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QUESTIONANDO a LEMBRANÇA

por Tânia Du Bois

 

       

 

        Tenho reminiscências duvidosas; natural e evidente porque trago algumas lembranças: umas boas, outras talvez... Miguel de Unamuno salienta que “vencereis mas não convencereis.”

        Dentre as frases que nunca esqueci está a declaração: “me orgulho de nunca ter lido um livro”.  No mínimo é estranho, já que encontrei tal pessoa no último lançamento de livros na cidade. O que ela fazia lá se não iria ler o livro? Politicagem social? Qual o sentido para comparecer à noite de autógrafos? Apenas pretendia comprar o livro autografado? Ou foi deixar claro para o escritor do seu (des)interesse pela obra? Ou comprou o livro para presentear alguém? Egberto Penido alerta, “... fecho os olhos / e sem me despertar / continuo procurando nos recessos do meu coração / a senda que poderá me levar / a libertação de mim mesmo”.

        Reconheço que o gesto da compra demonstra respeito pelo autor, assim como o comparecimento e os cumprimentos expressam gentileza. O que questiono é o fato de ela se mostrar orgulhosa por sua falta de interesse pela literatura, aqui tomada como parte da cultura, já que quando não há interesse, não há a “obrigação” de comprar o exemplar. Ela podia simplesmente cumprimentar e abraçar o autor e, como dizem minhas pequenas netas, “dar companhia” aos presentes.

        Para o escritor, sua maior realização é levar as pessoas a algum tipo de envolvimento ao lerem a sua obra, proporcionando a experiência única de poderem evadir-se no tempo, já que ele não consegue mensurar com exatidão o que a sua obra pode refletir no leitor.

        Ao reunir esses ingredientes e embalada pela lembrança tenho a pretensão de dizer que não ler gera expectativa não realizada e frustrada; a repetição mecânica das ideias, além do fato de o não leitor nada poder dizer sobre a obra, como nas palavras de Rubens R. Torres Filho, “Palavra puxa palavra, / tristeza puxa tristeza / e o mundo, de tão redondo, / vai ficando uma repressa...”.

        Existe momento mais triste do que esse tipo de lembrança? Pois é, convivo com isso todos os dias e me questiono: como essa pessoa irá descobrir o mundo? Cantarolar a música? Apreciar uma obra de arte? Imaginar o que os autores escrevem ou desenham nas palavras? Uma coisa é certa, ela nunca terá o horizonte à sua frente, que a vida vai passando e estampando os fatos, traduzidos em livros, que questionamos nas lembranças.

        Então, chega a hora de vestir a máscara do faz de conta que você gosta de ler: imagine livros em sua casa, equivalentes ao seu gosto. Para a sua felicidade, em parceria com você; por exemplo, Jorge Luis Borges, Mário Quintana, Humberto Eco, Cecília Meireles, Orídes Fontela, Gilberto Cunha, Ferreira Gullar, Mia Couto, Pedro Du Bois, Paul Auster, Paulo Leminski e tantos outros. O que importa é a escolha, o que vale é a obra e o autor escolhido, e o espaço que você determina para eles. Na companhia dos autores preferidos ampliamos nossas ideias, cores e horizontes. Tudo é questão de estilo e gosto pessoal, e do que pretendemos transmitir com a leitura que fazemos.

        Manusear o livro é dar vida a ele de modo mágico. Ler e entender de forma pessoal são emoções. Ler e imaginar são viver momentos de sabedoria em fonte colorida de palavras. Ter vontade de ler é fascinação. Ler é conquistar o nosso espaço através das próprias ideias e opiniões; resolver os desafios e principalmente ter liberdade para questionar as lembranças. Segundo Helena Kolody, “As palavras tem sentido / num código particular. / Cada qual é singular / em sua maneira de ler.”