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FANTASMA
Foi aos pouquinhos. Um peso, dois pesos, três pesos... Foi. O rosto era branco, a roupa branca, a luz branca. Seria redonda? Existe isso? Paredes brancas, suas mãos brancas, lençol branco como há muito não via. No meio do espanto reviu a publicidade do Omo,o sabão que lava mais branco, mas não se lembrava de ter se oferecido para fazer o comercial. Faço comerciais? Parecia que sim. Lembrava das luzes brancas do set de filmagens, alguém passando pó na ponta do nariz, outro alguém arrumando seu paletó. A camisa branca sobre a cama branca... branca... branca. Estrela Dalva, a primeira e a última, branca no céu. Onde seria isso? Por um instante a brancura se transveste de um negror que mais negro fica pela proximidade da brancura que há pouco estava ali ao lado, por dentro, por fora, em tudo e completa. É apenas um átimo. Um desmaio. Logo está apertado como se as paredes se acotovelassem sobre ele. O túnel da travessia para a morte, tantas vezes descrito e do qual riu e sacudiu os ombros. Estou morto! Diante da inevitabilidade lágrimas rolam, Eros e não Tanatos tenta gritar, a voz trancada na garganta. O pai põe torniquete em sua perna e estanca o sangue. Vermelho sobre o branco da pele. As coisas começaram a acontecer e sentiu alívio: estava vivo, foi apenas um mal-estar passageiro. O menino: jogodebolapandorgapapagaiopipa, uma música soa alegre, acanoaviroupordeixarelavirar, bolitacorridasjoelhoraladomãemercúrio. Não está rápido demais? Passapassapassará. Seios bonitos recém-nascidos bom de por a mão, hormônios borbulhando, casamento, filhos, pressão, alugelsaláriosupermercadofraldas. Como é rápido! Igreja, filhocasandonetonascendo, filhaquepartefilhoquevolta. Apito de trem lá na estaçãozinha de Santa Bárbara. Isso foi ontem, quando eu tinha seis anos. Seis? Cadê o zero? Menino bonzinho nunca tirou zero na escola. Mulher amada, dinheiro na mão, viagem para a Escócia. Quem escolhe este país para viajar? Eu... Eu... Terno e gravata, vai ao médico. É a próstata. Coisa simples. Puxa, cresceu. É, foi rápido, nem vi o tempo passar, ainda ontem... Uma cirurgia, coisa simples, todo mundo faz. Corte na carne. Filme pesado esse Navalha na Carne. Sangue no branco do avental, no desvio do olho se abrindo. Piscada. Já fechou? Zunido no ouvido, fala baixa, mão na mão, estetoscópio no peito. Tum... Tum... Tum... Está batendo certo, despertador às sete todos os dias, cafénamesatorradeirapãoqueimadosucoaguado, tchau. Beijoligeirocomcheirodeontem. Onde se meteu a minha mulher, paixão para sempre, toda encantada? Não é essa aí com sono no olho, bocejo na boca, cara amassada na noite sem sexo. Um peso, dois pesos, três pesos todos os dias durante uma semana. Agulha na veia, a velha é feia. Onde estão as enfermeiras gostosas que aparecem nos filmes? As paredes brancas, o lençol, as mãos sobre ele, entra um, saem outros, brancos... Brancos. Anjos? Em cima da cabeça o crucifixo com o homem morto e o terço rolando as pedras nas mãos da mulher que sibila Pai Nosso. O medo negro, asas da morte. Cadê o simples da faca e sangue, depois o fechamento sem dor, sem ontem? Cadê o amanhã? Abrem a janela para o dia cinzento, nuvens de temporal. Não é bom morrer no temporal, a alma se perde, palavras antigas que aumentam o medo. Quem luta não morre, fica vivo agarrado no braço da cadeira. Lívido e parado. Sem sangue, sem dor. Quem crê não morre, abre os olhos para o coro dos anjos e as harpas soltas no céu. Quem foi mau e faltou respeito, roubou dos pobres, mentiu para o amigo, traiu a mulher, virou prefeito, encheu a burra, falou discurso vazio, acorda para o inferno cheio de fogo e sangue, a faca todos os dias cortando os pulsos. O medo do lado, vestido de farda com cara de urubu planando sobre a cabeça. Morrer se morre. Não tem um jeito mais fácil? Sem lembrar o que se fez ou deixou de fazer? Virando defunto sem perceber, os olhos bem abertos vendo colorido, reflexo na água, aterrissagem suave para encontrar os amigos numa festa com uísque de boas-vindas. Nada de harpa, um som maneiro, tolera música clássica desde que não seja um réquiem. Não tem graça nenhuma morrer assim na flor da idade, apenas 60 anos, deixando de fumar lá pelos 40, dieta de muito espinafre e pouco sorvete, caminhadas na manhã que nasce, físico de galã, cabelos brancos nas têmporas, o resto tingido e ninguém percebe, um pouquinho de botox, firme e forte no Viagra. Não tem graça nenhuma se ver assim nu, bunda de fora para injeção. Vai ver descobriram câncer e não disseram, se soubesse lutaria feito tigre e sem bengala, resistiria às 12 cirurgias e sorriria na televisão. Malditos! Morrer em branco, mijando na comadre, ficando magro, perdendo as carnes, sem escovar os dentes que servem para rilhar de ódio da vida que o matou. Se me trouxerem de volta eu juro que... Rufar de tambores dentro dos ouvidos, cabeça explodindo, arfando em busca de ar. São os demônios que me vieram buscar, anjos não batem tambor. Sou réu confesso e me arrependo. No último momento o arrependimento salva a todos, promessa feita há mais de 2.000 anos, me lembro. Se eu fechar os olhos faz de conta que é sonho e a morte se ilude, me deixa nessa que para outra eu não quero ir. Talvez não sejam tambores, mas a tampa do caixão e, dentro, claro que falta ar e é negro, negro com forro de cetim branco. Comprarão o melhor de todos porque sou um grande homem. Que droga, os vermes comerão o branco e o negro do mesmo jeito e eu aqui trancado sem poder fazer nada. Os intestinos se reviram e torcem as tripas e não sou ninguém porque o de todo mundo se torce e os malditos vermes comerão a madeira mogno ou pinho cheio de nós. Mas espera um pouco... Estou pensando. Estou morto? A vida é eterna, então estou mesmo numa roubada. Abre os olhos e todos estão sorrindo. O médico de camisa esporte mostra o polegar para cima, deu tudo certo, eu não disse? Que merda, que merda, agora eu me conheço e quero morrer porque não valho nada e comigo não posso viver. Foi um ataque fulminante, saiu no jornal, os médicos não têm explicação, pois a cirurgia foi um sucesso e o homem nem cardíaco era. É isso que dirão? |