Meiotom - Contos


 

Para quem adelaide disse não

Vana Comissoli

Carneirinho, carneirão, neirão, neirão...

                        Diga sim e diga não, não, não, não e não.

                        Querida, sorria agora, seque os olhos, fica quieta, fale baixo. Dance, balance, confetes coloridos quando obedeces ao papai, à mamãe, à professora, ao titio, à titia...

                        À puta que o pariu, Adelaide escreveu no peito que não entendia nada. Calado, danado, o amor, dom precioso. Uma chave surgiu, de onde? Ninguém sabe, ninguém viu, Adelaide a comeu.

                        Eu te amo se...

                        ... se eu for menina ternurinha, bossa nova, boca de beijinhos, limpando os sapatos, comendo espinafre. Ah! Que gosto, que cheiro, que verde. A vaca encheu o campo de coquetéis esverdeados onde as moscas pastam sem sapatos. Eu vi.

                        Sorria, não ria, seja delicada, gentil. Lave as mãos, a boca e o chibiu.

                        Cheirosa, dengosa, mas não muito, colinho dinda, um pirulito ganhei, tinha gosto da bílis que vomitei. Eu comi antes.

                        Como se engasga esta menina, come devagar, bate nas costas, não passa. Tosse, tosse. Levanta a cabeça, os olhos estão vermelhos. Ai, que morre, não morre. O que tem na garganta desta criança? Faringe apertada, campainha defeituosa. Leva para o circo, vai se distrair, então passa. O circo é longe, dá palmada, é fiasco da atrevida. Fica quieta, menina!

                        Adelaide, deitada, fecha os olhos e vê televisão. De olhos fechados? Bem no fundo da garganta, quase no esôfago,não sabe porque magia, feitiço, ou descuido, prende-se um “não” avermelhado, o til se enrolando na imensidão, qual gavinhoso rebento transviando o entendimento. O que entra pelo ouvido é o certo, o que sai do coração é disparate, coisa feia, engodo tuberculoso levando à danação.

                        Dor de estômago assim pequena e calma? O que será? Vai ao médico, vira, revira é fluxo, refluxo. Não é. É gastrite, que asneira, é apenas uma menina e nem é arteira. É sufoco, é mandinga, leva na benzedeira. Alergia, hipocondria, é doente, é danada, de onde saiu esta guria?

                        Não te salienta, Adelaide, mocinha comportada. Não dá beijo na boca, não dança de rosto colado, não deixa a mão bandida caminhar no teu corpo recatado. Namora no portão, não teima que te cuido da janela. O vestido é cor de rosa, boa menina, obediente como ela só, assim papai, mamãe, titio e titia gostam e admiram. Mijou no vestido? E essa, agora! Essa cadela, o que se faz com o estrupício? Só dá trabalho, a desgraçada, e eu, com tanto amor me esforcei a ensinar e carreguei nove meses no ventre, dei meu sangue, minha vida, para a desalmada. Psiquiatra, não tem outro jeito. Adianta? Não adianta.

                        Que ânsia é esta? Não come, não fala, só anda com a mão segurando o peito empanturrado. Cuidado, vai vomitar e se espalha a sujeira pelo chão. Adelaide, com a mão prendendo a boca, corre a se fechar no banheiro e vomita um não apaziguado.

                        Esse sim, esse não, escolhe certo o fulaninho, nada de rapaz desabrigado, há que ter estudo e serventia, trazer anel e falar com fidalguia. Aquele espinhudo é um tesouro, família de bem, bom genro, bom cunhado, ah, e bom marido também.

                        Adelaide, lá fechada, grita a plenos pulmões calados: não, não e não. Sim mamãe é bem audível, sai o que o ouvido aprendeu. Filha assim dá gosto de se ter, um exemplo, será feliz seguindo os “Dez Passos da Harmonia Infinita”. Borocochô, mas tudo bem.

