Meiotom - Crônicas


 

 

Vana Comissoli

 

 

COSMOLOGIA ORGÁSTICA

 

                                                                                                          À toda minha vida e tudo que aprendi.

 

             Fez-se o grande suspiro.

 Atravessou o Nada e a respiração existiu.

O princípio do 2 que era também Nada, despertou ainda sem vida. O Uno, para acontecer na matéria e criar as linhas, retas e curvas, que não eram ainda, suspirou.

            Deus, dono do Tudo se espreguiçou e cansado da Bem-aventurança procurou em torno de si. Viu a si mesmo e toda a Criação a ferver em seu ventre. Deus reconhecendo a angústia e a solidão que colocaria dentro da criatura. Angústia na solidão do Universo. Do Nada e Tudo.

            Depois criamos a procrastinação. Antes disso...

 

            Ele se espreguiçou e tocou partes de si. Conheceu que podia ser em partes. Tocou a parte primeva. O Uno a reconhecer-Se:

        Ossain, africano e para sempre negro, fez a aliança entre Javé e os homens, Osíris a dar-se a Isis e ter o corpo recortado, dividido em partes no Egito. Na Grécia, Zeus cortado e suas partes jogadas ao mar gerando Afrodite. Afrodite, para nossa consciência ocidental, o primeiro feminino com sua sedução, com seus poderes atravessando os tempos. Afrodite a mesma Mãe Bendita dos hindus, o poder divino feminino Mahimata. Ymai, deusa sagrada dos turcos siberianos, Nerthus para os nórdicos e todas as múltiplas representações da igreja ocidental rerpesentada por Nossa Senhora de Todos os Nomes.

Shesmetet, egípcia,conhecida pelo exótico epíteto de "Senhora do Punt", numa clara alusão à região do incenso e das matérias preciosas do corno de África, Chesmetet, como Deusa leonina, é provavelmente uma manifestação da Deusa Sekhemet.

            A Deusa Mãe é o próprio Corpo Sagrado da Terra - Gaia - que tudo nos dá e que tanta abundância gera e nada nos pede em troca.

            Naná de origem daomeana, adotada na África e representa o dogbê (vida) e o doku (morte).

Em todos os povos e em todas as linguas dos homens, a presença do 2 Receptivo. O Ying para se unir ao Yang em benefício do Cosmo.

            O Uno, na consciência do Tudo, procurando sua Criação. O seu 2. Deus se bipartindo em todas as linguagens. “Há muitas moradas na casa de meu Pai.”

            No 2 o começo das hierarquias que se manifestam de várias formas e sub divisões, mas que, para sempre será o princípio dual imutável e que podemos apenas sentir, jamais tocar. Está imerso nas maiores profundezas do inconsciente.

 

            Nada havia, então encontrou o que tinha. Masturbou-se. Seu prazer saindo de dentro de si explodiu e seu orgasmo expandindo Seu perfeito mundo, detonou o que tentamos decifrar como o Big-ban.

            A Criação.

Sete dias, sete eras, sete espaços inimagináveis inteiros de prazer extremo, criando estrelas, planetas, mundos. O Uno se dividindo e ainda em expansão.

            O ferver de seu ventre criando o Universo palpável que brota do impalpável e as estrelas arrebentando gozo em direção às galáxias que se formam na atração de suas forças e requisitando planetas, se corroendo em espasmos de fogo, lentamente existindo. Explosão.

            Lentamente, para quem tem tempo. Fora do Tempo, um prazer infinito se diluindo onde as coxas surgiram. Um prazer impossível de ser descrito, assim como as cores são impossíveis de ser reproduzidas. Perdoe-me, Van Gogh e todos os mestres da pintura. Tinta, seja lá qual for sua procedência, apenas cópia, jamais o brilho neon da Energia Vital.

 

            Da primeira respiração nascem as energias básicas e intocáveis que copularão e germinarão todos os princípios seguidores do Yang e Ying e se resumirão nos arcanos maiores do Tarô, nos orixás e em todas as manifestações do que existirá em nós nas raízes do inconsciente e na criação de todos os deuses básicos perceptíveis, porém intocáveis e imutáveis. Deuses de todas as etiologias.

            O panteão primeiro se dividindo em inúmeras deidades e criando as hierarquias primordiais que em novo acasalamento gerarão os planos dos mundos-células criadores de outras vidas.

            Chegamos à germinação de Éolo, que se une à deusa fotossíntese que por sua vez pare o deus oxigênio que foi se acumulando no meio de cultura da atmosfera. Oxigênio em busca de seu Olimpo, se quebrando e produzindo Ozônio, seu filho predileto que gerará a possibilidade de um planeta-feto.

