| Meiotom - Contos |
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sala de visita |
vana Comissoli |
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Ao meu filho, Henrique e a toda carga que me dá.
Tu chegaste ali, com teu jeito sedutor, extremamente sedutor. Um homem, sentado na minha frente. Olhos escondidos atrás de óculos piratas. Uma postura tão idiota, tão cheia de si que não morri de rir porque eu ainda acreditava em ti. Porque tu querias me ver e ter certeza que ainda podias me enganar.
Eu precisava que tu me enganasses, eu precisava, um pouco, descansar no teu ombro. Falso ombro. Tu me deitavas ali e me iludias, como eu sabia há tanto tempo.
Foi apenas um átimo de fuga. Tu foste minha última fuga.
Teu abraço foi coisa que não esquecerei, embora tão bandido.
Tu és bandido, eu preferiria segurar tua onda se ainda fosses guarda Belo. Meu amor, minha paixão,aonde tu te perdeste?
O almoço chegou ao fim. Tu pagaste a conta. Que besteira, ainda essa imagem, meu amor?
A imagem mais forte do que a verdade que dói tão menos.
Levantei, acho que não foi tão devagar quanto deveria. Eu, nua e salva pelo mar da minha vida. Tu, escondido ali, mentindo para mim. Tentei acreditar, tentei muito. Não deu.
Eu sabia que tinha um revólver na perna, bastava fazer de conta que arrumava as meias fêmeas com que me fantasiei. E tirar.
Eu fiz e as balas estão saindo de meu coração e quero que te matenham tão bem, tão bem que nenhum suspiro teu chegue aos meus ouvidos. Quero te ver morto e cru para ver se posso fazer outra vez.
Tu sentaste ali, na minha frente, com teus olhos, os mesmos olhos de teu pai, os mesmos olhos de meu pai. Tão bonitos e tão ferinos. Machucam tanto com seus enganos.
Encontrei um olho marrom, como o meu. Olho bom, onde toda a loucura se expõe sem vergonha alguma. Onde posso me deitar com serenidade porque sei que a minha loucura se descansará .
Penso::ainda existem pessoas sem loucura; ou elas se enganam, o tempo todo, achando que não são loucas? Fui internada trinta e um dias para descobrir a coisa mais óbvia de todas. O que ninguém quer, mas o que existe: não estamos prontos para enfrentar a vida. Não estamos. E a sanidade, que tanto queremos, não existe. Existe o caminho a ser trilhado.
Meu filho, meu mais sedutor filho, senta na minha frente e encara tua verdade.
Eu não me importo como és e nem do jeito que és. Eu só quero a ti, dentro de meu peito.
Recriando:
Tu saíste de dentro de mim numa madrugada qualquer, uma certa madrugada de dezessete de outubro e teu irmão, eu precisei deixar para trás. Entregar a teu pai, de quem tinha tanto medo, Eu precisei porque pressionavas meu ventre. Foi sangue além da conta, sangue demais. Nas minhas coxas, na mulher que eu ainda era. Sangue teu e meu.
Nasceste daquele jeito pequeno e frágil. Daquele jeito que ainda se pode por no peito e alimentar. Eu alimentei um verme, meu filho? Será que foi isso que fiz?
Teus passos escusos pela casa, teus vômitos, tua perdida solidão. Teu engano.
Hoje meu peito alimenta as diferenças e o reconhecimento, até que me enganem outra vez. Me enganarás? Continuarás a me iludir? Não faça isso porque posso te amar, assim como és. Assim como poço amar teu pai, a quem serei grata porque ele me deu vocês para mim.
Encontrei, que bom, nem todo mundo encontra. Eu consegui me encontrar. Nesse momento posso colocar o relógio para trás e começar tudo outra vez.
Então, tu saíste de dentro de mim numa certa madrugada certa e precisei deixar teu irmão para trás. Eu tinha tanto medo, não por ti que eu recolheria, mas pelo teu irmão que igualmente saiu de dentro de mim e era já carne e corpo. Já existia. E precisei deixar para que eu não te abortasse dentro de mim.
Me ferrei de sangue a teu favor.
Peguei aquela coisinha insignificante e jurei que te transformarias num homem e tu me traíste porque não és um homem, meu filho.Tu trais até tua própria mãe. Te me trais. E quero começar tudo outra vez para que aprendas a não trair mais.
Eu quero.
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