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PINTAR TAMBÉM É ESCREVER por Tânia Du Bois
Os poetas produzem belos poemas, mostrando as ¨belas cores¨ que o mundo tem. Algumas palavras adquirem poder imaginário, como a arte de pintar, que também é escrever, que contamina o pensamento e traduz em imagens, cores, idéias e em ideais da sociedade. Posso imaginá-la na sua poética, pois, “um pintor de talento é sempre um escritor”, como disse P. M. Bardi e como demonstra Pedro Du Bois, em seu poema:
“colorir palavras telas foscas / espremer textos com bisnagas / jorrar tinta jorrar letras // fazer estrofes murais cimentados / rasgar papel em lápis espátulas / colocar em viés ideias literárias // ... // espatular versos ziguezaguear temas / fechar cadernos cobrir telas / esperar o tempo certo / para que sequem”.
Os artistas plásticos possuem a forma velada de cores que se incorpora num jogo de formas oriundas da cor que cria ritmo. Como disse Paul Klee (1879/1940), “A cor me possui não preciso conquistá-la. Somos uma só”. Ele conciliava arte e música, pois no seu ateliê, no lugar das telas, partituras; transformava a palavra e o gesto. Segundo Klee, a função da imagem é exprimir um sentido, como vemos em Murilo Mendes,
“Qual a forma do poeta? / Qual o seu rito? / Qual sua arquitetura?”
Pintar é conhecimento e, quando revelado, o segredo das formas nos é imposto na condição de observador, para que o espírito e a inteligência se relacionem na sua leitura. A arte tem servido para ilustrar essas idéias e entender mundos mais inatingíveis. Mas é a leitura cuidadosa e penetrante que vai tentar dizer algo da impressão que a mesma produz a partir do que "lemos" ao vê-la. Ela também nos enriquece culturalmente, revelando os sentimentos, os comportamentos e os valores: o que é visto, sentido e discutido. Pintar também é escrever, por vezes gera inquietação, chega a uma realidade que faz do artista um criador com sensibilidade para exprimir em palavras, traduzir as cores e formas.
“Ela é uma flor. / Como pode? / Não tem a beleza, a suavidade, nem / mesmo a cor. / Como pode? / Não se chama Rosa, Margarida, ou Hortência. / Serão os espinhos? / A amargura, o ressentimento, o desdém, o tempo fixou. / Se nem mesmo a essência, / como pode? / Ela é uma flor. / A linguagem a transformou”. (Benedito Cesar Silva) |
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