Meiotom - Contos


 

o fundo do fundo

Vana Comissoli

                       

A cama não é um bom lugar para uma pessoa... uma pessoa... uma pessoa como eu.

                        Maristela mudou de lado, juntou o travesseiro ao corpo e. Gemeu.

                        Maldita, maldita, mil vezes maldita. Denunciou-se.

                        Levantou, fez como aprendera e bebeu muita água. Deu ânsia de vômito. Debruçou-se sobre a privada e regurgitou o gim da noite anterior. Permitiu que se esparramasse sobre seu corpo, estivesse ele coberto ou não. Respirou e todas as blasfêmias emergiram. A morte foi uma sombra que passou devagar, assim como o que se deseja e não se sabe o que é. Como uma prece muda.

                        Tentei, não consigo, e não lembro mais como começou, talvez tenha sido após a partida de Fernando, talvez antes. Parece que ele me falou sobre não agüentar mais, eu não tinha mesmo jeito.  Sei que tentei parar, embora tenha me sentido cada vez pior. A lucidez me sufoca. Eu só quero fugir, mais nada. Será pedir muito?

Ao levantar ainda conseguiu lembrar de tomar banho, depois tudo se transformou numa névoa disforme, um anonimato cavoucado na inconsciência.

Desde quando? Quando os dias se transformaram numa sucessão de copos, de quedas, de desespero?

Não lembrava e não queria tecer parâmetros com o que fora. Porque um dia fora uma pessoa. Borrara a imagem para não sofrer demais, ainda tinha estes tortos vestígios humanos.

Tropeçou nos pés e agarrou-se à toalha pendurada que escorregou e levou-a junto num embrulho espatifado no chão. As mãos tremiam, incontroláveis. Estas filhas da puta criam vida própria a cada manhã, não suporto isso. Cambaleou até perto da cama aonde acharia a garrafa que a levaria, por instantes, ao mundo estacionado. Bebeu um gole farto, respirou fundo, como sempre parecia renascer, por momentos permaneceria viva neste limbo que a redimia.

Vestiu-se e resolveu comer. Para que comer se estou empanturrada de açúcar alcoólico? Bebeu mais, as mãos se equilibravam com firmeza agora. Podia pentear-se, escolher uma roupa, fazer de conta que não se via ao espelho. Não se espelhar.

Aposentou-se por invalidez, disseram que tinha uma patologia mental qualquer. Ri desta lembrança, sabe bem qual é sua doença. Estava sempre à mercê do barranco e novamente dispo-se a observar o horizonte longínquo que avistava do mirante precário.

Balança, balança a cabeça no infinito, o peito um esparramo de certezas tortas, a solidão escorrendo pelos braços e convidando ao sono ininterrupto. A solidão tem gosto de fel e nada pode preenchê-la. A solidão ninguém explica, só vivendo... a solidão...

O gosto da bebida descendo como um bálsamo fervente fez a ribanceira aumentar e jogou o corpo para frente balançando, a voz esganiçada preencheu os espaços num arremedo de melodia. “Eu quero a esperança de óculos e um filho de cuca legal! Vou colher com as mãos a pimenta e o saaaall”.E balançou, cada vez mais inclinada sobre o vazio aberto à frente. As paredes sumiram e o cheiro da terra úmida tornou o momento mais aliviante.

Quando começou a perder a sensação de estar a cavalo do mundo bebeu um gordo gole. Precisa balançar-se pendurada no penhasco sobre o verde do vale. Que alegria estar sozinha, adeus Fernando, bem sabes que esta vida não vale a pena.

 A música voltou a espatifar a garganta. “Meu mundo caiu”.Risos descontrolados. Caiu, meu mundo caiu de cima do barranco, quebrei a cara, não sou normal, gostava de acreditar nas coisas e achar que a felicidade era um bonde chamado desejo. Vou balançar e balançar até sair voando. Eu posso voar como passarinho, não é todo mundo que consegue, eu consigo, vou driblar os bobões, tem um monte deles. Agora, não tem mais, só tem o barranco crescendo virando ribanceira, penhasco profundo. Só tem eu.

Começou a falar engrolado, tropeçando nas palavras e o corpo tornou-se um pêndulo na anarquia do quarto. Preciso de mais bebida, mais e mais. Me sentirei ótima depois. Não controlou os movimentos, mas soube ir até a cozinha e abrir uma nova garrafa, os olhos estavam quase fechados. Por momentos sentou no chão, mas não se rendeu, logo levantou e seguiu numa dança esdrúxula de volta ao quarto.

Esqueci, preciso comer. Já sei, vou para rua, caminhar por aí. Riu como quem está contando uma grande piada. Ninguém me achará e poderei beber e beber sem os chatos. Idiota, és uma idiota, não tem mais ninguém, ninguenzinho para incomodar. É mesmo, só tem eu a me controlar.

O telefone toca repetidas vezes.

“Ó, o perturbador. Não atendo, não quero saber de nada. Quero a liberdade que mora  comigo. O que eu ia fazer? Esqueci, ah, ah, esqueci. Eu esqueço tudo. Maravilhosa liberdade”.

O telefone cansa, talvez tenha sido a última tentativa e alguém do outro lado esteja lamentando a triste sina. Tira o fone do gancho e manda todos e tudo à puta que o pariu, em seguida ri histericamente.

Vamos voltar a voar e corre pelo quarto com um lençol às costas que imita asas fracassadas.