                        Na igreja, tão bonita, o vestido tem uma cauda enorme e o buquê mamãe escolheu com todo carinho, achou uma beleza, esse ficará bem, suspira a mãe. Igualzinho ao meu, Adelaide, que coincidência! Filho de peixe, peixinho é, para imensa satisfação.

                        Na frente do espelho, de noivinha fantasiada, a moça tão amada, enfia o dedo na goela, respinga o vestido de cetim, mas quem verá? Eu digo sim, sim, sim. Entope na goela não infeliz, esse eu não digo, não digo não. Chora de se ouvir lá da esquina, é emoção, tão sensível a minha filha.

                        Teve lua-de-mel com passa a mão, tira os tampos e almoço no restaurante. Teve presente, (porque parece tão ausente?) teve beijo e agora volta para casa onde mora a felicidade. O “Lar doce Lar” pendurado na entrada tem um anjinho de cada lado.

                        No banheiro, chaveada, lá vem vômito e gritos a plenos pulmões calados brotando do peito emudecido. O amor tem um custo que a todos compete pagar. Não digo não, não e não.

                        Faz comida e faz filho, passa roupa, junta lixo e ganha beijo. Aprende. Não ria alto, esbanja abraço, não levanta a voz, não faz escândalo no ato. Que história é essa de viver vomitando? E pára de fechar a porta do banheiro, mija a olhos vistos e caga que ninguém reclama.

                        Vai ao médico, é bulimia, aerofagia, tpm, são os nervos. Toma remédio, tarja azul, laranja, vermelha e preta. Não adianta, que inferno, eu não sabia disso, comprei gato por lebre, bota fora, na privada, comida boa, essa perdulária. Se vai por fora melhor não comer.

                        É bom marido, tem paciência, não vomita, Adelaide, será que precisa de uns corretivos? Não machuco, é só para o teu bem. Seja feliz, a vida é uma caravela rumo ao Brasil onde os mares não encapelam, só precisas descobrir as delícias de navegar, engano teu, engasgo, não existe escorbuto, carne podre, nem fedor. Depressiva, és depressiva e adoras sofrer. Eu venho tarde? É trabalho, filha, trabalho, não me acorda, estou cansado. Fica quieta, fala baixo, goza agora que eu gosto. Quantas tábuas têm o teto?  Que teto, criatura? Estás louca, Adelaide!

                        Estou louca mesmo, todo mundo tem razão, nada me contenta. Que desgraça, desgraçada. Não fecho a porta, quem sabe me suicido? Esse meu peito, tão desconforme, é sufoco, é desgosto. Do que meu Deus? Nada tenho a desgostar. Aprendendo, desprendo tudo que já sabia. Que pensamento é esse? Ó que é isso? É loucura, passação.

                        O passarinho pousa na basculante do banheiro. É verde. Adelaide, de boca aberta a puxar o engasgo com uma pinça. E se saísse cocô? Tem um acesso de riso, o passarinho entra voando na garganta escancarada, com o bico prende a última letra e puxa. Ai, pavor, não tira isso daí, está arranhando o céu da boca e é sonoro, o canalha, faz cócegas nas cordas vocais. Está crescendo, aumentando, já tirou todo o O, vai que se solte, vai que eu grite. Solidão. Vai...

                        O passarinho esverdeia o céu roxo e lá se vai balançando pelo espaço o Não e Adelaide fica gritando:

-         Não, não, não, não, Não.

Quebram-se os vidros, as portas caem, as paredes desabam e os móveis correm rua à fora. Não sobrou gato, nem cachorro e as panelas dançam no quintal.

Onde está Adelaide? Saracoteia vestida de dançarina de Can-can, batendo o dedo na cara do alheio dizendo:

-Não, não e não. É sim quando eu acho que deve ser, mas enquanto isso é não e não. vbdjzuidrbj!!

NÃO, NÃO, SIM, SIM. NÃÃÃÃÃÃÃõ!