Meiotom - Contos


 

MENTIRA

Vana Comissoli

 

 

 

           

  MENTIRA

 

 

            Estou mentindo e todos sabem disso. Quando contamos algo ou nos reportamos a alguém, sabemos, de antemão, que só o fazemos através da mentira.

            A imagem dos acontecimentos que conto são aquelas refletidas na minha percepção e entendimento, filtrada pela minha experiência única e intransferível. Todas as experiências são únicas e intransferíveis. Por mais fiel que eu seja, se não falar de mim mesmo, só poderei contar meia história, meia verdade.

            Rio, diante do espelho onde tento me reconhecer porque sei que aí também minto. Quem me fita, não sou eu por inteiro, mas apenas a superfície de mim mesmo.

            Sentado neste bar, às cinco horas da tarde, vejo que todos fingem que estão vendo André Marques Fernandes e me cumprimentam alegre, ou friamente, conforme nosso grau de mentirosa amizade ou reconhecimento vadio de rua.

            Eu correspondo enviando um sorriso sempre igual. Procuro não distinguir ninguém, uma vez que todos não passam de uma mentira.

            Até mesmo quando Juliano entra e me enviesa seu olhar de ódio porque ontem, sem qualquer pudor ou recato, eu lhe tirei a mulher que desejava. Sorrio mais amigavelmente ainda, ele é muito íntimo meu. Entramos no mesmo túnel de carne e quando estive lá, não sei se meus espermatozóides não se encontraram com os dele, ainda embriagados da mesma paixão que me embriagava no momento.

            Não há o que cobrar, nem o que pagar, estamos irmanados pela carne. Uma espécie de Janos, onde cada qual olha para um lado e são unidos pela mesma cabeça, no caso o mesmo tesão.

            Nem esta xícara de chá à minha frente é verdadeira, me ofereceram dizendo que estava quente e suave, após parcos minutos está forte e morna. Posso chamar o garçom e fazer um escândalo derrubando a cadeira. Jogando o líquido, amarelado e morno, igual ao que deixei no vaso do banheiro, na cara dele. Mentira-me, nada do que afirmara estava acontecendo.

            Não farei isso porque eu também mentira. Não queria chá algum, usei-o como uma desculpa para sentar-me a esta mesa e observar as mulheres falsas que passariam por mim. Se eu as desnudasse sobre a cama, seus belos cílios desapareceriam e, as bocas, se desmanchariam, feitos que são de tinta e pincel. Seus sedosos cabelos se transformariam em pasta embaralhada e eu teria nas mãos, não seda e perfume, mas corpos suarentos e cansados. Muitos, ásperos.

            Em torno, ouço o sibilar das conversas sérias de homens sérios. Aonde os interesses são disfarçados por objetivos legítimos de progresso econômico e status aplaudidos pela sociedade.

Vejo, à esquerda, Paulo Lamarque. Lembro-me de quando o encontrei, bêbado, no bordel a dar tapa na bunda das putas que o bajulavam por saberem que era um homem distinto e rico, principalmente muito rico.

            Adiante está Vinícius Escobar, envaidecido com a presença de Sandra Vileira. Como se não soubesse que ela sairia com qualquer um onde pudesse ver a chance de um relacionamento de primeira. De primeira na primeira vez, porque na segunda seria de segunda e assim por diante, uma vez que o interesse e o desejo esmorecem sempre e se gastam. Na centésima nona haverá hábito ou descaso, talvez um pouco de mágoa e raiva.

            Começo a enojar-me desta realidade única, não existe outra, somos uma só humanidade. Existem outros palcos e outras vestes, mas a mentira do que somos e do que fazemos é sempre presente.

            Não me chame de cínico, meu amigo, por gostar de viver assim mesmo. Viver é aceitação, é estar adequado, aceitar as coisas como são. Nem tu, na urgência de teu travesseiro, encontrarás a ti mesmo. Hoje te sentas aqui, mas se, amanhã, de alguma forma eu não corresponder tuas expectativas, dirás que te traí e me virarás a cara. Não antes de comentar com teu novo parceiro a imundície que descobriste na minha vida e é certo que alguma coisa descobrirás para teu gáudio. Nenhum de nós é puro.

Se eu quiser me vingar de tua incompreensão também encontrarei na tua vida uma boa dose de coisas espúrias que te farão vergonha. Mesmo que seja aquela vez que choraste em meus braços, de solidão e abandono. De desespero, diria eu, porque às vezes e muito seguido, a vida desespera. Faz parte da grande mentira dizer que compreendemos e isso é humano e de, em seguida, menosprezar quem está ferido a ponto de tentar matar-se ou estar se matando lentamente com cocaína ou infelicidade.

Não penses que sou amargo, ou não usufruo de alegria, estarás mentindo sobre mim. Apenas desprezo a hipocrisia. Prefiro a verdade da vida e ainda assim ajoelhar-me diante dela agradecendo que exista.

Passei do tempo de acreditar que “Deus escreve direito por linhas tortas” e que, no fim, o Bem vencerá. Todos sabem que o bem nunca vence. De novo armarão uma guerra do Bem, como é feito desde o princípio dos tempos e, de novo dirão que o vencedor foi o Bem do povo. Todos sabem que ganha o que sabe melhor esmagar e o povo que se foda.

Falando em povo, já observaste como é anônimo? Não existe Maria, nem Pedro, nem Joaquim, no povo. Existe um amontoado de pernas e braços muito úteis para a força tarefa, principalmente para a tarefa de abastar os já abastados.

Também não sonhemos que a igualdade entre todos traria a utópica felicidade, só os muito jovens acreditam nela. A igualdade traria à tona os um pouco mais iguais de uma outra hierarquia.

Olhas-me entre incrédulo e aterrorizado com minhas palavras cruéis, eu não inventei nada, está tudo aí, debaixo dos olhos de quem quiser enxergar. Está na história desde os tempos primevos. Grudado em todos os povos, seja lá o grau de cultura que entesouraram. Talvez não exista nos loucos e nos sonhadores. Tanto um, quanto o outro, não vivem a realidade, não esta mistificada, talvez vivam a realidade absoluta.

Mas é uma tarde de sexta-feira, amanhã é sábado, poderemos nos divertir. Eu sugiro que mintamos um pouco até domingo, fazendo de conta que a minha fala é pura canalhice e que, a mulher amada de hoje, será a sempre desejada.

Eu sugiro que mintamos a ausência da segunda-feira, sendo em si a grande mentira. Como pode ser o primeiro dia, se é segunda?