Meiotom - Contos


 

 

Vana Comissoli

 

O AVESTRUZ VOADOR

 

 

 

Rápido, rápido, rápido...Eu pensava apenas nisso:ver o fundo do prato, a comida descendo aos borbotões goela abaixo.A "boca". Era tudo que eu queria. Meu pai cria avestruz, os cercados ficam nas laterais da pequena estrada que vai de nossa casa até a porteira.Os animais passeiam com elegante displicência. Não entendo como tendo pernas tão ridículas para o corpo arredondado, empoleirado sobre elas, possam ter aquele elástico e elegante.Gosto de vê-las e, para equilibrar o efeito do "teco", sento-me à sombra do capão de árvores antigas que me esconde, para fumar um ou dois baseados no sossego da meia tarde.Nesta hora de pós-almoço eu não vejo nada, uma fixação: a "boca" que me dará a musa branca. A Afrodite de minha loucura. tenho uma ante-visão do efeito eufórico que mepique para catar merda de avestruz ou encher seus cochos de ração,. Apresso o andar quase transformado em corrida, quero os braços da minha deusa. A compra é rápida, uma mão escorregando para dentro de outra e, nessa dança, um entrega e o outro paga. Tudo num único golpe.Volto com o papelote ardendo no bolso, vivendo o momento seguinte, nunca mais o agora que me sufoca.Tudo que eu anseio é a porta fechada que me dá a liberdade de cheirar a cocaína. Um zapt e encosto-me por três minutos esperando a força com a qual a fada branca me sacia.O que me fere logo estará esquecido e eu serei forte e capaz, muito capaz outra vez. Sentimentos e possibilidades que sem ela eu não alcançarei.Há tempos que amalemolência da maconha deixou de bastar. No princípio era bom: eu esquecia, ficava boiando no mundo. Logo achei chato ser inerte e dei a primeira fungada. Encontrei-me ativo, entusiasmado. Aos poucos tornou-se uma necessidade diária e logo, horária.Eu preciso de força para enfrentar o fora de mim que me apavora. Paralisa. A branca me faz correr pelo curral de avestruzes. É hilário ver os animalões correndo, batendo as asas sem poder voar.Os peões gritam inocentes do que me faz bancar o palhaço durante tanto tempo: - Ô, Genaro, corres mais que avestruz macho!- Bate as asas, cara, bate as asas! Eu bato os braços e os bato, os cotovelos se chocando com as costelas. É gozado demais e rio até me estatelar no chão, a cara enfiada no esterco fedorento. Os avestruzes fazem a corte dançando em torno da fêmea, arrepiam as penas, a cabeça, imbecil, a ondular sinuosa como uma cobra, com o balanço do pescoço comprido. Chego a ouvir o barulho como uma engrenagem azeitada: uom! Uom! Uom...Tenho que voltar para casa, sempre volto, pelo menos de vezem quando. Ou finjo, ou fujo. Da polícia, do trafica que me cobra, do cara que quer a minha pele. Eu sou "ligado", sei das coisas, a "maresia", cheirinho bom da maconha, me mostra tudo. Então é hora de me meter num canto sossegado, fumar um baseado e acalmar a virgem dentro do meu sangue, explodindo minha cabeça. Preciso chegar em casa calminho... calminho...Estava eu, no meu capão preferido. Tinha uma erva das boas, era conhecedor e o trafica sabe que não me enrola como os boyzinhos recém chegados na coisa. Batizada vejo de longe. Um dia especial, céu danado de azul, caprichei na charola, um tamanho monumental. Os avestruzes passeando sua burrice. Nem tanto, veio um macho esperto e eu fumando, na boa.O desgraçado se plantou na minha frente, a fumaça subindo, de sarro comecei a fumegar na cara dele. O maluco foi ficando chapado, o pescoço começou a ondular igual quando querfoder a fêmea: uom! Uom! Uom... A cabeça: zóim... zóim...De repente dobrou as pernas e se mocosou no chão, bem ajojado, a cabeça ainda ondulando balé.O grito de meu pai nos ouvidos:- Genaro! De novo nesta droga dos infernos? Dei um pulo, ainda não tinha perdido todo o respeito e principalmente o medo. O fumo não tira o medo, aumenta. Foi quando meu pai viu o avestruz arrepiado, atiradão: zóim... zóim...- O meu avestruz! Olha o que fizeste com meu avestruz!Cacilda! Olha o que o desgraçado do teu filho fez com o meu avestruz! Caiu minha ficha: para meu pai eu era muito menos do que um avestruz viajando.