| Meiotom - Contos |
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ADEUS LISBOA |
Vana Comissoli |
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Sentávamo-nos
descabelados e aéreos nos bares de Lisboa a debochar da cidade florida.
Jovens insustentos a falar do que imaginávamos saber. A mesada sempre
escassa chegando de todos os cantos do mundo para que pudéssemos divagar nas
nuvens de nossos baseados, encontrando profundidade nas vidas dos nossos
escritores preferidos. A citar Pessoa como se estivesse ele a sustentar Mário
(de Sá Carneiro) na mesa ao lado e a sentir paixão pelos corpos que Miguel
(Esteves Cardoso) possuiu. Agora,
depois de ti, Maria, rio da insanidade e das asneirices da minha juventude
européia que de Europa não tinha nada, uma vez universal. Falávamos seis
ou sete tipos de português, quase dialetos: havia o meu, cheio de cantos e
recantos tropicais; havia o gelado de Hans, agudo de fiordes e cabeleiras
louras; o de Antonio, com arbitrariedades de Ghoa e uma doçura de peles
negras e luzidias; havia Jacques a empurrar seus erres franceses pelos nossos
ouvidos; havia Tony a nos horrorizar com sua prepotência americana, a rir de
nós, subalternos mundiais ao que lhe respondíamos impondo nossa promíscua
e sedutora amizade. Quando
chegaste eu declamava aos berros do alto da cadeira, tremulando a cair logo,
logo: "
Dizei, Senhora, da Beleza ideia: Para
fazerdes esse áureo crino, Onde
fostes buscar esse ouro fino? De que escondida mina, ou de que veia?" Ao te ver amei Camões por em mim morar e dei a ti:
"Criou
a Natureza damas belas, Que
foram de altos plectros celebradas; Delas
tomou as partes prezadas E a vós, Senhora, fez do melhor delas."
Teu riso
acariciou meus ouvidos e tirei para ti meu chapéu de plumas inventadas, a te
ceder a cadeira para nela te ver presa.
Antes
fugisse eu mais uma vez da noite sombria dos teus cabelos e não fixasse
jamais teus olhos de agudo verdor. Mas, estava na idade da presunção e
imaginei-te caída e bela no meu peito armado, para sempre a mim entregue. Já
te trazia de Coimbra entre encantos, como haveria de pensar que Lisboa te
desnudaria?
Não
levei tempo para descobrir que perversa eras:
"Deixava
a porta entreaberta, esquecida, enquanto se despia devagar, a descobrir o
ventre brando, os ombros magros, devagar em breves movimentos, em secretos
sons e pactos com a infância.
Era
perversa: dormia
toda nua, os peitos soltos e brandos muito brancos e expostos tal como os
seus mamilos largos, róseos , distendidos.
Era
perversa: trazia
os cabelos em desalinho e mornos de sono quando o beijava de manhã, a
dar-lhe os bons dias, com uma distracção do hábito tomada."
Não
posso descrever-te com palavras minhas que de lambuzo de mel são feitas nas
curvas do teu corpo, sirvo-me de
palavras femininas, das três Marias: Isabel, Teresa e da Costa, que só
mulher consegue perceber a perversidade que outra mulher mostra.
Assim
fomos, Maria, a nos encontrar nos cantos, nas vielas, nos barrancos, a
amassar as flores de Lisboa, a nos beijar nas ladeiras onde Eça se escorou
para criar vidas.
Quanto
mais te tinha mais te queria. Queria teus lábios, teus braços, teus
sufocos, teus gemidos cansados, teus ais. Queria teus pensamentos, teus
humores e por fim tua alma para mim entregue.
A
cada dia, a caminhar no Tejo, sozinha, mais e mais te foste e eu, a pensar
que assim o fazias para relembrar as mordidas que te dera nas tuas partes
ocultas.
Que
engano, Maria, que engano.
Eu
a pensar que te mostravas enquanto tu, de mim te escondias.
Os risos
tornaram-se finos, a mão frouxa, o ventre lasso. O doce guardado.
"O
fim não tem tempo.
É fácil
morrer quando tudo está acabado.
E deixar
de ver as árvores.
E
deixar de tocar os muros.
Quando os
há.
O fim não
tem pressa.
Nem
significado.
Se
ao menos fosse uma surpresa.
Ou um alívio.
Ou
uma inevitabilidade.
Poderíamos
rir.
Poderíamos
concluir.
Poderíamos
conversar.
Mas o fim não tem carácter.
Só há
uma maneira de dizer isto.
Só damos
por ele quando já é tarde."
Desgraçado Miguel que fodeste o
amor em sendo "O amor fodido" Como entendias bem da angustiada distância
e das mulheres que as geram.
Como falaste bem dos infinitos fins.
Saturei-me
dos portugueses: melosos, sofridos, gloriosos de amores perdidos.
Acorrentei-me
a este avião que sobrevoa tão largo mar a separar-me do que mais amo, a
devolver-me aos braços do que já esqueci. Às terras que dizem doces,
verdes, bravias, passarinheiras.
Volto aos
braços de um pai morto e de uma mãe enterrada viva na dor da separação.
Volto
Alberto, aberto, vazio.
Oco
renego, renegado coração.
Volto
como se volta à tumba abandonada e deito-me na cama do meu despertar. Volto porque para ti, Maria, não posso mais voltar.
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