Meiotom - Crônicas


 

 

Vana Comissoli

 

 

MERGULHO

 

 

 

 

 

Os olhos se encontraram.

O arco voltaico se estabeleceu imediatamente.

A luz azul subiu através de todos os chakras, percorrendo os brilhos da kundalini até seu apogeu cobalto.

O tempo se desfez num átimo e mergulharam no Eterno. Sensores, regras, culturas, permissos, se desmancharam. Era um encontro, reencontro, êxtase do que se é, ou terá consciência de ser um dia.

Na imensidão do “Não Sei” se acharam ao se perderem. Encontraram a mais substanciosa forma de simplesmente Ser.

A partir de um olhar que revolucionou todos os conceitos.

No instante breve e fugaz da cama, nada foi pensado ou questionado. Um turbilhão, pele se estabelecendo, vulcânica, na outra pele. Eterno e permanente guardado, resguardado nos porões inacessíveis do inconsciente. Perséfone e seu Hades a transmutar no fogo escaldante do Interno. Inferno. Ela subindo à terra de sua mãe Deméter e trazendo os arcanos da alma. Entregando aos homens a possibilidade de renascer em bandeja de prata e ouro. Afrodite Uraniana compartilhando Afrodite Pandemos. Reunidas num só ato: o amor físico transcendendo.

É fácil entregar-se ao chamado do encontro, do deus interno e perene escondido no profundo abismo inviolável do inconsciente. Portal 1111. Não está entre as areias do Saara e sua hora não existe no tempo humano, existe apenas no tempo Destino.

As almas sagradas, esquecidas do si mesmo na terceira dimensão obliteram sua origem e navegam, sem conhecimento, sem sabedoria através da atividade mísera da pequenez humana. Maya revestida por sete véus.

Escutam o chamado distante, sussurrado, e vão ao inelutável encontro. Esse é o momento mágico, onde não há pensamentos, apenas desejo imenso de complementação. É o momento fácil estimulado pelos sensores extraordinários à razão.

Voltar à quadratura dos dias materiais é o risco enfrentado. A razão e o intelecto, ferramentas louváveis para a movimentação no plano físico, se tornam armas de afastamento. Aparecem os “Não Sei”, Não devo”, Não Posso”. Conflito estabelecido.

Quem está em guerra é o certo e errado da cultura, dos dogmas, da traição ao espontâneo contra o que a alma clama. Difícil momento. Intraduzível. Inenarrável. Raro, ao alcance de poucos: os Escolhidos.

O ser humano volta a dominar a mente e mente a si mesmo. Envereda pelos caminhos paralelos e convenientes ao comportamento desejado pela sociedade falida em si mesma e nos seus hipócritas desígnios.

Luta o homem e a mulher reencontrados contra seus anseios mais profundos. Na superfície dos atos aparece apenas o sexo e o desejo, os signos, os arcanos voltam a se refugiar no esquecimento. Mas badalam seus sinos, inconformes com a estupidez da luta.

Poderão sempre dar um passo atrás, pode-se regredir, para isso foi instituído o livre arbítrio. O trem atrasa, mas chegará à estação, quer o maquinista permita ou não. Não foi ele quem determinou o caminho, não foi ele que deitou os dormentes e bateu os cravos de puro ferro trazido do coração da terra. Foi Ele, o Uno, quem decidiu muito antes deste momento existir.

Isso não é do conhecimento das partes duais envolvidas. Isso é do conhecimento do Eterno.

Os desencontros se estabelecem, luta é desencontro e este está germinando por dentro, criando raízes parasitas nos instintos ditos primários. Surgem do mundo mítico como conflitos psíquicos. Instransponíveis, a menos que a razão ceda lugar à consciência maior.

O que está no útero deste nascimento, renascimento é a elevação do espírito imortal. Não há subida sem a travessia.

A travessia exige desprendimento. Enfrentar Antakarana para aportar com firmeza nos prados rosados do Amor, quarto chakra pulsando no coração. Pela mão do amor incondicional de Francisco de Assis, pelo religamento com propósitos menos transitórios chegam a estas paragens os que ousam desafiar a Razão.

Estão fora da cogitação do tempo restrito de seus dias. Tremem diante do desconhecido, nada há a temer, mas ainda não sabem e cedem ao tremor, temor.

No meio da ponte novamente o olhar se encontra no outro olhar. A luz imediatamente transpassa os impedimentos bloqueadores e o medo se desfaz em purpurina luz. As mãos criam o elo necessário e compreendem por que o sexo é matriz e não fim em si mesmo, o sêmen dele se espalha no peito dela. Abandonam as vestes da dúvida, do passado escuro e, como está marcado no arcano menor do Tarô, dez de copas, a união perfeita, homem e mulher em direção ao Sol de mãos dadas em imagem e semelhança do Uno.

Ciclo completo onde a cobra kundalínica come a própria cauda.

 

 

Vana Comissoli