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COTIDIANO EM FRANGALHOS

por Tânia Du Bois

 

 

Penso quem seria responsável pelo surgimento do novo personagem na política, que utiliza palavrões e se faz referência negativa pelo apoio ao preconceito e à diversidade, como vantagem para se eleger.

Tenho a impressão de que voltamos ao tempo das grades e dos muros altos, pois, ele incentiva a violência e se julga a expressão do autoritarismo sobre tudo e todos. Espanta-me a placidez com que o eleitor o aguenta, suporta e aceita, fosse a solução do bem viver. Arnaldo Antunes retrata, “... fraturado/ nesses dias / brutos / de coturnos / xucros / a chutar a cara de quem / ama / arte / cultura educação / liberdade de expressão / diversidade...”.

Tenho medo que tais ataques especulativos, destrutivos e o que chamo de choque oportunista, sejam o engodo que a população não reconhece como problema, resultando em processo de incompetência e irresponsabilidade, gerando – em futuro próximo - mais obrigações e menos direitos. Gostaria que os cidadãos desistissem de acreditar nesse discurso vazio, odioso e interesseiro, em que não se absorvem ideias e que sub-repticiamente apenas revela a culpa dessa mesma população num cotidiano em frangalhos. Como em Arnaldo Antunes, ... se nessa seara não há direitos / nem respeito / ensino ou dignidade / só horror e / ódio, ódio / e horror / as palavras perdem a clareza / os valores perdem o valor / a vida perde o valor...”.

           Saliento que os ataques são feitos, diariamente em baixo calão; não há regras que sejam respeitadas. Inúmeras às vezes em que ele ataca e repete suas idiossincrasias e preconceitos sobre os cidadãos que não acreditam em suas jogadas eleitoreiras: joga palavras nos bueiros.

            O sistema colapsa com tantas agressões e falsidades, o que me faz desacreditar que um dia poderá efetivamente ser governo na acepção do termo; não há ideologia, apenas negócios que ironicamente não surgem para todos, apenas, em benefício próprio. É inaceitável, inapropriado e ilegal, porque traz consigo um cotidiano em frangalhos. Parece filme de terror em que todos os dias somos assombrados por algum espalhado espírito corrosivo. Nas palavras de Arnaldo Antunes, “... seguindo / docilmente para o abismo / nessa insanidade coletiva / em que o Brasil nega / qualquer futuro possível / e o ódio / o horror e o ódio / e nada que se diga faz sentido...”

      O cotidiano está misturado na canalhice e na falta de escrúpulos do personagem em sua crueldade, movido em pantanoso discurso do horror onde desaparece a humanidade.

      Difícil acreditar que tudo isso está diante dos nossos olhos; de verificar estarmos vivendo em ambiente fumacento, escuro, assustador, medíocre e hipócrita. São armadilhas que reduzem o cotidiano em frangalhos. Em Marcelo Coelho, “A moral da história talvez seja dos filmes “noir” à moda antiga: tramoias e casos suspeitos se distribuem entre todos os personagens, trocam-se denúncias como tiros...”.