Atira-se na cama e um cinza límbico toma conta de tudo, frestas e depois rombos são feitos na névoa e centopéias caminham lentamente, os olhos brilham e escárnio enfeita seus risos. Um tremor toma conta de Maristela ao pensar naquelas pernas sincopadas caminhando sobre ela, mas os bichos sinuosos dirigem-se à garrafa e enfiam-se gargalo a dentro.

Aparecem répteis, insetos nojentos, crocodilianos, riem e riem e bebem sem nenhuma compostura. Maristela reage, pega um pau e bate indiscriminadamente, precisa salvar seu néctar, sua preciosa válvula de escape e agarra as centopéias, morde suas cabeças até que um suco pegajoso e branco escorra em seus dentes. Estão todos mortos.

Atira-se na cama, aliviada, perdeu o medo dessas coisas que habitam sua casa e aparecem sempre que se dispõe a sossegar, por isso não pode parar de beber, sóbria não poderia enfrentá-los. Ninguém entende, Fernando achava que tinha alucinações etílicas, mentira, não é alucinação, não posso convencê-los, os monstros aparecem quando estou só.

“Os bichos levaram embora minha embriaguez, como sempre. Já sei, são bichos astrais e eu sou médium, claro, é isso”.

O raciocínio a salva e leva-a a cozinha, come com as mãos o resto de pão dormido lambuzado de patê que ontem não coube no estômago. Mexe ovos numa frigideira engordurada, já várias vezes servida. Comer é uma tortura e um alívio, lhe dão de volta certa sanidade e ao mesmo tempo roubam o esquecimento.

Diante da TV é o lugar ideal para se tomar um copo de gim onde põe água da torneira, está resolvida a não se embriagar novamente, é só para as mãos não voltarem a tremer e para não sentir a terrível dor na nuca. Vá lá que tenha um câncer nos gânglios, melhor não saber se eles operam a gente se morre mais ligeiro, eu sei. Sei lá essa dor...  

Só outro copo para não perder o efeito. Acabou, merda. Tem álcool no banheiro, bebida por bebida é a mesma coisa e dá o plaque mais rápido. Enche meio copo de álcool e completa com água, toma de gute-gute, não sente o calor no esôfago.

Sabe que não pode mais levantar, encosta a cabeça no sofá e fecha os olhos, ao reabri-los a sala está imersa na névoa densa e cinzenta. Os bichos voltarão.

Desta vez são mais ferozes, cobras, aranhas, lacraias. Precisa matá-los mais uma vez. Ah, se Fernando estivesse aqui para ajudá-la. Por que me deixaste neste zoológico de horror? Despedaça uma cadeira na cabeça de um animal pré-histórico que se escondia no canto do balcão. Um furor assassino toma conta dela e grita esmigalhando crânios e dorsos, a sala é uma sangueira esverdeada e fétida. Dorme.

Acorda mais uma vez, um desperdício de energia, suspira. Veste-se e sai. O supermercado é perto, compra comida congelada e algumas garrafas.

O dia acabou, foi um dia estafante, dá muito trabalho lidar com a imundície do mundo. Não bebe até a uma da manhã quando o silêncio envolve a rua, as casas e as pessoas. Estão todos mortos outra vez, por que precisam morrer todos os dias? Deixam-me aqui, sozinha e desperta a velar por suas almas bandidas, a recolher seus monstros esmagadores de inveja e luxúria. Até teus monstros eu recebo, Fernando, com teu pau sempre pronto a me violentar, seu desgraçado. Amargo amor. Amarga vida.

O telefone toca rasgando a noite, resolve atender e despachar para sempre esta presença intrometida e fuxiquenta.

“Alô!” Quem é o estrupício?”

“Maristela, é o Fernando, estás bebendo?”

“Porco chauvinista, bebendo está tua mãe. Eu sou lá mulher de beber?”

Derruba o aparelho no chão, nem se abaixa para juntar. Enche o copo e volta a ciranda do armazenamento da vida num saco bem fechado.

No dia seguinte, logo cedo, Fernando abre a porta do apartamento. Maristela está dormindo no chão enrolada num cobertor, está toda urinada. Ele a pega e a leva para uma clínica sem que acorde uma única vez. Quando abre os olhos está amarrada a uma cama com um enfermeiro ao lado que imediatamente lhe aplica uma injeção. A lucidez breve dói como uma facada, mas não tempo de gritar, cai num sono sem sonhos onde lentamente o cinza é rasgado por uma nesga de brilho.

Fernando cuida de tudo, contrata uma faxineira para organizar e limpar os estragos do apartamento. A mulher fica horrorizada com a quantidade de insetos esmagados e espalhados pelos cantos e embaixo dos móveis.

Maristela está quieta, de novo em casa, um cheiro de alfazema invadiu o ambiente. Faz dois meses que não bebe, Fernando liga todos os dias e até já foram ao cinema. As janelas estão abertas e uma brisa outonal brinca na samambaia nova que esverdeia a sala.

Um ruído baixo, um ciciar começa a ser ouvido, em seguida antenas tremelicantes aparecem sob o balcão. Logo muitas outras a acompanham e movimentos miúdos se seguem.

Maristela ainda não viu nada, mas todos seus sentidos se põem alertas, um medo terrível toma conta dela e sabe que não está mais sozinha.

No banheiro a faxineira esqueceu a garrafa de álcool.