Meiotom - Contos


 

TRANSMUTAÇÃO

Vana Comissoli

 

 

 

            Encheu o pulmão de ar até que não poder pensar em nada além da saciedade. Levantou-se na ponta dos pés e olhou o mar balançando a bater nas pedras em espuma branca. Verde, verde até chegar no negro.

            Fechou os olhos e lançou-se. Por diminuto momento sentiu-se pássaro, solta e leve, a única preocupação sendo manter os pulmões plenos, não queria desperdiçar nada.

            Os braços rasgaram a água e o corpo mergulhou. Se deixou cair até perceber que começaria a voltar, deu algumas braçadas em direção ao fundo invisível e largou o primeiro fôlego. Abriu os olhos a procurar onde se prender, algumas pedras podiam ser alcançadas, nadou até elas e agarrou-se com força.

            Lá de cima vinha a luz amortecida pela água. Um convite? Uma cobrança? Apenas outro mundo. Um mundo que exigia muita coragem, uma coragem imensa para não chegar na ponta do penhasco e lançar-se, uma coragem que não tinha.

            Aos quatro, ou cinco anos, tem coragem. Coloca os sapatos de salto de sua mãe e conversa na frente do espelho onde vê o reflexo do futuro: mulher, adulta, forte. Num desvão de passo vira o pé e quebra o salto do sapato mais chique, leva uma chinelada e alguns gritos sobre o quanto é uma criança impossível.

            Posta-se sobre as pedras e olha o mar verde, verde até o negro. Joga-se no espaço e mergulha, retorna num reflexo automático. Ainda é corajosa, virgem de vivências, a coragem é cria da inconsciência. Vira as costas e continua a respirar.  

            Soltou mais um pouco o ar e as bolhas subiram a mexer a quietude da água, acompanhou sua chegada à superfície. Até os elementos são corajosos, riu e escapou mais um pouco de oxigênio. Ainda estava sobre as pedras, o corpo preso pelos pés e a cabeça a vasculhar peixes e algas, ouriços e estrelas do mar.

            Havia muito movimento sob as águas, uma dança silenciosa e contínua, nunca parava, alguém estava sempre acordado a viver e suspirar, a fazer encontros. Havia também muita cor, todas levemente tisnadas de verde oceânico, aquele impossível de ser descrito e que só conheceu quando o penetrou.

            Sentada à mesa observa o homem à sua frente comer, uma ânsia de vômito sobe das entranhas. As pessoas abrem a boca, enfiam um monte de seres mortos lá para dentro e sorriem depois. Tem as que, disfarçadamente, ou não, arrotam e o cheiro de morte sai de dentro delas. Se apruma à beira das pedras, a coragem a escoar pelas pernas, a sair pelas narinas, o nojo aumentado disfarçado de loucura e estardalhaço. O mar verde, verde até o negro a insinuar-se.

            O ar saiu dos pulmões, os peixes das pedras nadaram sem medo, fizeram seus cabelos de algas, olharam-na bem de perto, um animal raro e monstruoso sob as águas: ela. Um bicho feio vindo das alturas de luz solar.

             Quer ser pássaro, voar até o imponderável, o vento na cara, as asas planando de quando em quando. Lá embaixo, coalhado de reflexos prateados, o mar a subir e a descer, permanente e grávido. Pássaros marinhos pousam e copulam sobre as rochas, às vezes param nas bordas e olham o chamado, a coragem perdendo-se e os vôos encurtando. Quando enfiam a cabeça na água para pescar, não respiram, muita concentração para manter o ar e a vontade de luz e terra dura sob os pés.

            O tempo de pássaro também foi engolido pela covardia, solta poucas bolhinhas de ar, quer pensar mais antes de lutar para não subir. Agarrou-se com mais intensidade à pedra submersa, alguns ouriços agulharam seus pés de ventosa, um pouco de sangue coloriu a água.

            O peso do homem sobre ela incomoda e seus movimentos são arfantes, suas costas suam e ela encolhe as mãos até tocá-lo apenas com a ponta dos dedos. Ele não percebe, não está dentro dela, está dentro dele mesmo. A coragem some e, num esforço tira-o de cima de si e cavalga-o, a cavalo do abismo, os braços abertos, a cabeça jogada para trás até o alívio do sem fim chegar e jogá-la de lado, procurando o ar, respirando a coragem de volta.

            Restou pouco oxigênio, expulsou-o e esperou, agora viria a exigência de sobreviver mandando que se impulsionasse para cima. O reflexo espontâneo da vida a cobrar respostas, movimentos abruptos num meio rude onde a suavidade desistiu.

            Está sobre as pedras num dia estupidamente azul, o sol arde nas costas, o calor é desconforto e anseia pela frescura da água. As rochas seguem seu caminho até mergulharem no verde aquoso e se perderem num negror, talvez elas criem o escuro. Não são pontiagudas as rochas, foram arredondadas pelo carinho interminável do mar a lambê-las. Há tanta sensualidade no mar, penetra seu corpo sem compromisso, simplesmente para misturar-se com ele. Entra em sua boca e a língua de água desce até sua garganta, envolve seus seios e ventre, abraça, engole e devolve líquidos e líquidos.

            As mãos soltaram a pedra escorregadia devagar, quase sem perceber, os cabelos sintonizaram com o movimento das águas, os peixes passaram no meio de suas pernas, alguns tocaram seu rosto. Disseram que os afogados entram numa narcose antes do apagamento total, resultado do esforço de sobreviver. Ela sabia muito bem disso, quanto esforço feito para manter a coragem da vida, o todo dia acontecendo sempre iguais em suas diferenças banais. Não deixou bilhete, nenhuma explicação, apenas as roupas amontoadas sobre as pedras e a falta de um maiô no armário. Devia ter se atirado nua, seria o enlace perfeito, mas sempre foi um pouco devagar, pensava depois no que deveria ter feito antes.

            A roupa de banho descolou-se de seu corpo como barco naufragado, em frangalhos e os peixes pareceram brincar com os trapos que cairam lentamente, boiando um pouco a cada espiral de queda.

            Estava solta na água e não voltava para cima, não havia mais ar em seus pulmões, havia frescor e alívio. Os olhos mantiveram-se abertos e os braços se movimentaram com lentidão, sincronizados com as pernas. Um assobio de vento saiu de suas narinas e a água entrou alagando garganta, traquéia, alvéolos pulmonares até fartar.

            Olhou-se, ainda tinha pés e pernas, peito e braços. Impulsionou-se em direção ao mais fundo, para os lados, um pouco, apenas um pouco para cima. Não havia esforço, nem peso.

            Não precisa mais da coragem.