| Meiotom - Contos |
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gosto de sangue |
Vana Comissoli |
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GOSTO DE
SANGUE Ao meu amigo Nada Rodrigo Nada que costuma nadar no nada da poesia.
“Gosto de sangue parindo na boca do osso da sopa dos arranha-céus.” Na minha incompreensão dos jornais televisivos, escritos ou falados, ouço palavras perdidas nas pedras de Bombas, Santa Catarina, que não é a toa que tenha nome de santa embora a tenham estuprado tanto. Caminhei, perdida de mim e de tudo, batendo em portas, pedindo socorro até me envergonhar porque o mundo, na minha volta, eu não tinha olhos para suportar, até que a poesia, poética ou prosa e toda a vergonha de minha terra me invadiu. “Gosto de sangue parindo da boca do osso da sopa do arranha-céu.” O segundo menino que eu encontrava divagando e criando, de forma perfeita, nesse país inculto. Inculto? O que será inculto, quando se arma quase meninos para matarem por uma pátria que nem é sua porque os menininhos loiros da pátria USA, não vão. Os mandantes sabem que não os mandam à morte pela bandeira, mas pelo dinheiro sujo que servirá até quatro gerações. Jamais conseguirão gastar tanto quanto foi roubado. Fico entre as rochas de Bombas, uma prainha perdida que poucos conhecem e olho: Estou fervendo entre as mesas, preciso servi-las bem e sorrir para que voltem, é dessa forma que não perderei meu emprego e meu alívio de uma folga por semana. Acho que esse não gostou de meu jeito sem jeito nenhum de garçom. Eu nem fiz curso de garçom! Mas estou aqui e me esforço porque o que penso não me leva a lugar nenhum. Sou brasileiro. Puxa, se ao menos eu encontrasse um amigo, um baseado para aliviar a bronca! Em vez disso, pediram outra pizza. Elas são boas aqui e me sinto feliz com isso, a qualidade daqui me sustenta, enquanto o mar bate lá embaixo e me convida a reflexionar. Não tenho tempo, há mais duas mesas a serem servidas. Viro a comanda da obrigação, tomara que não manche o pedido de quatro queijos e marguerita, meio a meio. Mitá, mitá, cheio que entrou no meu ouvido bicuira. Tomara não se perca na minha divagação. “Das tuas esquinas me fartam tuas curvas.” Viajo. Penso na mulher que ontem se deitou comigo e me deu tanto prazer. Como meu anseio a mantém sobre mim para que não se vá, para que seja fiel como tudo que desejei e me aceite, itinerante que sou. Eu nunca descartei a bagagem que não me seguiu e tudo que preciso é que me siga, viajante sim, mas perenemente fiel à amante que acompanha meu passo desconexo. Ainda prefiro ser desconexo. A conexão me dá nojo, eu a associo à venda e a tudo que me impede de progredir. Eu nem sei o que é progredir... Começo a pensar que o melhor é caminhar comigo porque o que já desejei me dá engulhos de tanta sujeira e de tanta alma que se precisa pagar para tê-lo. Pensei na mulher com quem dormi ontem e quanto gostaria de descobri-la para até sempre. Depois pensei mais, acho que bebi um pouco, da sobra dos clientes e da compreensão de meu chefe. Meu dono? Quem paga é dono e a princesa Isabel está morta e sepultada e nunca alforriou ninguém. “Do brilho da noite “ és dama das putas.” Pensei isso também, outra viagem. Revi, dentro de todas as putas que conheci, tu a caminhar, com teu passo dominante, de fera mansa jamais amansada. Vi a noite, tão distante, que vivi e compreendi que tu caminhavas assim, como proprietária do mundo, para te sentires acima dos homens pequenos que te moliçaram. És uma dama sim. Eu sei disso enquanto corro entre as mesas e penso que o mundo poderia ser mais frágil. Fragilidade que todos temem e a única coisa que nos transforma em humanos. A força que corrompe e que se insurge a ficar servindo mesas enquanto engulo palavras e me alivio, que condenam enquanto cheiram cocaína nas suas mesas de mármores brancos, brancos. Pensei que meu filho precisava comprar um colchão, ao não fazer isso estragaria o sofá onde dormiam meus netos quando visitavam o pai. O mundo está complicado. Existem muitos filhos, de muitos pais e isso é uma complicação danada para a cabeças dos guris que jogam vídeos games, play station e o escambau à quatro mas não aprendem nada sobre relacionamento. Seus pais são tão incríveis que escondem e dor e o passado como se eles não existissem e não tivessem parido essas crianças, que são muito maiores do que nós e tudo que as vale senão quisermos nos valer da mesma mentira. Insânia, sujeira e traição. Pensei enquanto olho o céu estrelado de Bombas que posso trabalhar pelo menino caixa do super-mercado falando três idiomas, sem família e sem segundo grau. Brasil, tenha lá o nome que tiveres, periférico ou cult, ou sei lá o que és. Brasil, por mil e quinhentos anos gritei teu nome. Brasil estou saindo de ti. Entrei nos bares, vi os transvios e me alfinetei em ti, Brasil, a criatividade morta, a intelectualidade sepultada há muitos anos e a tentativa absorvida pelos caixas de supermercado e pelos garçons ilustres, melhores senadores de nossa galhardia cultural. Envergonho-me, meu povo, gente de escrita, como me envergonho de mim, por não podermos editar. Por não podermos evitar. De meu amigo: “Gosto de sangue parindo da boca do osso da sopa dos arranha-céus.” Acho que isso resume tudo. Perdoe-me, Brasil. Perdona me, América Latina.
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