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RISCAR O VIDRO DA JANELA

por Tânia Du Bois

 

 

pela memória de Carmen Sílvia Presotto

 

A chuva risca o vidro da janela enquanto o interior do quarto está em silêncio. Escuto meus pensamentos despertados pelo trovão, como grito da minha solidão. Nas palavras de Pedro Du Bois “não tendo você comigo nas horas tardias, / nada terei quando o amanhã chegar...”.

            Estou fragilizada em recordações quando o barulho da chuva riscando o vidro traz a realidade: a morte de Carmen Sílvia Presotto, minha amiga de sempre: Tita. Por algum tempo, roda a minha mente e a dor aperta entre lembranças nas imagens de gestos e horas que não passam.

            Em outros tempos era você, minha amiga, que estava por perto com novidades, colocando a literatura poética no centro da cultura pelos quatro cantos da vida. Conversávamos neste quarto, agora vazio. Sem a sua presença, sinto-me sem luz. Lembro ouvirmos os discos de Chico Buarque e Elis Regina, a última revelação era Maria Betânia, no pequeno e monofônico toca-discos do Pedro. Saudades! Bons tempos em que as novidades trazidas pelo seu irmão, que estudava na capital, alegravam nossas vidas. Dividimos sentidos e sentimentos que, para Pedro Du Bois, “falam das emoções / inesgotáveis dos amores/ e das sensações individuais/ da vitória”.

            Hoje, o riscar da chuva no vidro da janela revela a saudade nos símbolos da nossa amizade. Outra angústia pela sua partida. Angústia de não mais rever o seu sorriso largo, fosse meu sol brilhante. Neste mundo, a chuva na janela são lágrimas que contornam o tempo ameaçador e condutor da tristeza e desânimo para iniciar a riscar a página em branco.

            Momento de dor e angústia em que escuto Leonardo Cohen, com sua voz rouca e grave, cantando Aleluia, Aleluia. Em homenagem, repito e repito a música na certeza de estar lhe dando forte abraço de despedida, na esperança de que nossos sonhos façam eco em outras vidas. Como escreveu Pedro Du Bois, “temos que ser a memória infinita / compensando tempos eternos”.

            Saio da penumbra do quarto, diante da janela choro a sua ausência; risco no vidro o seu nome. Ao meu redor tudo está triste. Carmen, seus livros: Dobras do Tempo, Encaixes e Postigos estão e estarão ao meu lado, fazendo-me companhia e conVersando comigo. Como em Milton Hatoun, “Hoje ressurge na minha memória como uma câmara de luz”.