| Meiotom - Contos |
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A NEGOCIAÇÃO |
Vana Comissoli |
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A tarde ia a meio, o sol entornava-se pelos campos espraiando lagos dourados. Esta era a visão para a qual abria-se a varanda da estância. Os dois patrões sentavam-se em amplas e confortáveis poltronas, modernidades que o Coronel Leôncio, dono da casa, havia trazido da capital. O chimarrão cambiava entre eles em espaços rítmicos, e a conversa variava de acordo com o intervalo das chupadas na bomba e o encher da cuia. Tratava-se de negócios, portanto a solenidade se impunha, e as ocupações com o ritual gaúcho propiciava tempo de pensar, reavaliar as ofertas e sopesar os aceites. -
Como lhe digo, Coronel Ataliba, o negócio é mui bonitaço, por isso lhe
chamei primeiro. Somos amigos de velha data e seria descabido não oferecê-lo
em primazia - justificava o hospedeiro, rasgando-se em gentilezas camufladas
pelo tom imperioso da voz. - Lhe agradeço, bem vejo sua finura que, aliás, de há muito me é conhecida. A verdade é que não vim preparado para tal proposta, se impõe que me explique os detalhes da empresa. È mui grande. O Coronel chamou a meninota costurada ao batente da porta à espera de ordens, e cujos ouvidos, por serviência ou desaviso, nada captavam. Fosse ela buscar algo de se mastigar, o estômago reclama. Em seguida o anfitrião limpou a garganta fumaceada a anos por palheiros de gosto acre. Solene, pôs-se à disposição do visitante para os esclarecimentos exigidos. - O que, realmente, lhe rende esta empreitada? Sem
dúvida seria difícil explicar tudo tim-tim por tim-tim. O importante era
saber que se tratava de material de primeira e demandava, para avaliação,
conhecer o preço inicial. Custara caro, muito caro: cabeças de gado, um
eito de terra, além da sementes híbridas de pasto do qual era pioneiro, não
lhas entregaria por pouco. - Coisa boa, portanto, me chegou em primeira mão,
lhe afianço que não tinha uso nenhum, pude formá-la lentamente, dentro dos
ditames da necessidade e, claro, do retorno do capital investido. - Concluiu
a esplanação o Coronel Leôncio. Bateu o taco das botas num cacoete que
apenas os de casa sabiam denotar nervosismo. O mais velho, dono da cuia, cevou o mate com compridas e aromáticas folhas de capim cidró recém colhido do quintal, traziam no cerne o doce cheiro do mel da terra. Demorava-se no feito pensando nos benefícios, tão gratos, daquilo de que hoje se desfazia. Uma saudade prematura lhe trouxe um turvejar aos olhos, reclamou da fuligem do fogão de lenha que chegara à varanda, pigarreou: era entrado na idade. - Que lhe posso dizer, Ataliba? O único motivo que me leva a passar a menina dos meus olhos é a velhice que se achega sem pedir licença, me tolhendo o movimento e a prontidão. A cabrita é ainda muito jovem e tem veias grossas. No mais, nada tenho a reclamar. Marialva, esposa do dono da casa, entra com pratos de pé-de-moleque e rapaduras de leite. É uma mulher, sente-se pelo cheiro de flor, não precisa fazer trejeitos ou meneios de quadris para que os dois homens respirem fundo e sintam-se mais vivos. Ataliba examina-a através de olhos disfarçados, sopesa os peitos, arredonda-se nas nádegas, avalia o entre as pernas e, com cumprimento cavalheiro, lhe acena boas tardes sem levantar-se. A
senhora não é tão jovem; os quarenta anos, no entanto, a adornam através
da postura alta do pescoço e das marcas suaves em torno da boca generosa e
cortante, de onde as palavras não saem audíveis, mas desenham-se com força.
A lavanda de suas saias aliviam a sala e seu útero que não pariu está à
espera. - Quem sabe me dá tempo de uma boa mijada, Coronel? O mate é forte barbaridade. - Levanta-se para sair logo após a fêmea, como quem segue um rastro. - Pois claro, que vá! O alívio da ausência é um ar frio de vento sul que varre a varanda abrindo os pulmões. O ar vem do Uruguai, pleno plano (ah! Mágoa, a que rimas imberbes me levas); da Argentina, argenta subitus e traz na alma o gosto cortante da guerra e da solidão. Leôncio aspira fundo, geme, retorna à vida numa primavera terminal. Nessa noite, o senhor da casa, antes de dormir, deu uma soberba e prenuncial trepada em sua mulher que dormiu em paz. A tratativa é lenta. As tardes alongam-se e os homens enchem suas bexigas acostumadas. De forma alguma tudo deve chegar ao fim, infelizmente, ou.... quem sabe? Quem sabe o cancro se recolhe ao seu casulo? Quem sabe a idade não roe os ossos? Quem sabe um cavalo mouro... quem sabe apenas curva e não... quem sabe? -
Coronel, tudo que precisava saber já está sabido, me cabe lhe dar a
resposta. - A voz é firme, a mão é dura, as bombachas são largas e as
botas de couro cheiram a gordura nova. - Saia, saia, que não queremos nada! - O dono da casa não pode mais disfarçar o nervoso. Chegou a hora, quer realmente fechar o negócio, ou melhor seria morrer com ele? - Pois sim, Coronel Ataliba, é esperado que se manifeste. - Aceito! A chaleira cai, água quente espalha-se pelo chão em meio a fumaceira. Os dois homens apertam-se as mãos e batem nas costas um do outro. O contrato está assinado. O vendedor sorri. A pele curtida pelo sol e pelo vento, parece fosca e a boca logo volta a fechar-se dura. O comprador arruma as costas arredondadas pelo abandono sobre o cavalo e penteia os bigodes fartos que parecem ter escurecido nos últimos dias, não se vê mais as pontas brancas amareladas pelo fumo. - Só nos falta legalizar a venda. Como se fará isso? - Não se preocupe, Coronel, amanhã mesmo chamo o advogado e encaminho a separação consensual, depois o senhor pode casar de papel passado e isso sacramenta nossa empreitada. Não pretendo reter nem sequer uma minoria das minhas ações. Passará para o senhor, Coronel, como mulher legítima.
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