            Um pequeno planeta azul colocando suas já muitas vezes repartidas partes, em translação e rotação. Criando, no suor posterior ao gozo, os mares e de dentro dos mares, as criaturas. Os espermatozóides aquáticos de Deus a procriar.

            Desde os abissais marítimos, macho e fêmea, coabitam numa matemática perfeita, os primeiros seres estão mais perto do Princípio: Os hermafroditas. Alguns sobem em direção à luz solar que ainda detém resquícios da força de explosão. Buscam o acabar-se. Voltar ao Uno. Muitos esfriam na distância do gozo e, terrivelmente, completam a bifurcação demoníaca. Outros resistem como os cavalos-marinhos e os seres ditos como aconscientes que teimam em copular e mandar as mensagens primárias: tantos elementos do mar que é difícil enumerá-los. As enêmonas e os infindáveis. Os outros nadam em busca do óvulo.

            A luz e a sombra; o ser e o não ser, o branco e o preto, o bem e o mal. O céu e o inferno.

            O masculino e o feminino. Toda a criatura é feminina. Toda a criatura é masculina. Toda a criatura seja homem ou mulher, é infantil, sentimental, egóico. E temperamental muito temperamental. Todo homem assim como toda a mulher é criatura.

            O bebezinho-criatura, recém parida e fria de pai e mãe, perdeu a liberdade de estar, todo o tempo, bebendo seu princípio Uno. Copulando com o que sabe que existe dentro de si. O si mesmo que nos habita e gera.

            Os corpos semente se materializando, se densificando, separaram-se e começando a grande busca da complementação ao copular, coitar, trepar e todas as idiossincrasias que surgiram dessa busca. Passaram pelo precário trepar e começaram a aprender a fazer amor. O fantástico e incompreensível amor de Deus pela criatura que fervilhou em seu ventre.

Por amor, o seu primeiro suspiro, tal qual o filho sai de dentro da mãe, Deus desafiou sua própria perfeição e criou o Caos. Esse, recentemente percebido pelos cientistas, num corredor que atravessa a França e onde as menores partículas conhecidas, os mícrons, destroem as teorias de organização e mostram que não há regras dentro da Regra, que existe o caos. 

            O caos organizado de Deus.

            O caos de Deus. O homem, o ser humano, um caos psíquico de Deus.

            Ser humano. Ser é possível entender, mas humano? O que é possível entender disso? Nem o dicionário consegue explicar, as menores concepções dentro dele. Humano. Eu sou um ser humano.

            Que partícula do prazer de Deus isto é?

            Somos corpos hermafroditas separados, sempre em busca?  Estamos aqui para ou pela fornicação de Deus? Fomos do mar, entramos, construindo pulmões e centenas de anos para pisar na terra? Andando na terra sentimos, novamente, a bifurcação? E voamos? E nos tornamos pássaros? Ou alguma fagulha de Deus que eram os espermatozóides mais poderosos voaram e ficamos presos na terra alimentadora? O espírito voa e o corpo, filho de Gaia, sonha dentro de si a intuição de seu potencial escondido.

            Respostas foram e são a grande busca.

            O ser humano criado pelo prazer de Deus mal abre seus olhos cegos e principia a busca da Luz. O primeiro simbolismo veio pela maçã colhida em Bodhi, a árvore da Vida, e a kundalini que deve subir serpenteando pela coluna vertebral, mestra do corpo se confunde, ou nos fazem acreditar que é uma cobra do mal. É apenas um movimento ascensional que, através das eras e das muitas vidas toca e desperta chakras adormecidos.

            O primeiro, fonte de geração de vida, Muladhara, onde a grande energia primitiva guarda as necessidades básicas da sobrevivência, foi despertado nos primórdios. Sua atuação é plena e não precisamos mais pensar em respirar, comer, dormir, acordar, selecionar a matéria que mantém a matéria. Até que nossa psique deturpada o corrompa e a energia se aprisione criando cânceres de ordem irreversível.

 O segundo, Svadhisthana, age espontaneamente até que o sexo se conscientiza como raio de luz que o homem deturpa e corrompe com suas convicções de pecado e prevaricação. O sexo que nos tonifica, sacra entrada de energia é conspurcado pelo animal sub humano que construímos ao mesmo tempo que imaginamos humanidades. O sexo que é tratado com descaso utilizando-o como abuso e uso do outro sem reconhecimento de sua divindade. Tão necessário como o ar que respiramos e podemos escolher usá-lo como ar puro ou ferruginoso de vícios. Com descaso e desrespeito, ou amor e entrega. O sexo que não é pleno em si mesmo, mas que se diviniza através do carinho e da partilha. Deus em nós gerando vida material ou psíquica que não foi criado para tão somente procriar corpos, mas para dinamizar o caminho da kundalini.

