| Meiotom - Contos |
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Vana Comissoli |
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LEVA MINHA ALMA
Lucy abriu a porta e os três caras entraram cheios de razão. A cabeça jogada para trás, os maus modos jogados para frente.
− E o que vai ser? A conta ta grande. – O jeito era de dono, ameaçador.
A moça levantou os ombros. Leva tudo, respondeu em voz sem vontade.
A TV saiu primeiro, era mais leve. O mano baixinho carregou sem ajuda. Depois foi a vez do som, se atrapalharam com os fios, mas deu certo.
Lucy sentou-se num banco e ficou esperando, não havia expressão alguma nela. Um vazio. Lucy não está in the Sky with diamonds neste momento. Nada de céu com diamantes. Tentar encontrá-los colocou-a nessa situação de pedra. Agora ela é a pessoa de massa disforme que monta um cavalo soltando fogo pela boca.
A moça abanou para o fogão e foi o único momento de glória, fazia semanas que não o limpava. A gordura estava por tudo por que a única coisa que conseguia cozinhar era ovo frito e linguiça. Quando conseguia. O crack se satisfaz com ele mesmo e não gosta de concorrência.
Foi chato ver a saída da geladeira, afinal tinha sido de sua mãe, por outro lado já estava acabadinha e totalmente vazia.
Usava cocaína há algum tempo, as coisas iam a trancos e barrancos, mas iam. Ainda dava para trabalhar embora vivesse devendo dinheiro para Deus e o mundo. A mãe arrancava os cabelos e o pai xingava que ela não tinha mesmo jeito, que ia acabar com a vida dele. Continuava. Morava sozinha num apartamento no pátio do pai e a mãe estava na dela fazia tempo. Então, cada um na sua.
Começou a namorar, não sei que ranço tinha, mas só pegava adictos. Vai ver era sintonia, os iguais se atraem, explicava. A desgraceira foi conhecer o Minga, usava crack, ela bem sabia que a pedra só dava merda, mas... Resistiu bastante, a viagem dele parecia tão legal e estava usando muita cocaína para atingir o estado legal do princípio. Um saco! A pedra era barata... Experimentou.
Pombinha rola,
voou...Voou.
Caiu no laço
se embaraçou.
Foi idiota. Foi pomba rola imbecil.
Os traficas são legais, cobram o preço certo, cinco reais por pedra, a porcaria é que o efeito acaba rápido e se precisa de mais e mais e mais. No fundo da onda não se pensa em nada, só no cachimbo carregado. Esta é a hora dos lobos. O traficante chegou a pedir cinqüenta reais por pedra. Pagou. E para o Minga também.
Foi um poço sem fundo, um Deus nos acuda, mas quem acudiu mesmo foi a casa. Entregou tudo que tinha dentro e agora os caras estavam levando embora. Sobrou a cama, a mesa e dois banquinhos. Não levaram as louças do banheiro porque eram grudados no chão, mas o chuveiro foi.
A pia e o tanque também ficaram por motivos óbvios.
O desgraçado do Minga já tinha se mandado há uma semana, deixou um cachimbo, a outra namorada já tinha e estava na grana desde que o pai morrera. Estes pais morrem numa hora bem legal. Foi a última coisa que disse antes de bater a porta. Pelo menos deixou a chave em cima da mesa. Sabia que os caras apareceriam para levar tudo. Não sobraria nada para ele.
O Minga era drogado mau. Tem disso − Lucy já divagava, fugia da cena que continuava à sua frente – drogado crápula e drogado bom. A droga não tem nada a ver com transformar as pessoas, só põe para fora.
− Já ta no fim, gata!
A voz tirou Lucy de seus pensamentos por segundos. Logo recaiu.
− É... Isso mesmo... Louco bom e louco mau. Claro, tem a fissura, faz coisas com a gente. Puta que pariu! Dei para aquele chinelão por uma pedra e o desgraçado ainda me entregou das pequenas. O que a gente faz pela droga, meu Deus! Às vezes acho que não tenho jeito mesmo.
Perdeu-se para dentro de si mesma, não viu os homens pegarem algumas coisas pessoais que não estavam na fatura e nem quando sumiram.
− E agora? nem tenho mais nada para trocar. A fissura vai chegar daqui a pouco, ainda tem hora marcada, não é o dia inteiro. Talvez não esteja tudo perdido. Se eu me internasse de novo para suportar a limpeza...
Droga, será que já vou urrar como o Minga? Será que dormirei? Lá sim, vou ganhar uns “boa noite, cinderela” que me derruba.
O Minga urra e se rói, quando agüenta. É duro agüentar... Depois come deseperadamente. Dá fome passar quatro ou cinco dias como ele, sem comer, nem dormir, só na pedra. Eu não faço isso. Será que farei um dia, se eu não parar?
Isso me assusta. É feio. Muito feio.
Lembra-se do rosto deformado de Nádia. Toda inchada, os lábios revirados, os olhos duas bolas. Depois que começou a usar nunca se olhou no espelho, primeiro porque nem pensava em aparência e depois, lá no fundo, sabia que estaria um bicho.
Levanta-se num arranque. O telefone... Foi-se. Droga. Sorte o celular estar no bolso, senão também ia. Trafica dos infernos.
Digita o número no aparelho, enquanto espera atenderem, caminha de um lado para outro. O crack dá ansiedade quando quer voltar. Bate na porta com sofreguidão.
− Atende... Atende logo.
− Mãe! Mãe, depressa. Vem me buscar. Preciso ir agora, antes de desistir.
− Lucy? O que está acontecendo? Estás drogada?
− Ainda não. Vem me buscar. Não quero me drogar. Me leva para lá. Para o útero que me salva. Para a clínica.
Debruçou-se sobre a mesa e soluçou. Voltar não era bom, ficar era péssimo.
Encruzilhada.
Escolhera. Até quando?
Só por hoje.