Meiotom - Contos


 

 

Vana Comissoli

COINCIDÊNCIA

 

            Odeio a hora do rush, tudo pode acontecer, pensava Telma enquanto apressava o passo. Assalto, trombada, esbarrão, piada besta, tropeção. Tudo. Até passarem a mão na bunda da gente. Era mesmo um inferno ter se atrasado e agora estar em pleno centro com a zoeira das pessoas desesperadas para escaparem de seus trabalhos.

            As que saíam mais tarde estariam de olhos grudados no relógio que demoraria uma eternidade para movimentar o ponteiro dos minutos. Arre!

            Alguém correndo quase levou seu braço junto. Outra pisou no seu calcanhar e arrancou o sapato do seu pé. O “desculpa” mal foi ouvido por que no final o sujeito já estava lá na frente.

            O vento do fim de tarde arrepiava os braços e ela não tinha trazido nem um casaco. Cruzou os braços para protegê-los com a bolsa bem presa entre eles. Não tinha quase dinheiro, mas... E os documentos?

            As vitrines começaram a brilhar mais com a entrada da noite que permitia as luzes criar como que vida própria. Esbanjavam sedução. Nem Telma resistiu.

            Era uma loja de calçados e bolsas. Ela adorava as duas coisas. Qual mulher não gosta? Dizem que só homem tem fetiche. Dane-se a Psicanálise! Isso era um fetiche e dos bons.

            Estava embevecida, analisando possibilidades quando sentiu uma aproximação. Rabeou os olhos e viu o homem postar-se ao lado dela. Era alto, talvez regulassem de idade. Vestia-se bem, embora informalmente. E tinha um cabelo lindo. Preto.

            Telma era louca por cabelo de homem, do tipo que se percebe a maciez e é liso, não tem pente que discipline. Um pouco comprido, mas não demais. Do tamanho certo.

            Fingiu que não tinha visto nada e grudou o olho na bela sandália dourada. Em liquidação, a desaforada!

            O fulano comentou:

            − Gosto um bocado de sapato feminino, nos pés das mulheres, é claro. Tenho fetiche.

            Telma nem aí.

            O cara não se deu por vencido:

            − Tu também gostas, não é? Parada nessa hora diante de vitrine de sapato só pode gostar muito. Que coincidência!

            Ela olhou para ele e sorriu amarelo. Tomou seu rumo antes do que gostaria, mas sabe-se lá que tipo pode encostar-se à gente na hora do pique.

            Continuou subindo a Borges de Medeiros pelo meio da rua nesse trecho fechado ao trânsito. O sujeito também.

            Que saco, irritou-se. O talzinho emparelhou com ela.

− Subindo também? Outra coincidência. Eu vou para Petrópolis, e tu?

Balançou a cabeça contrafeita. Que diabos, esse cara não se manca? Pensou enquanto se maldizia por sua incapacidade de ser mal educada.

No ponto do ônibus ele quase tocava no corpo dela de tão perto que se postou. Não podia se afastar, a fila estava longa. Nem tinha ninguém atrás dele! Homem é bicho ruim!

− Incrível, não é mesmo? – A voz dele soou quase dentro do ouvido. – Até o mesmo ônibus. Sendo Petrópolis grande como é!

Telma sacudiu a cabeça sem voltar-se. Sentiu um mal estar ou bem estar, sabe-se lá definir as sensações contraditórias. A razão gritando horror e o corpo assanhado dizendo vem. O homem cheirava gostoso.

Quando subiram no coletivo já não havia mais lugar para sentarem-se.

− Desculpa estar tão em cima de ti. Ônibus há essa hora a gente fica igual sardinha em lata.

O desgraçado ainda por cima não tem nada mais criativo para justificar? Se ele passar a mão em mim eu grito.

Tentou dar um passo para o lado. Não tinha jeito. Acabaria em cima do outro passageiro. Aguentou firme.

O cara não parava de inventar conversas tolas, cantadas ridículas:

− Esfriou bastante. Eu gostaria de ter uma namorada nesta noite. E tu?

O que dava mais raiva era o fato de não se negar. Balançava a cabeça, concordando. Sentindo o frio na barriga aumentando. Num acesso de coragem e rebeldia inusitado, virou-se:

− Odeio conversar com desconhecidos. Por favor, vamos parar por aqui.

Ele riu com consistência:

− Realmente é perigoso. Ainda bem que não somos mais desconhecidos. Estamos há meia hora juntos, ou um pouco mais... Meu nome é Fernando da Cunha Machado. Sou especialista de sistemas e trabalho na Dell. Pronto. Completamente conhecidos de minha parte. Falta tu.

− Telma Rodrigues Machado. – Resolveu aderir já que não tinha jeito mesmo. – Sou secretária executiva na Corsan.

− Olha só! Dois machados! Podemos cortar em sincronia. Que tal?

Ela riu. Descontraía-se, até que estava precisando de uma cantada e essa não era de todo mal. O cara não tinha se passado. Quem sabe não seria um tipo legal? Às vezes, por preconceito, medo ou introversão, podemos perder boas chances...

A conversa rolou. Ela já contava dos periquitinhos que possuía. Ele também gostava de aves.

− Sempre almoço no À Mineira. Não tenho tempo de vir em casa.

− Como nunca te vi? Também almoço lá.

Riram.

Destino? Coincidência? Acidente? Karma? Encontro?

Telma estendeu o braço para puxar a corda de alerta de parada. Ele esticou junto. Olharam um para o outro e gargalharam.

Desceram.

− Para que lado vais?

− Para lado algum, meu prédio é esse aqui.

− Nossa! O meu também! Mudei semana passada.

− Eu também.

Ele abriu a porta de entrada.

No elevador, as mãos estenderam-se para o mesmo botão de andar. Não se deram ao trabalho de comentar. Apenas riram e muito.

Saíram os dois para a direita. Já estavam de mãos dadas. Rindo sem parar.

Pararam na frente do 803.

Tiraram ambos as chaves: ele do bolso, ela da bolsa.