O terceiro, Manipura, As emoções ainda não sutilizadas pelo amor. Poder e força. Onde, mais uma vez , o ser humano estaciona clamando por glórias deste mundo passageiro, neste olhar impuro as guerras ao geradas e a pobreza de espírito alimentada pela ambição banal e fria do dinheiro importante em si mesmo e não como benefício coletivo. Partes de um corpo maior a que pertencemos e não percebemos engolfados num ego pretensioso e egoísta. Poder que deveria ser ampliado até o infinito numa força construtiva sem limites se compreendêssemos nossa irmandade em Deus. Pelo poder desenfreado matamos, pisamos, esgoelamos vidas que são pedaços da nossa própria vida, uma vez pertencentes ao Todo Uno e Indissolúvel. Estacionados e prisioneiros deste chakra quando não deixamos a kundalini prosseguir sua caminhada ascendente.

O quarto, Anahata, que desperta com sentimentos de afeição, amor e auto-expressão. Potencializado por tão poucos e para o qual nos preparamos através da doação indiscriminada, dos relacionamentos complementatórios e não apenas satisfação de nossas necessidades e preenchimento de carências afetivas. O amor incondicional que atingimos através da ultrapassagem da Ponte de Antakarana, o grande desafio humano. Tocado depois que atravessamos o arco voltaico de nossa prova pessoal e intransferível. Mil vezes incompreendido pelo medo ou pela prepotência em acreditar que não podemos nos ajudar, Nus e expostos em nossa insignificância. Humildados pelo recebimento de ajuda dada por aqueles que não fazem do amor um fim, mas um meio de expansão.

O quinto, Vishuddha, relacionado com a comunicação, a expressão e a auto expressão. Deveria ser um estender de mão e não palavras vãs e invividas de nossos desejos distorcidos. Mais relacionado ainda com o poder do que com a força evolutiva.

O sexto, Ajan, Onde os poderes da mente se ocultam e a auto-percepção se intensifica. Incompreendido pela maior parte dos seres humanos e falhos que ainda somos e desprezamos conhecimentos antigos que nos ensinam a administrar e controlar esta energia usada em pleno século XXI numa polarização cruel de destruição e morte. Ainda preso no que não podemos atravessar: o Manipura. Que glória despertá-lo para nossa divinização! A força da mente para auxiliar, para captar mensagens que desprezamos como não científicas. Será Deus apenas científico? Que engano brutal! Deus é vida e morte e, finalmente ressurreição em outro estágio superior se assim o desejarmos. Passo em direção ao Uno.

O sétimo, Sahasrara, a auto-compreensão e o esclarecimento. “A verdade vos salvará”. Quantos de nós ousamos ver nossa ainda fosca verdade? Só quando pudermos nos encarar e reconhecer nosso diminuto tamanho poderemos nos reconhecer em nossa magnitude, imagem e semelhança de Deus, não um deus criado pelos nossos desejos e emoções infantis, mas um deus verdadeiro, Olho de Luz que só pode ser visto rapidamente pela nossa visão imaterial e intuitiva, que se visto de perto, imediatamente nos consumiria em sua magnificência.

Estes ensinamentos hinduístas perfeitos são desprezados por nossa soberba e se repetem em todas as crenças primitivas as quais renegamos por não virem revestidas de aviões a jato e nem de computadores cada vez mais complexos, quando se revelam apenas na nudez e na natureza. Dos quais nos desconectamos por não olharmos em torno com olhos de ver.

Pela negação dessas verdades milenares nos debatemos no caos que, cedo ou tarde nos destruirá por não ser o caos criado por Deus para nossas infinitas possibilidades e que é alcançado pela fé e pela convicção da continuidade. Que nos foi dado para organizá-lo. Apenas no Caos existe a possibilidade de não sermos escravos, mas organizadores e partícipes da criação.

Tememos o caos psíquico eu destrói para reconstruir em bases mais sólidas. O arcano A Torre do tarô. Em todoas as mitologias a morte surge como ressurreição. Jesus morto e ressurgido dos mortos para nos mostrar a Verdade que até hoje negamos. O intelecto racional que nos foi dado para discriminar o Bem do mal, usado para negar i Intangível.

Alguns raros, já permitiram que a Kundalini atingisse sua glória e se transformaram em seres da quarta dimensão. Presos estamos na terceira por incapacidade de visualizar através da intuição o caminho à nossa frente.

