O AVESTRUZ VOADOR
Rápido, rápido,
rápido...Eu pensava
apenas nisso:ver o
fundo do prato, a
comida descendo aos
borbotões goela
abaixo.A "boca".
Era tudo
que eu queria. Meu
pai cria
avestruz, os cercados
ficam nas laterais da
pequena estrada
que vai de nossa
casa até a
porteira.Os animais
passeiam com elegante
displicência. Não
entendo como tendo
pernas tão ridículas
para o corpo arredondado,
empoleirado sobre
elas, possam ter
aquele elástico e
elegante.Gosto de vê-las e,
para equilibrar o
efeito do "teco", sento-me à
sombra do capão de
árvores antigas que
me esconde, para
fumar um
ou dois
baseados no sossego da
meia tarde.Nesta
hora de pós-almoço eu
não vejo nada, uma
fixação: a "boca"
que me dará a
musa branca. A
Afrodite de minha
loucura. Já tenho uma
ante-visão do efeito
eufórico que
me dá pique para
catar merda de avestruz
ou encher
seus cochos de
ração,. Apresso o andar
quase transformado em
corrida, quero os
braços da minha deusa.
A compra é rápida, uma
mão escorregando para
dentro de outra e,
nessa dança, um
entrega e o outro
paga. Tudo num
único golpe.Volto
com o papelote ardendo
no bolso, já vivendo o
momento seguinte,
nunca mais o
agora que
me sufoca.Tudo
que eu
anseio é a porta
fechada que me dá a
liberdade de cheirar a
cocaína. Um zapt e
encosto-me por três
minutos esperando a
força com a
qual a fada
branca me sacia.O
que me fere
logo estará esquecido e
eu serei forte e
capaz, muito
capaz outra
vez. Sentimentos e
possibilidades que sem
ela eu
não alcançarei.Há
tempos que amalemolência da
maconha deixou de bastar. No
princípio era
bom: eu esquecia,
ficava boiando no mundo.
Logo achei chato
ser inerte e dei a
primeira fungada. Encontrei-me
ativo, entusiasmado. Aos
poucos tornou-se uma
necessidade diária e
logo,
horária.Eu preciso de
força para
enfrentar o fora de
mim que
me apavora. Paralisa. A
branca me faz
correr pelo curral de
avestruzes. É hilário
ver os animalões correndo, batendo as
asas sem
poder voar.Os
peões gritam inocentes
do que me faz
bancar o palhaço
durante tanto
tempo: - Ô, Genaro, corres
mais que
avestruz macho!- Bate
as asas, cara, bate as asas!
Eu bato os braços e os
bato, os cotovelos se chocando
com as costelas. É
gozado demais e rio
até me
estatelar no chão, a
cara enfiada no
esterco fedorento. Os
avestruzes fazem a corte dançando
em torno da
fêmea, arrepiam as
penas, a cabeça,
imbecil, a ondular
sinuosa como uma
cobra, com o
balanço do pescoço
comprido. Chego a ouvir o
barulho como uma
engrenagem azeitada: uom! Uom! Uom...Tenho
que voltar para
casa, sempre volto,
pelo menos de
vezem
quando.
Ou finjo,
ou fujo. Da polícia,
do trafica que me
cobra, do cara
que quer a
minha pele. Eu sou
"ligado", sei das coisas, a
"maresia", cheirinho
bom da maconha,
me mostra
tudo. Então é
hora de me
meter num canto sossegado,
fumar um baseado
e acalmar a virgem
dentro do meu
sangue, explodindo
minha cabeça.
Preciso chegar
em casa calminho...
calminho...Estava eu, no
meu capão preferido.
Tinha uma erva das
boas, era conhecedor e
o trafica sabe que não
me enrola como os
boyzinhos recém chegados na coisa.
Batizada vejo de longe.
Um dia
especial, céu
danado de azul, caprichei na charola,
um tamanho
monumental. Os
avestruzes passeando
sua burrice.
Nem tanto,
veio um
macho esperto e
eu fumando, na boa.O
desgraçado se plantou na
minha frente, a
fumaça subindo, só de
sarro comecei a fumegar na
cara dele. O maluco foi ficando chapado, o
pescoço começou a ondular
igual quando
querfoder a
fêmea: uom! Uom! Uom... A
cabeça: zóim... zóim...De
repente dobrou as pernas e se mocosou no
chão, bem ajojado, a
cabeça ainda ondulando
balé.O grito de
meu pai
nos ouvidos:- Genaro!
De novo nesta droga dos infernos? Dei
um pulo,
ainda não
tinha perdido todo o
respeito e
principalmente o medo. O
fumo não
tira o medo,
aumenta. Foi quando
meu pai viu o
avestruz arrepiado,
atiradão: zóim... zóim...- O meu
avestruz! Olha o
que fizeste com
meu avestruz!Cacilda!
Olha o que o
desgraçado do teu
filho fez com o
meu avestruz! Caiu
minha ficha:
para meu
pai eu
já era
muito menos do
que um
avestruz viajando.