Ao meu amigo amado,
distante, sempre
presente, Udo, pelo prazer de
“maluquiar”
palavras.
A Sombra
sentava-se pálida sob a amendoeira em flor. Suas vestes estavam
desbotadas pela falta de luz e trazia nos cabelos certo cheiro de mofo do
passado. Falava de forma gregoriana, canto chão, como se o nada fosse um
pedaço da certeza.
- Minha vida
fácil não permite sono tão fácil. Sim, na verdade o tenho, mas nem
tanto...
Tanto.
Era um dia de sol
e a brisa do mar amaciava as copas das amendoeiras num carinho arrepiante,
como se a doçura fosse um pedaço do nada. Meio cansada de tantas costas
debruçadas sobre o tronco entortado por elas, a Amendoeira perguntou ainda
submissa aos costumeiros reclames:
- Tem ou não tem?
Ou nem tanto tato tens?
A Sombra
continuou a falar com ela mesma, árvores não falam, nem sombras, coriscou
um pensamento atrevido, logo empurrado para um canto de vazio
esgotado.
- Como posso ser
tão insensível a ponto de não saber mais se tenho sono? É, acho que é
falta de tato.
- Ou tanto tato
tens que não sabes mais se o tens? Às vezes acontece e a gente nem percebe
que se tem demais o que não era para ser excesso, ou se tem de menos o que
não deveria faltar. Ou de fato tens um tato tão sonado que não sabes se o
tens no sono ou no sono o tens.
A Sombra
emperdigou-se. Era quase meio-dia nem na esquerda, nem na direita, nem
para frente, nem para trás, meio dia se cravando no centro da sombra nada
centrada:
- Mas se é assim,
porque tenho vontade de deixar tudo quieto?
A amendoeira
aliviou-se no frescor de uma rajada mais forte de brisa respingada de sal
e distâncias. O bom da distância é que ela é quieta, quieta, como mortos
ambulantes sem sangue que percorrem os caminhos já trilhados e não levam a
lugar algum que não seja ao da saudade.
- No quieto se
aquietam as coisas que gritam nos ouvidos de quem tem
tato.
É incômodo ser
sombra, pelo menos às vezes quando não queremos mais ser ouvidos, apenas
entrevistos no meio das sombras que se misturam na areia branca como
manchas na luz para torná-la suportável. A Sombra pensou e respondeu, nem
sabia se por educação, ou por hábito de sempre responder. Se a luz anda,
ela obrigatoriamente tem que responder se alongando ou se perdendo dentro
de seu escuro total.
- Não ouço
gritos... Mas de repente é só porque não sei que
gritam?
Ao meio dia os
pensamentos se tornam iluminados pela luz olorosa da alma aberta à fórceps
pela estranha luz que brota de dentro.
- Os gritos estão
aquietados na alma cheia de tato.
- Ai, ai... Gemeu
a Sombra. Ai,ai... Me confundiste.
A sesta já
começava a fazer seus movimentos de preguiça tão boa de se filosofar
enquanto os olhos vão se fechando e olhando só o que tem lá no mundo que
não é mundo e é tão bom de se estar.
- Mas é tão
simples!
- Segurando-se no
tronco enquanto as pernas se esticavam na passagem da hora, a Sombra
reclamou:
- O binário é
confuso!
- Quando se tem
muito tato, os gritos ficam aquietados para não tirar o sono de
ninguéééém... – A amendoeira esgarçou a voz que saía frígida dentre a
folhagem verde como esperança morta. Porque esperança não é verde como
dizem, é laranja, quase vermelha e incendeia a vontade da
gente.
- ... Porque os
gritos negativos se multiplicam
e viram gritos positivos.
Gritos negativos são gritos com sono de
acordar.
- Siiiim...
Gritou a Sombra.
- E os positivos
são quando perdemos o tato de não gritar
são gritos que só não
saem por falta de vento. O peito apertado não tem vento que balance o
grito que não é gritado.
- Entendi! –
Gritou bem alto a sombra e estremecendo tudo em volta, enquanto os
pássaros arrepiavam as asas pela falta de tato de uma sombra sem teto.
Livre, leve, solta na grande sala do céu
liberto.