Aos raros conquistadores do Todo permitido ao Homem chamamos santos. Não me refiro aos santos criados pela igreja, mas aos santos de espírito, seres que doaram suas existências em benefício do Todo que compõe a Humanidade. Que deixaram de se importar com opiniões pagãs e transitórias. Não o paganismo pragmático que nos afasta de Deus, mas o paganismo de se reconhecer real que nos une a todos os seres e à natureza, que, afinal estamos corrompendo.

Os avatares, Francisco de Assis, Gandhi, Paramahansa Yogananda e tantos outros disfarçados de gente e que já são espíritos de Luz voltando para salvar a nós, homens das cavernas de vidro e concreto.

Os representantes da hierarquia primeira manifestada nos orixás, nos arcanos do tarô, na vida terrena de Jesus e em todas as forças primitivas e entenda primitivismo como estado mais ligado a Deus do que as pretensas pregações estapafúrdias de doutrinas esvaziadas de sentido, onde a forma impera e nega que a Verdade É em todas as coisas que não usam o intelecto para crer e existir. Usam o sentimento, não confunda sentimento com emoção.

Sentimento é o aspecto puro que se manifesta sob a forma de emoção, sempre transitória e acabada em si mesma. Sentimento que negamos e confundimos com sensações de felicidade, quando são manifestações de nossa verdade permanente.

Panteões e panteões erguidos pelas diversas civilizações criando linguagens diferentes para atingir toda a humanidade em suas múltiplas disparidades.

Deus nos espera em Sua infinita paciência que nos voltemos a Ele e deixemos de ver apenas a forma e passemos a ver a Luz.

A criação foi feita pelo espamo gozoso de Deus. Mistérios que nos serão revelados quando deixarmos a adolescência e entrarmos na ávida adulta dos sentimentos a qual atingiremos através de nossa criança interior (pureza inicial do espírito) que não questiona e aceita a verdade de Sua existência. Queiramos ou não qu .

Se foi do prazer que viemos é no prazer que devemos viver e este não está nos bens da matéria, mas na inefável pureza do espírito de manifestando em bondade, fraternidade e doação. Na igualdade entre todos os irmãos em Deus, em toda a semelhança que existe dentro de nosso Princípio único. Queiramos ou não negá-lo e existindo acima e muito além de nossa vã vontade e soberba. Todos somos iguais perante o Grande Olho.

O Grande Olho passível de ser vislumbrado dentro dos delírios da meditação e jamais tocado pois sua infinita grandeza queima nossa pequenez. Fonte da Luz Perene e inestinguível.

Mas o homem é desvio. Ao abandonar a irmandade deixou de permitir a elevação natural da kundalini e prendeu-se aos primeiros chakras, inconsciente de seu destino que não é imutável pela pródiga doação do Livre Arbítrio.

Esta prisão fez com que nascesse o medo e a escuridão que atravessa a caminhada do homem, a escolha foi aprender através do tatear, em vez de aprender através do coração. “É mais fácil um camelo passar pelo buraco da agulha do que um rico chegar ao Reino de Deus.”

Será então a riqueza um pecado? Se a riqueza visar tão somente o gozo da matéria, permitindo que milhares e milhares sofram a fome e a ignorância, sim. A riqueza é um pecado que nos jogará no inferno de nossas destrutivas aquisições psíquicas. Essa é a riqueza que empobrece.

Se a riqueza for um fim em si mesma ela nos matará a possibilidade de desenvolvermo-nos. Mas, se, ao contrário, ela prodigalizar a abastança de todos aqueles que dependem da matéria para manter a matéria, ela se torna veículo e, portanto milagre de sustentação e prova de doação e desprendimento.

Se a riqueza for do espírito, ela ajudará a ultrapassar a condição de alma e tocara os dedos de Deus e enxergará na intangível possibilidade de visão, o Olho de Deus a perscrutar o Universo, cioso de suas criaturas e da magnitude que possuem através de um corpo máquina que suplanta todas as máquinas mecânicas criadas e as que virão a ser.

O homem, por interesses fecundados por sua ignorância espiritual, desviou-se da rota e criou o karma ao qual se atrelará até que a liberdade de escolha o leve aos desígnios evolucionistas novamente, assim como já existiram e voltarão a existir.

A Ponte de Antakarana não mais teste, mas passagem tranqüila da kundalini através dos chakras para o apogeu da estada passageira do homem na humanidade tal como a compreendemos agora e que se transformará em passo seguro e irrevogável para a nova humanidade que virá reinar não mais pela força e a humilhação, mas pela graça e o reconhecimento.

A Humanidade do Deus vivo dentro de nós, de nossa consciência imortal.

 

 

Vana Comissoli