Meiotom - Contos


 

o quarto?

Vana Comissoli

 

 

            É hora de dormir. Eu preciso dormir como todas as pessoas. Meu pesadelo: dormir. Os demônios adentrarão meu quarto, virão para minha cama e não dormirei. Eu sei.

            Eu dormirei, como todo o mundo.

            A porta se abrirá e meu pai entrará, atrás dele, minha mãe e o inferno.

            Os armários derrubarão suas enormes e loucas bocas sobre mim. Me levantarei para que haja silêncio, o silêncio da paz. Não tem, ele foi viajar em locais mais adequados. Mais tranqüilos?

            Preciso dormir, todo mundo precisa. Ou só os animais como eu? Eu quero dormir.  Estou muito cansada. Estou olhando a minha cama, é um convite. Não posso olhar muito, tem pesadelos lá. Tenho medo de morrer, tenho medo do que não existe.

            Preciso dormir, preciso me deitar e morrer por algumas horas. Quantas horas? Quando eles aparecerão?

            Engano o sono abrindo meu computador, encontrando gente desconhecida: meus parceiros. Alguns falam coisas bonitas e sonhadoras que me embalam, outros falam sacanagens nojentas que me acordam ainda mais.

            São quatro horas da manhã, não agüento mais, preciso deitar.

            Os olhos se fecham e eu sonho que esta noite eles não virão.

            Ainda estou dormindo, fingindo porque já começo a sentir o balanço da cama, o ruído dos lençóis se levantando. Espio. Estão a dançar, furiosos, em torno da cama que ruge. Têm cara sem nariz, apenas olhos imensos e negros e bocas enormes que gargalham.

            A cama amolece, vai me devorar, está abrindo as pernas, me comerá. Tento ser racional, não adianta, isso está mesmo acontecendo. As paredes entram no ritmo e se desmoronam, me martelam a cabeça com seus tijolos de espasmos. Vejo meu corpo se retorcendo embaixo de tudo, meu sangue manchando o que era branco.

            Tudo é movimento, menos eu. Parada, estática e alucinada. Arranco a camisola idiota que visto e vejo as manchas de sexo nela. Muitos me tiveram e eu não me neguei. Há uma necessidade muito grande de ficar nua, quando me desnudo eles se acomodam. O ritmo cai.

            Nua e limpa, pálida e exausta, é assim que eles me querem, abrem espaço, encontro a porta aberta. Estou livre, o quarto fica para traz, aos pedaços.

            Encontro o sofá da sala onde eles não habitam.

            Até amanhã à noite, quando o sono me aniquilar.

            Eu voltarei, não esqueçam de mim. Eu, sem vocês não sou nada.

            Amanhã, para recomeçar, vocês terão construído o quarto de novo.