| Meiotom - Contos |
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uma faca |
Vana Comissoli |
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UMA FACA
Passeávamos de mãos dadas, como meninos e meninos não éramos mais.
As arcadas dos prédios ricos, onde não morávamos, nos protegiam da chuva impertinente que entrava, devagar, pela trama de minhas roupas e molhavam teus cabelos a torná-los mais cinzentos.
Ríamos das bobagens da vida, das nossas criancices livres, a nos bolinarmos e brincarmos que não haveria depois: maduro e pleno.
Eu era em ti então e acreditava que eras em mim.
De repente, entre nós, caiu uma faca. Talvez do alto de uma das ricas churrasqueiras. Antes de espertar-se, ou quebrar-se?, no chão duro, cortou-me. Uma lasca de braço, algumas veias. Teu terror me deu risos, havia nele tanto querer!
Uma adaga Tramontina te separou de mim. Uma faca de boa cepa e considerável aço. Longa e aguda, não perde o fio e nem se deteriora com o tempo. Lâmina afiada e potente. Amolada nos suor dos contrabandistas e do tráfico.Os degoladores a preferem nas suas incursões escuras. Um talho só e o serviço está feito. Eu, uma picanha magra, fácil de cortar e se mastigar até arrancar todo suco.
Tu me segurasses a estancar o sangue baldio, eu usei os dentes, achei que apertando as veias abertas faria um torniquete que seguraria minha alma para ti.
De longe, ouvi a sirene da ambulância. Teria sido tão sério o ferimento?
Desmaiei.
Em sonhos bruxuleantes de sonífero te via fantasma, engano, busca insensata. A faca caindo e cortando. Tirando pedaços: minhas ilusões. Minha carne, nacos de alma ainda existente.
Me refiz aos poucos, acordando e voltando a dormir, mal te vendo a caminhar pelo quarto, a sair se esgueirando pela porta sempre entreaberta. Ouvi sussurros também, vozes levemente familiares, perguntas sobre mim e meu estado, tuas respostas devassadoras umas, outras mentirosas. Essa mulher, de quem falavas, era eu. Mal me reconhecia costurada nas tuas falas, mas era eu. Sem meu desejo por ti, sem minha voz alternando momentos de carinho e chamamento com boca calada, cheia de espinhos. Sem meu toque no teu corpo, sem nossos encontros. Mas era eu.
Os médicos se acumulavam nos pés da cama: caras franzidas, mãos nas testas. Eu escutava suas indagações, seus temores. Como podia um simples corte de faca atingir dessa forma o coração? Como não parava de sair o sangue pela pequena ferida já cauterizada?
Havia a morte também a circular, fechando meus olhos na minha esperança de não acreditar. Ela fechava as portas, trazia as paredes para muito perto, a me estrangular do amor possível. A me confessar coisas más que só a morte possui. Falava de distância e de medos, mostrava-me a faca caindo, certeira, flecha lançada por querer de seu dono. Eu me encolhia. Tão verdadeiras e coerentes suas palavras! Eu arrancava tubos, destruía curativos e me alegrava em ver, novamente, o sangue escoando. Liberta afinal da vida que fere?
Dentro do pequeno mundo branco e inútil eu me debatia. Entravam médicos, amigos, coisas de meus sonhos a me darem força, a me proibirem de desistir. Eu estava tão machucada! Não sabia se queria tentar de novo. Outra vez? Quanto vazio e dor haveria aí?
Só os fracos desistem. Nem sabia se queria ser forte e tentar mais uma vez. Acreditar de novo? Sentia-me usurpada, invadida. Acho que um estupro deve ser algo assim, alguém entrando dentro de ti, alguém que não queres e não conheces, abrindo teu corpo, teus mais secretos recônditos e devassando tudo, como se não fosses nada. E nem sabia se era alguma coisa. Talvez um pedaço de carne que se estilhaça numa facada, uma nuvem de pensamento que se acaba sem ninguém saber que existiu. Eu existi?
A síndrome de meu sangue foi mais forte do que minhas dúvidas e minhas tentativas de escape. Eu sobrevivi. Deram-me litros e litros de sangue alheio, cheio de guerras e buscas. Nem sei mais o que circula dentro de mim, se eu ou outras pessoas que ousaram. Dentro dessa miscelânea de dor e morte, alegria e vida, enxergo, nas minhas veias, teu sangue a circular e a me manter viva. Ainda não compreendi porquê me deste de ti, o amor que eu pensava era mais audaz, muito mais corajoso. Porém, continuavas a correr, quente, dentro de mim.
Os dias se passaram, sempre passam, alheios a tudo. Voltei a respirar, meio vaga, meio ciente. A faca caindo sobre mim. As vezes parava no espaço, as vezes voltava a cortar. Ainda tinha braços e mãos e podia caminhar. Tropeçando, mas caminhava.
Teus braços, eu imaginava, ou seria verdade?, abriam-se para mim e eu me apoiava neles mesmo sabendo que meu único apoio real seriam minhas próprias pernas.
O nome da faca é Ana.
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