daí!"
  Pois bem, depois de se satisfazer com este ato aparentemente grotesco, Virgínia caiu no marasmo do arrependimento, que é igual a uma ressaca acentuada. Que pena!... por um momento achei que ela tivesse superado a moral amarga! 
  Agora está chorando toda trêmula com uma parte ainda considerável da vassoura no ânus ou na perereca - não conseguimos ver bem. Mas, seus orgãos sexuais são agora um mistura de sangue, pentelhos, suor, cocô e gozo. E como ainda é excitante vê - la em sua desgraça casta.
  Creio ser o bastante!... Também já gozei! Vamos ter o mínimo de discrição, parar de espiar pela fechadura e nos retirarmos para a dignidade de nossas casas. E que Deus a tenha. Amém.

 

 
Mártir

 
  Há em algum lugar, não muito distante, um homem que se julga guardador de toda a beleza dos infindáveis martírios; mesmo restrigindo - se ao campo simbólico, beira o terrível!
  Suas paisagens mortas giram em torno de coisas fantásticas e nada tem haver com realismo e política. Sempre a favor da plebe, até quando escarra nela; a favor da densidade do essencial e da filosofia do tudo ou nada... mais uma vez comprovando a vitória da emoção sobre a razão... aliás, atitude bastante convencional no âmbito pedante artístico.  
  "Como ele tira tanto poder dos adjetivos chulos e grotesco!" - ainda não exclamavam as mulas e hienas.
  Ninguém havia se rendido ao seu talento - que sem dúvida era inegável. Muito menos da falta de necessidade de sua desordem habitual; afinal o mundo não deu a ele o cargo oráculo e se o concedesse seria de um extremo mau gosto. 
  E quem disse que havia perguntado, ele mesmo se elegeu e continuou irredutível em sua muito insana empreitada, sendo candidato a chegar mesmo ao ponto de receber múltiplos tapinhas nas costas; fato que provavelmente o desafinaria por algum tempo. Entretanto, retomaria a sua antiga e estranha causa, conseguindo todos os rótulos e misticismos terrestres, alguns realmente inerentes a sua pessoa, tais como: bohêmio incorrigível, cientista do pervertido, músico com influências wagnerianas, astrônomo ultra amador, escultor do disforme e ventríloquo do impalpável à moda do bizarro Eurícles. Inclusive, outros prognósticos teriam de ser inventados a partir dele. 
  E o mais engraçado era que por mais empiricamente que vivesse esse sonho de plástico, ainda era digno de ser descartável.

 

 
A ponte

 
  Oi, eu sou uma perigosa ponte carcomida! Para fazer a travessia ao outro lado, muitos transeunte ignóbeis, passarão por mim. Ainda não é chegada a hora do festim; mas, nada como o tempo para se fazer compreender e dar um poderio suficientemente vasto no que que se pretende obter; para impor, quem sabe, o acaso dessa lei que é anárquica e fora.

 
  Mais tarde quebrarei. E isto faz parte do ciclo, da qual estou fadado por opção e esta é uma outra lei. Porém mais tarde retornarei ainda mais robusta que outrora... de toda forma, não serão mais as verdades e mentiras daqui. Será o eclipse caduco instalado, bem sei; pois parti, para onde, mesmo estando em frangalhos, ainda em vida, não ignorei.

 

 
Ônix falsificado

 
  Avalanches em tom maior. Não disfarço, despenteio - me.
  Feiticeiras soberbas riem de mim, através de seus longos véus intocáveis. Me desintegram com o olhar, apesar de saberem que todo meu espírito é a alavanca de um desejo platônico latente e sincero.
  Línguas em fúria! Quero o coração novamente ardente!
  Arranco um dos matizes cor de abacate do meu delírio e o atiro para o ar. Sempre perdido nos signos desenfreados dos desejos que os mais desprezíveis nos deixam! Oh! mal esta súbito! Poderiam serpentes derramarem - se em lágrimas?
  Defloro amores e flores. Sofro cataclismas ogros. Pressão escorregadia e lactosa. Um dias desses, esfaqueio um gnomo, só para manchar sua falsa esperança; arrancar, quem sabe, sua eterna mácula e cinismo que se disfarçam por detrás de seu sorriso sinistro e complacente a minha desgraça inventada.
  Bebo aguardente muma fonte infestada de saúvas como eu. Estou acoplado no dorso do sonhar tudo e não gozar a plena posse de nada. Ouço os rugidos das máquinas cerebrais... KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK... todos os mecânicos sonhos sorriem com arcadas cariadas para nós.