| Meiotom - Contos |
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xana em chamas |
Vana Comissoli |
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Um alvoroço. Saiu gente correndo de onde o diabo as guardou: de dentro dos bueiros, dos quartos à meia hora, das esquinas escusas. Os saltos ralados batendo no chão e tirando lascas das pedras da cidade.
Os homens entraram podendo tudo, metralhadoras com bocas de fome apontando peitos, cabeças. Peitando as vidas perdidas nos sumidouros da prepotência.
A menina, escondida dentro do armário, dentes batendo no medo e na culpa, foi puxada pelo pescoço porque roupa não tinha para esconder o tantas vezes exposto.
O pessoal do Direitos Humanos estavam a postos para salvá-la. Os flashs estouraram numa explosão sistêmica. A camiseta emprestada cobriu a cara e a boca constrita. No meio das pernas ainda escorria a porra alheia misturada aos seus pedaços, ao prazer que rolava sem nome, nem endereço.
No dia seguinte a foto, de olhos tarjados, saiu na primeira página:
PEDOFILIA NO BRASIL NORDESTINO: VERGONHA NACIONAL.
Depois aquelas falácias de como as meninas eram seduzidas, a pobreza que levava à venda do corpo. O estupro e fotos e mais fotos inúteis do desfile de menininhas de doze, treze anos a zanzar nas belas praias do Brasil tropical.
Linda hipocrisia. Temperada pelo insosso da piedade incapaz, do juízo dos apartamentos de meio poder: talvez os piores de todos. Os de grande poder não se preocupam mais, cheiram uma ou duas carreiras de pó branco e virgem para logo a seguir procurar as garotas nem um pouco virgens para embalá-las em berço esplêndido. Os remediados são mais satânicos, culpam o que jamais fizeram, lambem-se no prazer de destruir o corruptível com que sonham em pesadelos de tesão.
O jornal vendeu bastante, a TV deu IBOPE surpreendente. Gostaria de ter mais índices do que esses.Gostaria de saber quantas punhetas foram batidas e quantas filhas perderam a virgindade nos colos de seus pais diante dessas cenas obscenas, sexo espúrio disfarçado de notícia-crime. Gostaria de ver na cara os que acusam a infâmia que aparece e escondem a fornicação do despautério.
Mal e mal completara doze anos, não teve festa, nem bolo recoberto de marshmallow, teve um tiroteio ali do lado que ninguém deu bola e nem se preocupou, sequer chamara a atenção dos homens, onde morava o perigo, as balas perdidas na certeza do encontro. Haveria alguns corpos jovens escorrendo sangue nas calçadas. Cenas tão banais que bastava pular por cima ou dar um olhado de espanto para não pensarem que era despossuida de sentimento. Afinal um deles crescera junto com ela e jogaram algumas peladas de agarra-agarra. Brinquedo de gente pobre e que se escondem na batida em crianças conhecendo o próprio corpo dentro dos apartamentos vazios de amor e paciência.
Desceu até a avenida beira-mar, as luzes e os quiosques brilhando flores perfumadas de fritura de pargo, de batata frita. O estômago esgotado de feijão requentado, de farinha e sardaço.
Não fora sozinha, as amigas eram mais velhas e sabiam usar a cor de sol e de mar; de sujeira e de dor. A passagem estava indelevelmente marcada nas ruas de Fortaleza, Maceió, São Paulo, Porto Alegre...
Sua primeira vez. O homem, de sua mesma cor, examinou a mercadoria, perguntou a idade e a virgindade. Era um tratador de negócios, não sorria, não pechinchava, nem pagava alem da conta. Tocou-a no braço num sinal de “segue-me”. Os hotéis ficam todos ali pertinho, caminhada pouca. Na entrada, tapete vermelho, quase tirou os sapatos de medo, só não fez porque tinha andado o dia inteiro descalça e talvez seus pés viessem a sujá-lo mais do que as solas usadas tão raramente.
Trato feito, preço pago.
Pela primeira vez entrou em um elevador, o friozinho na barriga na hora do arranco, o medo de se saber fora do chão. O deslumbre que o medo provoca. A porta aberta, silêncio amaciado por tapetes grossos. A tesão da virgindade, tantas vezes virgem a cada passo, subindo pelo corpo.
Tinha as mãos suadas, o coração batendo forte e seus meninos de brinquedo se perdendo na escuridão dos dias e nas luzes desse corredor macio. Macio como abraço sonhado, igual aconchego que não se conhece e se deseja além da própria vida.
O homem era alto, loiro, olhos azuis, azuis como o céu onde sonhava em noites de abandono. Não foi rude, foi gentil.
Primeiro a tomou nos braços de um jeito jamais vivido, beijou seu pescoço, de um jeito... De um jeito. Jamais imaginado. Não eram as pernas duras e impostas lá em cima, Lá nas peladas.
Amoleceu, depois disso esqueceu tudo: arrancando a roupa, abrindo as pernas, a dor ferida, o sangue correndo. Uma, duas, quantas vezes? Tantas até a dor se tornar suportável e se transformar em prazer derretido através do grito que derrubou todo o belo edifício e restaram apenas escombros quando acordou.
Depois disso, tudo valia a pena enquanto acariciava as notas dentro do bolso e caminhava a procura dentro das belas avenidas de meu Brasil tropical.
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