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SOLIDÃO NUA

por Tânia Du Bois

 

            “Este verso, / antes de luzir, / perde a graça.

             Este poema / antes de me rir, / abre a bocarra.

            E me espanta o juízo, / a fechar-me os lábios / deixando-me zonzo,/

            a espiar o dia,/ a sonhar o nada.”                             Clauder Arcanjo

 

          A solidão é considerada um referencial do homem moderno.

          Na solidão nua encontro a reflexão “esquecida” como conhecimento para alcançar a proposta do ato de pensar – arte pelo jogo de luz e sombra.

          A nudez da solidão tem a tendência de seguir pelo caminho onde o homem se sente preso na carga dramática e, ao mesmo tempo, sente-se livre da teia, das máscaras, num desejo de superar o espaço para sair das limitações da tela e do papel.

          Ao ler uma obra de arte é preciso refletir, discutir sobre as impressões do “novo” e isso está em falta, porque o homem está sempre em busca do derradeiro sentido da vida. Por isso, vagamos sós e presos na solidão de nossas verdades; presos aos sentidos das nossas ações e discursos.

          A solidão nua é atual e a sua característica é a angústia, isto é, ela se apropria do lugar escuro, numa espécie de revirar o lado claro das aparências. Como Jorge Luís Borges nos mostra em seu poema,

 

                                   “Não restará na noite uma estrela.

                                   Não restará a noite.

                                   Morrerei, e comigo a soma

                                   do intolerável universo.

                                   Apagarei as pirâmides, as medalhas,

                                   os continentes e os rostos.

                                   Apagarei a acumulação do passado.

                                   Transformarei em pó a história, em pó o pó.

                                   Estou mirando o último poente.

                                   Ouço o último pássaro.

                                   Deixo o nada a ninguém”.

 

          Sabemos que o mundo em que vivemos traz consigo o silêncio que nos enriquece, podendo nos levar à solidão nua onde os absurdos diários sobrevivem em valores que se eternizam em diferentes dias, como em "Domingo",  

 

                              "Quanto custam os dias em que não procuro nada

                              ... silêncios significativos

                                 e ressignificados em palavras vãs...".

 

e "Segunda-Feira", de Pedro Du Bois,

                          "Se estiver sozinho

                          ...

                          o ouvido treina

                          ouvir a solidão

                          do destino

                          fechado no quarto

                          de apagada luz

                          em cerradas cortinas".