Meiotom - Contos


 

poente

Vana Comissoli

 

 

POENTE

 

 

 

         Não há coisa mais linda no mundo que o sol se deitando no rio Guaíba, cansado, de tanto fornicar com a cidade de Porto Alegre.

            Existem cores indescritíveis nesta apoteose amorosa: rosas, azuis e a mais impossível de todas, violeta. Há raios dourados que mal se suporta olhar. Há vida dentro do rio. Os peixes morrem nele porque o homem matou, mas há um latejar impressionante. Ou será minha alma que bate salvando este rio, estuário, lagoa, seja lá como queiram apelidá-lo. Em torno desta cidade, transformando a paisagem em porta aberta, será sempre o Guaíba nos corações.

            Há chama acesa no pôr-do-sol.

            Minha vida, devagar, se deita também. Reúno minhas tralhas, toda vida guardada, esgoelada. O sevicio dentro de mim é cobra criada, subindo, mas não é a kundalini. É cobra do mal. O mal se apequena diante do pôr-do-sol guaibense.

            Ouço que minha paixão me põe a perder. Encolho-me um pouco, tenho o miserável medo, peço que me atem pelo pé, que façam isso muito bem. Acorrentem-me porque minha alma voa em outra direção sobre a qual não tenho conhecimento, nem direito.

            Estou aberta demais, disponível demais e é assustador, a vida nunca foi tão ampla.

            O Guaíba se põe de joelhos diante do sol que morre. Penso em morte, preciso de sangue, do meu sangue para curar o mal, preciso me entregar a mim mesma e passar a caminhar podendo contar comigo.

            Quando se vai para o outro lado do Guaíba, vê-se a lua nascendo. É imensamente amarela, aos poucos, sobe, fica branca e redonda. É lua cheia, a apoteose do viver. O rio é esta ambigüidade. A lua e o sol, o yang e o ying guardados no mesmo corpo aquático.

            Diminuo-me um pouco, perco os sentidos. Acabo-me. Sou folha no vento da escuridão. Volopio ao encontro de ti, meu bem.

            Sou escritora, sou artista. Que belas palavras, mas examinando bem que fuga. Arte igual a sonho, igual aquilo que não existe. Ista pressuponho explicação, aquilo que já foi, sonho do impossível derramado no tempo.

            O Guaíba continua amando o sol dormente, dormindo, adormecido. Amanhã, o Guaíba sabe, ele voltará, refulgente, dentro da alma do amor.