Meiotom - Contos


 

gritos cruzados entre a luz e a sombra

Vana Comissoli

 

    

 Ao meu amigo amado, distante, sempre

 presente, Udo, pelo prazer de “maluquiar”                                                                 palavras.

 

 

     A Sombra sentava-se pálida sob a amendoeira em flor. Suas vestes estavam desbotadas pela falta de luz e trazia nos cabelos certo cheiro de mofo do passado. Falava de forma gregoriana, canto chão, como se o nada fosse um pedaço da certeza.

     - Minha vida fácil não permite sono tão fácil. Sim, na verdade o tenho, mas nem tanto...

     Tanto.

     Era um dia de sol e a brisa do mar amaciava as copas das amendoeiras num carinho arrepiante, como se a doçura fosse um pedaço do nada. Meio cansada de tantas costas debruçadas sobre o tronco entortado por elas, a Amendoeira perguntou ainda submissa aos costumeiros reclames:

     - Tem ou não tem? Ou nem tanto tato tens?

     A Sombra continuou a falar com ela mesma, árvores não falam, nem sombras, coriscou um pensamento atrevido, logo empurrado para um canto de vazio esgotado.

     - Como posso ser tão insensível a ponto de não saber mais se tenho sono? É, acho que é falta de tato.

     - Ou tanto tato tens que não sabes mais se o tens? Às vezes acontece e a gente nem percebe que se tem demais o que não era para ser excesso, ou se tem de menos o que não deveria faltar. Ou de fato tens um tato tão sonado que não sabes se o tens no sono ou no sono o tens.

     A Sombra emperdigou-se. Era quase meio-dia nem na esquerda, nem na direita, nem para frente, nem para trás, meio dia se cravando no centro da sombra nada centrada:

     - Mas se é assim, porque tenho vontade de deixar tudo quieto?

     A amendoeira aliviou-se no frescor de uma rajada mais forte de brisa respingada de sal e distâncias. O bom da distância é que ela é quieta, quieta, como mortos ambulantes sem sangue que percorrem os caminhos já trilhados e não levam a lugar algum que não seja ao da saudade.

     - No quieto se aquietam as coisas que gritam nos ouvidos de quem tem tato.

     É incômodo ser sombra, pelo menos às vezes quando não queremos mais ser ouvidos, apenas entrevistos no meio das sombras que se misturam na areia branca como manchas na luz para torná-la suportável. A Sombra pensou e respondeu, nem sabia se por educação, ou por hábito de sempre responder. Se a luz anda, ela obrigatoriamente tem que responder se alongando ou se perdendo dentro de seu escuro total.

     - Não ouço gritos... Mas de repente é só porque não sei que gritam?

     Ao meio dia os pensamentos se tornam iluminados pela luz olorosa da alma aberta à fórceps pela estranha luz que brota de dentro.

     - Os gritos estão aquietados na alma cheia de tato.

     - Ai, ai... Gemeu a Sombra. Ai,ai... Me confundiste.

     A sesta já começava a fazer seus movimentos de preguiça tão boa de se filosofar enquanto os olhos vão se fechando e olhando só o que tem lá no mundo que não é mundo e é tão bom de se estar.

     - Mas é tão simples!

     - Segurando-se no tronco enquanto as pernas se esticavam na passagem da hora, a Sombra reclamou:

     - O binário é confuso!

     - Quando se tem muito tato, os gritos ficam aquietados para não tirar o sono de ninguéééém... – A amendoeira esgarçou a voz que saía frígida dentre a folhagem verde como esperança morta. Porque esperança não é verde como dizem, é laranja, quase vermelha e incendeia a vontade da gente.

     - ... Porque os gritos negativos se multiplicam

e viram gritos positivos. Gritos negativos são gritos com sono de acordar.

     - Siiiim... Gritou a Sombra.

     - E os positivos são quando perdemos o tato de não gritar

são gritos que só não saem por falta de vento. O peito apertado não tem vento que balance o grito que não é gritado.

     - Entendi! – Gritou bem alto a sombra e estremecendo tudo em volta, enquanto os pássaros arrepiavam as asas pela falta de tato de uma sombra sem teto. Livre, leve, solta na grande sala do céu liberto.