Meiotom - Contos


 

 

Vana Comissoli

       CASA DE POBRE

                                                                                     Os homens têm musa.

As mulheres podem ter muso?

Meu muso: Nada Rodrigo Nada

Eu só usei a ti.

 

 

 

         Estava chapado, mas conhecia muito bem o caminho. Ele trilhava minhas veias e meu coração. Meio mole, meio divagando, a cabeça no céu, os pés plantados no chão. Raízes profundas de minhas muitas eras.

            Ao me aproximar da casa de madeira, de cor um pouco sem cor, eu já andava devagar, medo que o mato estalasse minha presença pouco sóbria, meus sonhos malucos que me levariam dali. Ouvi de longe, o farejar da cachorra delatora de meu rastro. Certifiquei-me que desta vez não esquecera de trazer um pedaço de bacon, que se chamava de toucinho defumado então. Estava no bolso sim, senti-me seguro, embora isso me levasse a ser acompanhado pelos cães da rua durante uns dois ou três dias. Eu também era uma espécie de cão de rua, portanto, nada de pudores, apenas amigos a se reencontrar.

            Peguei firme a chave para sentir os recortes do lado certo, ela teria que entrar como pênis em vagina lubrificada, suave e sem ruídos ásperos. O problema era girá-la na fechadura sem estalidos. Consegui.

            As etapas seguintes seriam mais árduas, Oxalá as terminasse a contento. Primeiro passo, o assoalho rangeu, dei uma volta sobre o corpo, era o tamanho exato que precisava para que o pé esquerdo caísse na tábua certa: a que não rangia. O direito grudado no chão, rodízio sobre mim mesmo. Tudo bem. Funcionou.

            Nesse bailado maluco que a consciência semi-adormecida tinha me ensinado, cheguei a salvo no meio da sala. Todo mundo já tinha TV, tornara-se um hábito maldito, que até os ricos têm. Ligar o miserável aparelho e deixar a ranhura do som metálico terminar de me adormecer.

            Minha mãe era desgraçadamente sábia e programava para a telinha ligar no volume mais alto. Isso me dava um trabalho enorme, achar o botão de diminuir o barulho dedo-duro de minha chegada tardia. Consegui.

            Ao me virar para jogar-me no sofá roto eu enxerguei as costas suaves, sedutoras, da cozinha, seus cheiros, seus humores femininos a chamar e a geladeira cheia de sal que me tiraria da angústia de amargar o estômago. Do lado o fogão, nunca entendi muito bem porque era masculino, se ele cozinhava a gente devagar, a desejar, a boca amargando, calada de espera, tinha que ser uma coisa feminina. Muito feminina. Encaminhei-me para lá, para o ventre da casa.

            Casa de madeira velha é foda, geme e se torce nas entranhas, cada passo um ai. Eu estava escolado e dancei novamente, ludibriando as tábuas bruxas.

            Abrir a bendita era outra tarefa e o diabo da cadela veio farejar o encontro de rabo abanando, era poodlel de meia-tigela que viera de uma madame qualquer, quando a cachorra dela fora mais exposta e não escondera a trepada emprenhando do vira-lata da esquina. Um tipo acertado que latia baixinho, tinha o pelo alisado e amaciado pelo óleo das ruas e a língua sábia de cadelas vadias. Eu ri, a maconha me dava imagens terrivelmente reais.

            Não era tão louco a ponto de não carregar duas porções e a bicha se calou a mastigar.

            Puxa, era uma geladeira muito usada e fazia um barulho esquisito nas aberturas. Puxei devagar, dentes apertados como se eles pudessem segurar alguma coisa. De novo consegui. Margarina porque casa desse tipo não usa manteiga. Ainda bem que os potes de plástico não gozam quando a gente os abre, se dão facilmente.

            A questão agora seria aquecer o pão, estalar dois ovos sem que a gordura levantasse seu cheiro extremamente tesudo e acordasse me minha mãe. Tampa de panela. Era uma boa idéia, porém as panelas moravam em baixo da pia que tinha sido roída, na base pela água que pingava sempre e a porta estava meio mambembe e faria barulho. Muito devagar, prendendo a respiração comecei a puxar a filha da puta. Reeec – reeec, eu ouvi alto e forte.  

            Olhei em torno. Silêncio. Apenas um ressonar longínquo que meu receio me fazia escutar.

            Já tranqüilo, esperei o óleo aquecer no ponto certo de deixar os ovos naquele amarelo molhado que se segurava no branco imaculado das gemas.

            Alguma coisa apurou meu ouvido. Um escorregar de chinelas, chinelas sim porque era um ruído feminino conhecido desde que nasci. Ai, meu Deus do céu, gemi, minha avó! Noventa e sete anos e um ouvido consciente do cão!

            Me preparei.

            - Menino, não se come a essa hora! Pesa no estômago e trás pesadelos. Me dá um pedacinho, ou faz outro para mim? Com lingüiça, por favor, essas coisas sem carne, pode não apoiar o bucho e amanhã eu terei corredeira.

            - De novo drogado? Quando aprenderás que essas coisas fazem mal? Porque não tomas um Lorax? O efeito é o mesmo. Dá uma moleza gostosa e também não se pensa nada sério. Essa coisa que fumas faz muito mal.

            - Vovó, pára de tomar Lorax, isso faz mal, queima um fuminho!

            A vovó teve, um dia, dois seios. O câncer comeu um. Indignada ela falou para o médico:

            _ Que faço com um só? Corta o outro e fica tudo igual.

            Foi desse parto que eu vim. Quando nasci, a boca estava cheia de formigas e eu nem aí. Sou brasileiro e o Raulzinho fazia cantiga de ninar meus sonhos. Maluco beleza. Cresci com o Cazuza e estou aqui, olhando o nada. Procurando o caminho. Os passos de meu pai atrás de mim.