LENÇÓIS SUJOS DE AMOR
O dia atravessou as venezianas enchendo o
quarto com sua luminosidade dúbia e seu calor, já insuportável. O cheiro,
incensado de sexo, subiu dos lençóis ontem amalgamados em doces
perfumes.
Estendi o braço a procurar o corpo que estivera ao lado até minutos
atrás. O vazio e o silêncio me entregaram travesseiros molhados de suor,
ainda marcados da cabeça deitada. Se tivesse coragem, talvez caçasse, aqui
e ali, alguns fios de cabelo, algum resto de sombra.
Difícil embarcar no que já foi e reviver no corpo que marcou a
alma, os rosnares e a animalidade benéfica que nos possuiu. A cama vagia
vazios. Sombras ainda se retorciam em abraços que fugiram.
Foi tão mansa tua entrada, tão avassaladora no seu silêncio de
promessas.
Abri o corpo e, tragicamente, abri a alma também. Fiquei mulher, tu
me levaste por esse caminho buscado e negado. Tuas mãos a devastarem os
segredos ainda não entregues.
Encostada na porta tua mala pesada de histórias, de vidas passadas.
Já mortas no tempo, mas fogueando dentro de ti. Brasa viva que alimenta
fogo morto. Eu ouvi. Quando uma mulher não ouve um homem? Um homem que a
desbrava como terras virgens a retirar hera e mato que o tempo faz nascer
nos musgos do corpo.
Eu ouvi com toda a raiva que a mulher tem ao ouvir outras mulheres
que passearam no corpo que deveria ser só seu. Único e imprescindível.
Mulher é bicho cão. Trai. Aborta o coração para ferir a própria
dor.
Abri as janelas, nua como convém a um nascimento. Renascimento?
Abri a vida e o coração por ti devastado. E te ter.
Levantaste e te foste, conforme o prometido. Um rastro de cio e
cólera nas marcas de meu, nosso gozo.
Veio o vazio cheio de ti e os sinais de tua passagem. Cheiros,
cabelos caídos no box, como pedrinhas de João e Maria. Lembra? Irmãos
Grimm. Existe o sono de cem anos da Bela Adormecida. O tempo a te esperar.
Existe a maçã maldita da Branca de Neve. E a vida é um conto de fadas,
breve como a nuvem que passa e nem sempre os príncipes são felizes para
sempre.
Os príncipes da vida comem e dormem e, bem dizia minha mãe, vão ao
banheiro. Tornam-se príncipes novamente quando amam. Não importa se é
amor-carne ou amor-alma, são apenas dois lados da mesma moeda e me derreto
ao lembrar teu peso. O amor é sempre encontro, fortuito ou prolongado.
Tudo depende das circunstâncias. O amor tende a se prolongar quando a alma
é pura e a doação infindável. Corrompe-se na briga, nos egos a se
digladiarem. Depostas as armas, ressurge como se não tivesse fim. E
terá?
Assim, olhei a janela aberta, recolhi minhas armas porque a marca
de teu corpo e a ressonância de tuas palavras ainda estavam sobre
mim.
Lá, no longe de mim, uma outra mulher te esperava. Eu me sentia
ela, embora sabendo que jamais poderia te dar o que te dei entre gritos e
alucinação: eu te dei a mim. Coisa que só o tempo permite, só o tempo
constrói a destruição de nós mesmos para que possamos ser íntegros. Eu não
queria ser ela, queria apenas que voltasses, desnudo e falido de todas as
possibilidades para encontrá-las em mim. Que sinto tanta
saudade.
Dia sobre dia o sol nasce e ameaça as venezianas. Às vezes chove um
pouco e caminho na chuva-sangue para aliviar a falta de teu beijo. De teu
carinho. Tão bom... Tão bom. Aliviar teu riso que enche a casa de
fantástico estupor. A alegria é a seiva viva que alimenta o amor entre as
pessoas.
Na distância dos dias, o silêncio de teu chamado, é sombra que não
quero ver. Ensombrece as paredes, se derrama pelo chão fazendo riscos
escuros de vácuo.
Toca o sino de minha porta. Voltaste.