Meiotom - Contos


 

O EXCESSO, SE VOMITA

Vana Comissoli

 

                Sentou-se, desacorrentada e crua. O vazio e o silêncio são vozes gritantes de toda vida que viveu ali, no espaço contrito do antes.

                        Apertou os braços, os abraços, aconchegos sem tempo, sem idade. Sentiu os embates do corpo, da entrega desencilhada.  Vida caborteira, afinal domada. Se dobra à evidência do que já sabia: é o encontro sim. Fatal como a tortura, igual cigarro queimando a carne devagar, ardendo em chaga que se deseja. Deixando o cheiro do assado seduzir, pedindo mais. A boa dor é assim mesmo. A gente sabe que vai se danar, mas entrega porque a felicidade, que quase ninguém toca, é um dom precioso. Ou um mérito? Ou uma conquista? Não sabe. Nem todas as perguntas são respondidas. Se fossem, o mar se acabaria, o céu cairia sobre a terra copulando. O prazer permaneceria eterno sobre o mundo e dessa forma, o mundo voltaria a Deus e a consciência se diluiria, matando o mundo como o entendemos. Embora não entendamos nada.

                        Não cabe no seu momento o tamanho da consciência, do examinar, do compreender. Ainda há marcas dentro do corpo e o cheiro e a presença caminha pela casa como fantasma de morto recente. A tumba não está selada, o defunto não queimou nos alteres hindus, nem o sétimo dia da matzeiva chegou. O grito langoroso dos budistas não subiu aos céus e a esperança dos desgraçados católicos não realizou o despertar dos mortos. Tudo ainda está muito vivo e tem latejar de veias, batida de coração, ritmo do respirar.

                        Encolheu-se mais um pouco. Não existe aonde se esconder.Todos os cantos da casa estão preenchidos, não há espaço para a solidão. A resposta logo voltará. A certeza é chama viva, é fogueira acesa. O medo se diminui como barata que se caça no meio do sono. No acordar da noite com barulhinhos do inseto nojento.

                        A felicidade tem preço. A doença subindo pelas pernas, se abortando na certeza que não há mal na felicidade sempre e sempre procurada, tão pouco encontrada. Quantos se enganaram nesta busca difícil, arqueira de flechas longas como escorre por entre os dedos a tesão do viver.

                        A felicidade e o prazer de achar com quem fazer o permisso do encontro é a verdadeira religião sonhada. Deus, todo puro, mostrando sua verdadeira dimensão. Para poder suportar a ausência do agente, precisou filosofar. Deus criou, Ele é só e apenas Criador. A criatura é o resultado. A criatura poderá tocar esta coisa impalpável se puder entregar-se àquilo que foi criado: a Vida virgem, latejante, eternamente vivencial em cada curva da estrada que foi adulterada pela fome do poder, do domínio.

                        O terminar do sonho do existir têm múltiplas formas, infinitas deturpações: podem matar a matéria construída através de milhares e milhares de anos, no cadinho da terra ardendo, no carvão se martirizando até a perfeição do diamante luzindo na mão da ganância. Pode ser a certeza se acabando dentro de palavras, aparentemente tão coerentes, e que trazem o ferro e o fogo da destruição da alma dentro delas. Pode ser o sorriso e a alegria mortos pela necessidade do sobreviver.

                         Foi preciso voltar a encolher-se porque sentiu, viu, a dimensão de sua venda. Não pode mais ouvir o grito ecoando pelo infinito a dizer: vem. Precisou deixar cair os braços e mentir. Mentira que é a verdadeira vergonha, o real esconderijo de tudo que se quer, de Deus surgindo, sempre novo, sempre vivo, dentro da Criação. Mentir a Deus, erguendo altares de fantasia pelo miserável pão que matará.

                        No silêncio da noite vazia, não há mais vazio. O buraco deixado, não é um poço sem fundo, é cova fecunda, onde a semente foi colocada. Não existe semente, plantada pela mão do Deus do encontro, há tantos anos fertilizada, na terra prenhe de força e juventude, que não venha a colocar suas folhas, por mais frágeis que sejam, a proliferar flores dentro daquilo que não se pode matar.

                        Ergueu-se, armada até os dentes, mais uma vez. Desta vez não lutará por si só, lutará por tudo que viveu, que matou. Lutará pelos gemidos de dor e muito mais pelos de prazer e languidez. Lutará porque não existe mais volta e o cordão de prata não une apenas mãe e filho. O cordão de prata, que já luziu diante de seus olhos, é verdade eterna luzindo na fecundação da nova vida que germina, não no útero, mas no coração.

                       

                        Caborteira – termo regional do Rio Grande do Sul - manhosa