| Meiotom - Contos |
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Vana Comissoli |
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ESCARLATE Era uma raposa vermelha. Por favor, não me diga que todas as raposas são vermelhas. Elas são avermelhadas. É diferente. No inverno ficam alaranjadas. Especifico: era escarlate, mas não a Scarlet O’Hara que o vento levou. Sou uma pessoa normal, quer dizer, não completamente, só um pouco. Chamaram-me de pouco convencional, mas isso não é razão para que essa raposa maluca apareça cada vez que eu digo uma gracinha, rindo às bandeiras despregadas da minha cara. Escarlate, esse passou a ser o nome dela, foi batizada em nome do Endemoniado, dos arcanjos de Satã e de toda legião dos gozadores de caras alheias. Escarlate não atravessou o caminho da mata por onde eu faço minhas caminhadas diárias e sadias. Ela surgiu. Não digas que nunca dou caminhada alguma, muito menos longas. Tu não entendes nada dos meus caminhos. São tortuosos e têm bifurcações onde me perco às vezes. Eu disse que não era totalmente normal, portanto é compreensível que minhas trilhas sejam internas. Feitas de palavras. Se não entendes é por que nunca aprendeste a ler direito, a buscar conhecer a alma das palavras e suas intenções. Dentro delas moram os sentimentos que os homens nem de longe conseguem perceber. Medir sua intensidade. As palavras são as chaves do coração e do pensamento. Sua decodificação. Não desvia o assunto. O meu problema é uma raposa vermelha. Quando te contei de como a bandida ria, tu ficaste muito sério, com o deboche escondido na tua prepotência: -- Será que era raposa?...E ser for, será que realmente riu?...Nunca ouvi dizer que elas são debochadas... Parecem tão donas de si... Uma vez me aconteceu o mesmo, mas era um rato. Ou talvez eu estivesse de porre. Essa foi tua elucubração filosófica sobre minha raposa. Só faltou me dares uma aula sobre a Raposa e as Uvas. Essa fábula idiota que contam para termos medo das raposas humanas que são muito mais perigosas do que uma raposa vermelha, mas que logo percebemos seu cheiro sórdido. Fedem a enganação. E que lástima, ratos aparecem para qualquer um, raposas vermelhas só aparecem para os sonhadores. Tu não entendeste nada. Escarlate tem uns olhos bobos para um animal tão arguto. Outra mentira porque raposas são covardes, morrem de medo do predador homem, esse bicho que mata por prazer, tanto que é capaz de matar a si mesmo para o sadismo escorrer junto com o sangue. Mata pelo poder que é uma praga que dizima a humanidade. Mata para ouvir barulho de tiro, ou o suave zum de uma facada. Olhos pequenos e negros. Pequenos e redondos como um ponto final. Nem ao menos de interrogação ou exclamação. Um babaca e simplório ponto final. Daqueles vagabundos que se encontra em qualquer frase. Dois pontos porque não era caolha. Tem orelhas, curtas sem a delicada penugem que venta nas orelhas das raposas avermelhadas. Duras e imóveis, não se importam em ouvir as dores do coração dos outros, nem as alegrias. Essas orelhas espetequeadas não se mexem. São brancas por dentro. Porém não possuem a atenção das raposas de carne e osso que se empinam ao ouvir sinais galináceos. Procuram saber quantas galinhas serão. Preparam-se para os embates, não são bocós como os homens que disparam suas metralhadoras de desaforo sem objetivo além de ferir e magoar. Acham-se muito sagazes com isso. Tem braços e não longas e elegantes patas. A Escarlate é uma gozação ambulante. Balança os cotos para mim e sei que está rindo porque eu vi atrás dela: ha ha ha... Três não, são sempre dois. Acho que é um para mim e outro para ela que perde tempo atravessando as estradas dos outros. Talvez seja enxerida e mexeriqueira. Se não fosse porque se importaria com minha vidinha sub-reptícia? De janela? O peito também é branco. Pura enrolação, tentativa de copiar os belos peitos das raposas avermelhadas. Eu acho que é por não ter coração palpitante, que sente medo, prazer e dor. É uma raposa de chicle, a gente precisa mastigar e jogar fora quando acaba o açúcar. Parece um gato, mas não é, nem sequer o Garfield, ou o da Alice no País das Maravilhas que pelo menos sorri. De escárnio, mas sorri. Alguma coisa se mexe dentro dele e é listado, de um bonito listado furta cor. Quem será que furtou o riscado do gato da Alice? Não fui eu. Não roubo nada, apenas uns furtos esporádicos de alguma paixão vira lata e transitória. Eu vinha com tanta vontade daquela boca! Daquele corpo! Nem pensava em animais, muito menos em raposas vermelhas. Ela atravessou calma e disfarçada. Fugi, não por medo, mas é que a vontade do beijo era tão grande que eu caçaria a Escarlate só para sentir sua boca na minha. Ela percebeu minhas intenções altamente sensuais, ou seriam de pura carência? Sei lá, de alguma coisa indefinida e constante dentro de mim. Fantasmas talvez. Ela percebeu. Parou no meio da trilha, os olhinhos de ponto me olhando batendo aquelas perninhas ridículas. Ficamos nos encarando. Eu, puto da cara. Ela só na gozação. Pensei o que poderia fazer para essa coisica sumir? Desaparecer para sempre. Estou de sacio cheio de pessoas que me olham como quem ensina o tempo todo e saem rindo dizendo que eu vá tratar da cabeça, não bate bem nas engrenagens. Estou pelas tabelas de quem pretende saber por onde andei e julgar meus pseudo erros. As pessoas boas e bem intencionadas que dizem que a vida é água parada e que não adianta nadar contra a maré. O bom mesmo é ser boiada, pensar mediocremente, agir nos conformes dos decálogos escritos na memória dos que não vão a lugar algum. Dos que tem medo de olhar um pecador e apertá-lo em abraço para salvá-lo da dor de pecar. Um pecador é obstáculo para as boas ações, para os puros de coração cheios de normas e regras que aprisionam a alma e os sentidos. Preciso me livrar desse diabinho interior que não deixa eu me esquecer que devo escovar os dentes e ser saudável. Mas faz com que eu esqueça de dar bom dia para os desconhecidos, meus irmãos. Não permite que eu bata um papo com o catador de papéis que deve ter histórias que jamais viverei e seria ótimo ouvi-las sentado no meio fio. Me pressionada dizendo que os loucos devem ser mantidos aprisionados em sua loucura e não podem ser felizes porque andam na contra mão da normalidade. Inibe-me dizendo que a classe maldita dos artistas é toda assim, meio maluca e diz coisas que deveriam calar para tudo continuar igual e banal. Nem deu um estalo quando cliquei deletar e nunca mais precisei ver a Escarlate. Saiu do rol de meus emoticons. Até o dia em que meu amigo recebeu uma Escarlate e achou uma gracinha.
Vana Comissoli
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