meiotom  poesia & prosa

e-mail: meiotom@uol.com.br

 

   meiotom.blog                                                   TÂNIA DU BOIS

 

ESPECIAL

 André Carneiro

 Eunice Arruda

 Leminski

 J. Cardias

 Jorge Cooper

 Poesia Cubana

 Poema Libai

POESIA

 Carlos Pessoa Rosa

 Convidados

 Carlos Pessoa Rosa

 Convidados

 Carlos Pessoa Rosa

 Convidados

 POESIA VISUAL

 Almandrade

 Carlos Pessoa Rosa

 Clemente Padín

 F. Aguiar

 G. Debreix

 Hugo Pontes

 José L. Campal

 J.M.Calleja

 Rafael Marin

 Poe-Zine

 Marcos Rosa

 Avelino Araujo

 Thierry Tillier

 FOTOGRAFIA

 Andrea Angelucci

 F. Pillegi

 Euclides Sandoval

 TITE

 GONDIM

ARTES PLÁSTICAS

 Lúcia Rosa

 Felipe Stefani

 Maria Domênica

 Lampros

 DIVERSOS

 Concursos

 Resultados concursos

 Resenhas

 Estatística

A Sombra da Lembrança

por Tânia Du Bois

 

 

“... outro sonho desfeito no tempo / de notas acumuladas /

 como breu no instrumento...”  (Eduardo Barbosa)

           

            A lembrança é a saudade no espanto; máscara não retirada; tristes lágrimas; céu cinza; a aparência feia da ferida; morrer sem deixar sequer o nome. Ou a lembrança não passa de uma sombra?

            Através da carta, junto com o retrato, a lembrança continua sendo sombra, como horizonte imenso onde venta sem cessar. Para Regina Trevisan, “De repente nada / Nada é por acaso. / O nada é o tudo que pensamos”.

            Que pensamentos são esses que me amargam por estar alheia a tudo, por não ter outra raiz, porque persisto no fraterno afeto em que me envolvi? Lembro apenas a cor do seu cabelo ou seria em pensamento que jamais os esqueço? Vera Casanova pergunta, “Que significado dará a vida aos horizontes que esquecemos?”  

            Encontro-me triste e lúcida; sei que a minha lembrança é uma sombra. Meus amigos são meus inimigos? Procuro na sombra da lembrança a paixão e seu último poema, a beleza das flores, encontro apenas a sombra que me consome. Não quero contar meu desejo, quero apenas dizer que a sombra trocou a minha felicidade por um coração despedaçado. Sinto-me esvaziada, não tenho lembranças. Joaquim Cardozo reflete, “O que está depois da luz, o que está no Apagado...”

            Hoje, sobreviver significa para mim uma aventura. Não ouço mais a sua voz, mas, sinto que está deitado ao meu lado. Onde? Silenciosamente, tento dormir escondida na sombra  da lembrança.

            A vida chega pelos livros. A noite pela escuridão. A voz, na distância que se perde na saudade. Para me consolar, choro em choros de cavaquinho; de carnavais passados e nada mais. Nas palavras de Silvia de Luca, “Saudade / de conhecer saudades. / Saudade / de sentir saudades...”

            Vivo e sobrevivo porque sou teimosa, como diz Manuel Bandeira, “A única coisa a fazer é tocar o tango argentino”. Em desespero, não me lembro dos olhos e da sua (in)decência. Tenho motivos para me sentir desiludida: perdi meu melhor amigo e a minha saúde. Tenho como companheira apenas a sombra da lembrança.

            Sem iluminação, pergunto o que eu adorava nele. A vida? As palavras? O perfume? A risada alta? Como Manuel Bandeira retrata, “A tristeza dos que perderam o gosto de viver”. Mas, em mim está a complexidade do que é simples e na simplicidade de quem me é complexo dando sentido à uma nuvem de amargura como a noite escura. W. J. Solha salienta, ”... A sombra, / ausência da luz, / é presença / que assombra”.