Meiotom - Contos


 

escarpim, vértice invertido

vana Comissoli

                                                                                                                                               

 

                                                            

 

                                                                                                           Triângulo amoroso:

                                                                                                     Alguém é sempre o babaca.

 

            Saiu do elevador já com o cheiro rançoso escorregando pela traquéia. Não acredito, bolinho de arroz de novo? Será que sempre sobra tanto essa merda branca e pastosa que ela faz? Ainda me salva dizendo sobre reaproveitamento e das despesas que me ajuda a sanar. Sanar? Morrerei de coronárias entupidas!

 

            Eleodora tomou banho, usou seu melhor perfume francês, depois escolheu o vestido mais solto, mais sem graça que encontrou no armário, comprido até abaixo dos joelhos, largo na cintura e de golinha. Com três botões de madrepérola. Abriu a gaveta das meias e escolheu as soquetes brancas com maligna satisfação. Depois e afinal, num orgasmo ao contrário: buscou o escarpim marrom, ralado na ponta e desbeiçado no calcanhar.

            Entrou na cozinha direto para a geladeira. O arroz já tinha aquela corzinha desagradável e meio amarelada de quatro ou cinco dias. Torceu o nariz e buscou, no escondido do balcão, a garrafa a meio pau, emborcou um gole branco e quente e depois chupou limão.

            Uma ótima maneira de preparar o jantar do marido.

 

            Sentaram-se à mesa. Os filhos perdidos nas ruas das faculdades que os devolviam cada vez mais tarde. Algumas vezes meio embaçados, de cansaço, com certeza. Acreditava.

            - Bolinho de novo?

            - Ué, João Pedro... Economia. Preocupo-me contigo, bem sabes. Teu cansaço. Tua preocupação constante e fiel a nós que te pesamos tanto.

 

            Fingiu que estava com sono, esperou pacientemente o chuveiro fechar para se deitar de costas com as cobertas escorregando em cima da bunda semidesnuda, meio encoberta pela camisola de seda. Quando a mão dele escorreu pelas espáduas, arrepiou, os dentes cerraram e virou-se constrita, comentando sobre o peso no estômago e a aflição que sentia.

            A aflição que sentia... O não dito. O que foi jogado para baixo do tapete.O que não devia existir. A traição. A outra, escondida, fortuita, permanente.

            João Pedro falou entre dentes, bolinho demais... Bolinho demais

.

            No dia seguinte acordou cedo, as bolas doendo, a mulher meio nua ressonando na cama, a boca, que ainda lhe despertava desejos, umedecida pela noite.

            Chegou ao escritório com aquele ar cinematográfico de “não estou para ninguém”. Fechou a porta já enxergando a ponta dos cabelos dourados e todo o mais, dourado a seus olhos.

            Sentou-se à escrivaninha e a olhou de frente. Como sempre, primeiro os seios: perfeitos, eretos, dois canhões a matar seu olhar... Seu olhar...

            - Fabiana, insuportável manter essa situação. Acabou! Hoje te levo para casa comigo! Não fale! – e fixou-se na boca sempre pronta e recebê-lo, sempre cúmplice.

 

            O cheiro de gordura deslizou na garganta e abraçou Fabiana com força.

            - Eleodora, faz mais bolinho, temos visita, digamos, permanente.

            Os frascos quebraram-se, os gritos assustaram os vizinhos, as baratas e ratos saíram de seus buracos e se perderam nas ruas. As crianças choraram. Caiu granizo nesse dia quente, granizo vive nos dias quentes, se debatendo nas rajadas gélidas da Argentina com seu sangue importado.

            Cansada, de cara batida, de navalha na carne, deitou-se a três.

 

            Assistiu a cena toda. Os movimentos: pernas subindo sobre pernas abertas, chupões e chupadas. O estalar da boca quando perde o caminho, cheiro de saliva e de sexo. Bunda aberta entre os dedos. O vacilo e a entrada triunfal. Regozijo. Os arfares gemidos até chegar o velho conhecido rosnar do marido se acabando. Seu corpo, tremendo, vicejando, gemendo entre seus dedos. Ela, também lambuzada, a cabeça tombando no travesseiro, as coxas afrouxando.

            Duas noites, seiscentas mil noites: o acostumar-se, os gemidos atravessando barreiras, quebrando seus vidros, avariando as defesas.

            O corpo na cama, o cheiro de homem, o calor. Deixou-se tocar devagar, uma leve náusea subindo, engasgando a traquéia. A tão amada amiga, a companheira, se esvaindo... Se esvaindo sem poder tocar. Os dedos duros enterrados em seus cabelos, tão crespos e tão vazios.

            Vazios de chegar em portos vazios e perdidos no vagar sem fim.

 

            Dois meses depois já se davam boa-noite. Trocavam selinhos, coisas bobas, sem significado, apenas mais um elo na corrente de onde a chave do cadeado se perdera. Selinhos que carimbam a alma, a dor e a insuportável prisão da infelicidade e do sem acontecimento. Do lugar comum e aflito das novelas da Globo e das notícias, três vezes conhecidas, a girar e dar o barato do não pensar. Do não sentir. Esquecimento.

 

            Um frio, uma noite, garrafas de vinho argentino, encorpado, ar sedutor do Mar del Plata a invadir. Cedeu, afinal. E sentiu o corpo de outra mulher a esquiar sobre o seu e a inversão de valores, de fidelidade, de verdade e escorrer entre os seios de uma mulher. João Pedro a masturbar-se enquanto olhava. A surpresa cortando arames farpados, campos verdes e gelados. A sensação a esparramar-se pelas coxas, o calor subindo e os peitos, nem tão lindos, nem tão bons, arrepiando-se deliciosamente.

            Não fez mais discurso, não brigou. Não fez cena. Calou-se para sentir de novo o vibrar da boca feminina a escorrer seu prazer. Sua vida postergada.

            As noites foram doidas, perdera o medo, deixava-se penetrar sem o velho terror seco. A paga de sua busca solitária pelo prazer compensava. Fabiana compensava. Enquanto sentia a raiva escoando, a traição, a dor da rejeição, inútil, banal, perdendo-se nos dias encontrados.

            Dias encontrados e traindo. Traindo Fabiana. Entre pernas de homens, sêmen escorrendo gosmento entre as suas. Pensava na boca de Fabiana, na sua receptividade, no suave carinho de seus dedos.

Se deitava todas as noites, colorida, brincos que machucariam as orelhas quando dormisse. Lábios vermelhos, de mordidas e batom. Desenfreado amor em busca de si mesma. Deitada de costas, o membro maior do que o receptor, embora seja essa uma concepção surrealista desde que o receptor é exatamente do tamanho que esperou por uma vida inteira.

            As pernas abertas, os pulsos e tornozelos amarrados, sua mais íntima porção exposta. Junto com ela, sua verdade, seu passado e, principalmente, sua vida, sua alma, seu espírito imortal.

            Fabiana!

            João Pedro, não mais no meio das duas a roncar enquanto a tela da TV ficava azul e o zumbido esvaziava os ouvidos.

 

            O cheiro de gordura rançosa escorregou pela traquéia. Bolinho de arroz? A troco de quê? Eleodora? Fabiana? Tô maluco!

            A chave não entrou na fechadura, a campainha não tocou, o telefone estava desligado.

            Grudando o ouvido na porta ouviu o ronronar das gatas e o som metálico, levemente enjoado de Fabiana. Aquela puta gostosa, boneca inflável que comprou por CR$ 1 150,00.

            Mixaria. E saiu de mãos no bolso a tocar sua mais íntima porção. Sua alma, seu espírito imortal.