| Meiotom - Contos |
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bichano, felino, gato |
Vana Comissoli |
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Ele estava sentado com os olhos entrefechados fazendo de conta que se distanciava do mundo enquanto eu sabia muito bem que era fingimento e havia uma aguda observação de tudo. Na verdade era um danado controlador. Estava sentado então, com o falso olhar apalermado e, de vez em quando se lambia um pouco, relaxado que era, devia lavar-se na pia e não com a língua rósea e áspera igual lixa. Mal a patroa instalou-se ao lado do telefone, acomodada na poltrona macia, ele desceu de leve, disfarçando, as patinhas dissimuladas mal tocando o chão e escarrapachou-se no colo dela para em seguida “sovar pão” trazendo a asma para fora num ronco monótono e feliz. Eu estava acocorado olhando, os pés no chão e o queixo apoiado nos joelhos. O gato, cafajeste, me olhou, estava sempre me cuidando, como se eu pudesse roubar a enorme almofada dourada que era seu recanto particular e inexpugnável. Eu tinha sido criado num canto da cozinha dentro de um caixote de maçãs, não por vontade da patroa, mas por minha mãe que achava certo cada macaco no seu galho. O macaco era eu. Nada de almofadas douradas e não é exagero, era mesmo assim, muito fofa também porque todo dia minha mãe batia de um lado e outro e se, o senhor proprietário não exigisse, até a colocava no sol debruçada sobre a janela. O gato era peludo e cinza, tinha um rabo grande que passeava sob meu nariz quando eu estava distraído ou dormindo. Implicância mesmo. O nome era Shyan Kay Sheck Sudoparis. O meu era Adolfo Silva. Só um silva porque meu pai sumiu bem antes de eu nascer e não tinha mais nenhum nome para colocar na minha certidão. Comia num pratinho que depois de lavado ficava escorrendo um pouco, logo depois do meu. Não podia ser todo dia a mesma coisa, precisa alternar peixe e carne, senão ele recusava e podia morrer de tristeza, sentir-se rejeitado, dizia a patroa para minha mãe. Eu não recusava nada que comida é boa de qualquer jeito, mesmo quando o assado era pouco e não sobrava para os empregados. Uma vez por semana o motorista o pegava no colo e levava ao pet shop para tomar banho, ele voltava cada vez com uma fita diferente no pescoço, eu ficava rindo baixinho enquanto o gato andava para lá e para cá a se exibir e eu sabia que esta história de fita é coisa de viado. Muito embora, vez por outra, aparecia uma gata no colo de outra patroa e ficava na casa alguns dias, era um tempo insuportável, à noite faziam aquela berraçada infernal. Todo mundo ficava contente, a estirpe do gato se perpetuava. Esse mesmo pessoal ficou muito brabo e minha mãe colocou-me de castigo quando me pegou espiando a menina da casa pela fechadura do banheiro, não sei perpetuar a espécie, ou, talvez a minha não seja de perpetuar. Eu andava por toda a casa quando não tinha ninguém. O gato passeava por cima dos móveis e afofava o sofá. De noite dormia na cama dos patrões, não sei como o senhor marido suportava, era um homem sério e se via de longe sua importância. Às vezes se via de perto, quando o carrão ficava resfolegando na garagem, dois carrões. E também quando minha mãe ficava toda linda com a roupa ganha da patroa, dessas que não serviam para mais nada. Fui para a escola, o gato foi para o concurso de gatos, voltou com uma fita plissada e bonita mais uma taça de ouro que ficou em cima do balcão e as visitas admiravam enquanto alisavam o pelo e ele tinha um ataque de asma que no meu entender é doença e não felicidade. Eu custei a aprender as letras e trouxe para casa um bilhete vermelho no caderno que valeu uma surra daquelas. No inverno a patroa me chamava e após muitas e muitas recomendações me mandava levar o Shyan a tomar sol no jardim. Precisava sacudir a cabeça que sim, tomaria cuidado e o gatinho não se sujaria nem iria na grama que tem carrapato e outras ameaças terríveis. Eu levava, mas apertava o desgraçado pelo pescoço até que desse um pulo com as unhas de fora, as mesmas unhas que confirmavam a minha certeza de sua dissimulação. Um dia voltei da escola com uma coceira desgraçada, foi um Deus nos acuda, era piolho e me rasparam a cabeça sob a mais férrea determinação de não me aproximar do gato, Deus nos livre se passar para ele, vai sofrer, pode até morrer. Lavaram-me com creolina, minha mãe me catando toda noite, não sei porquê, eu não tinha cabelo nenhum mesmo. O pelo do gato começou a cair, a patroa chorava pelos cantos, o veterinário veio em casa, virou o bicho de todo lado, mandou fazer exame no laboratório. Mudaram a comida, a almofada, o xampu. Todos os dias minha mãe passava nele um remédio até terminar a queda. Quando os pelos deixaram de se grudar em tudo a patroa abriu champanhe e disse que Deus era pai e o amorzinho da mamãe estava salvo. Gente rica tem umas manias engraçadas, gosta de fotografia por toda parte, tinha do casal em viagens por lugares que nunca ouvi falar, da menina perto do mar verde, verde, do menino vestido com o uniforme de judô e do gato. Muitas, desde que era um nenê. Gato, gatinho, gatão. Vinha o verão e as férias, a família toda viajava, minha mãe ficava de guarda da casa, o gato ia junto. Quando voltava não tinha mudado nada, não melhorava, continuava a caminhar com a cauda balançando só na pontinha e fazendo miau, miau quando a patroa perguntava o que meu bichaninho quer. Não conseguia entender porque dava este nome para o gato se ele já tinha um. O bandido entendia, se roçava nas pernas dela para de repente, zupt, no colo. Hoje ele está dormindo no sofá, não tem um fiozinho de olho aberto. A almofada, agora vermelha, está no chão, sobre o tapete, ela é bem grande. Chego perto devagar, sou um menino grande e forte para meus nove anos, sou rápido, o gato não me pega mais desprevenido para me arranhar. Vou chegando de mansinho, quase nem respiro, pego a almofada e, tão ligeiro quanto o gato, jogo em cima dele e me sento sobre o bolo todo. É difícil me manter firme, mas consigo, até não haver mais nenhum movimento sob mim. Tiro a almofada ponho no lugar e corro para fora. Shyan está muito quieto, parece dormir. Dizem que o gato tem sete vidas, acho que sim, depois do enterro comecei a ficar muito cabeludo, pode ser a idade, não sei, mas adoro dormir ao sol, bem enroscado para sonhar com um paraíso de gatos, onde não existem meninos.
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