| Meiotom - Contos |
|
|
O TEMPO QUE ANDA PARA TRÁS |
Vana Comissoli |
|
|
O TEMPO QUE ANDA PARA TRÁS
Dei-me conta, de repente, que perdi alguns segundos, ou minutos, talvez horas.
Não adianta retroceder o relógio, os números mudam, mas não recuperam o perdido. Algumas de minhas células morrem no que apelidam de tempo, alguns neurônios apodrecem.
Agora, enquanto divago no que muitos considerariam uma grande asneira, perdi novamente.
Serão todas as experiências inenarráveis? Começo a acreditar que sim, enquanto as narramos perdemos as próximas. Viver o que já foi parece um absurdo não-viver. Esperar o que virá pertence à mesma tese. Qual será antítese? E o que comporá a síntese disso que afinal sou eu? Eu, erguida no passado, deixando o presente escapar a divagar no futuro.
Levanto-me e faço coisas importantíssimas: escovo os dentes, o corpo, a casa. Mergulho em livros e busco a vida morta das palavras de existências passadas. Há um cheiro de mofo nisso. Talvez os de filosofia, que dão respostas inexistentes, sejam os mais vivos.
Recebo uma visita e pomo-nos a conversar algumas horas sobre as notícias de ontem. Um carro-bomba explodiu no Iraque, meninos matam e morrem como baratas pisadas nas favelas brasileiras, ciclone na Austrália varre gente e casas. Um homicídio de pseudo-amor, um recém-nascido jogado no lixo.
Olho o relógio, minha amiga me observa enquanto volto os ponteiros para trás. Perdemos muito tempo, acabamos de não vivenciar uma experiência fantástica. Ela pensa que enlouqueci, tivéramos uma conversa tão séria, tão conseqüente.
Que conseqüência terá, para os fatos analisados, a nossa opinião? Será que seus fantasmas compreenderão com ela a transformação que sofreram? Será que podem compreender alguma coisa ou perderam também a capacidade de ser e voltaram ao pó de onde vieram?
É hora do chá. A criada nos traz lindas xícaras inglesas, o chá também é inglês. Isso denota toda a capacidade de existir dentro da sociedade com o status que te faz gente. Os pãezinhos ainda estão quentes em sua cobertura açucarada.
Nossas máquinas-corpo trituram e sorvem esse óleo vital que as manterão em funcionamento. Fico imaginando que diferença fará aos dejetos da máquina se fosse pão com manteiga e café preto, ou um sanduíche de mortadela. A diferença está na entrada. Na saída é tudo igual. Será isso que nos irmana? Quem é mais sofisticado, ou mais rico, é mais humano? Mais irmão?
Atraso novamente o relógio.
Minha amiga olha seu terceiro brioche, já mordido e o joga para o gato. Não é do gosto do felino. Isso o faz menos criação? Minha amiga tira o relógio do pulso e o atrasa em quinze minutos.
Sorrimos satisfeitas, parece que afinal não estamos perdendo nada enquanto nos olhamos em silêncio e nos reconhecemos iguais. Partícipes de um acontecimento fantástico, até aqui meio banal, normal demais para causar surpresa e admiração: a Vida.
Outro amigo chega para o chá. Senta-se acostumado às xícaras de leve porcelana, ao sabor amarronzado do chá e aos pães recém saídos do forno. Um amigo com quem vivi um caso de amor intenso e selvagem, doce e pacífico. No tempo em que não perdíamos nada. Apenas dois metros me separam dele. Atraso o relógio. Nem isso é possível recuperar.
Não são dois metros que nos distanciam, mas infindáveis minutos perdidos, experiências de aproximação invividas.
A distância do tempo é a única intransponível, não permite volta.
Há fantasmas de incompreensão em seu olhar. Talvez pense: que bom ter-me livrado dessa doida que perdeu o sentido das horas. Eu o conheço bem, não perdíamos nada juntos e muitas vezes rimos dos relógios que saíam do fuso no nosso esquecimento, no nosso embarque total no sentir a vida pulsando. Principalmente quando deixávamos de ser dois e nos transformávamos em um na eclosão de uma energia incapaz de ser descrita. Às vezes transbordando na doçura e no prazer de olhar o outro, às vezes incandescente de sexo. Portanto o conheço bem e vejo uma doída melancolia em seus olhos, uma breve noção que talvez eu esteja certa.
Eu esperei sua volta, esperei tanto! Dias riscados no calendário que eu tentava levar para trás. Ri-me agora, esperar é um total desperdício! Deixei de esperar e ele ficou vindo todo o tempo na hora certa. Foi isso que me fez desistir. Jamais deveria ter cortado a existência entre nós com a distância-tempo.
Vi quando olhava o relógio, estava atrasado, nos disse, meio desajeitado, tantos compromissos...
Comento que dispensarei a criada. Se deixar servir é perda imensa, não me permite sentir o amor pelo corpo que sustenta meus pensamentos e me impede a experiência de transformá-lo em conhecimento do outro através do preparo de seus prazeres únicos. Do leve toque entre as mãos quando se coloca um prato cheiroso na frente do amado, ou aspirar o perfume que colocamos em suas roupas. Transformamos nossa intimidade num circo onde transitam alheios e distribuimos minutos como confeti que se desfaz na chuva.
Minha amiga e eu sorrimos satisfeitas, esticamos as pernas sobre as cadeiras frente a nós e escorregamos um pouco.
Os beija-flores sugam os bebedouros pendurados nas árvores.
Estamos em absoluto silêncio. Agora não perdemos mais nada, o tempo não andará e podemos começar a envelhecer.
|
|