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PARTILHANDO UM OLHAR
Marc Chagall
A um amigo distante, Dirceu, com vontade de que veja através de meus olhos.
Acordei cedo como sempre. Entre 6:30, 7 horas. Como é aniversário de meu filho fui direto à cozinha. Desde ontem faço as delícias que comporão o cardápio de boteco que foi o tema escolhido pela Deh. Ela, minha nora, é completamente analfabeta em cozinha. E eu sou poliglota. Felizmente sou rápida e deixei apenas as duas únicas coisas que não podiam ser de véspera: a salsa para as bruschettas e a berinjela no azeite. Confesso-te, sem modéstia alguma, que sou boa nisso e invento tanto quanto escrevendo, pintando ou esculpindo. Cozinhar também pode ser uma arte, basta deixar a alma e o coração livres. Tenho um convite para almoçar no MASP e ver a exposição de Chagall. Não perco de jeito nenhum. Sou totalmente apaixonada por arte. Às 10:50 h tocou o telefone, minha hostess já chega. Dou uma aligeirada, estou ainda com roupas de Maria. É muito bom sair com a Meire. É psicanalista, conhece o mundo inteiro e tem uma cultura sensacional. Podemos falar sobre qualquer coisa que encaixa. Melhor ainda é que ela gosta bastante de mim. Vamos de motorista, a Meire é três vezes transplantada e usa bengala além da avançada idade. Tomamos cuidados. A vida é um dom precioso e precisamos acarinhá-la. Chegamos ligeirinho no MASP, é relativamente perto. Vou pegar as entradas cortesia e, não sei se levo um susto, ou permito que meu ego infle: o bilheteiro não está muito a fim de me dar dois bilhetes, diz que não tenho 60 anos. Mas eu tenho: quer minha identidade, moço? Chagall terminou, estão expondo o acervo do museu. Museus... Adoro. Tenho dois contos que se passam em museus. Amo pela arte e pelo charme inequívoco. Nada dos falsos brilhos de strass da moda, caras e bocas, bolsas e sapatos transitórios. Aqui apenas manifestação do eterno. O brilhante puro dos pintores e escultores. Meu chão. Logo depois da decepção de não ter um encontro íntimo com Chagall, a alegria de vários Renoir, Dali, Modigliani, Manet, Monet, que amo desde quase infância. Marcelo Grasmmann. O céu! Mais Degas, Toulose-Lautrec, meu amadíssimo Rodin, ladrão de Claudine Claudel. Estou entre os mestres. Dou-me conto que meus olhos estão abertos mais do que o normal. Nem tento diminuí-los, a beleza poderia não caber dentro deles. Acho que terei um desmaio de paixão: Esculturas em mármore, gregas e romanas. Em tamanho natural. Olho para os lados, a sala não tem nenhum guarda. Sinto-me um meliante e morro de rir por dentro, sem vergonha na cara. Subterfugida retiro a máquina da bolsa e “clic”. Sei que o guarda agora me observa e me apronto para o puxão de orelhas, mas continuo roubando imagens. Faz de conta que sou tonta. O sujeito é bonzinho, só depois que termino vem me chamar a atenção. Não pode bater fotos? Desculpa, não sabia. E sigo na maior cara de pau. Pôxa, são estátuas gregas! Sei que estou errada, mas quem não erra por paixão? Meire cansa rápido e tenho muito gás ainda. Lamento e penso que voltarei com meu amigo que me lê e imagino que curtiremos muito. É a primeira vez que me lembro dele aqui no museu. Antes não havia espaço nem para mim mesma nos pensamentos, eram todos pertencentes ao deslumbre frente aos mestres. Por muitas vezes através da vida, eles foram os meus parceiros, meus cúmplices de sentimentos, alguns desencontrados como vejo reproduzidos em suas telas. Emoção pura de mil quilates em brilhante lapidado alguns, outros na gema recém saída do mundo inconsciente e simbólico. Afastar-me dói. Vamos almoçar. O restaurante do museu é quase tão artístico quanto as salas de exposição, a diferença que nele, come-se a arte literalmente. É um show a parte. A mesa de entradas e saladas tem um colorido à la Van Gogh e uma diversidade qual a exposição do acervo: de várias partes do mundo, cada uma em sua linguagem. Toques da delicadeza das bailarinas de Degas, cores e exoticidade de Monet, audácia perfeita de Dali, enfim... De novo estou deslumbrada. Tudo se repete diante dos pratos quentes de sedução das Banhistas de Renoir e do bufê de sobremesas, doces como Degas. A glória gastronômica. Nesse momento penso em ti ardentemente e que, talvez, um dia possamos estar juntos neste restaurante trocando impressões expressionistas, impressionistas do que partilhamos de alma sedenta de beleza. Estranho... Engraçado... Agradável pensar assim. Nem tenho certeza se gostas deste ambiente que me fascina, mas no fundo, sei que sim, que amarás um dia no museu. Como este. Percebo tua sensibilidade quando me escreves depois de ter me lido. Escritos onde, com desfaçatez, me exponho. Meire não me deixa pagar nada, és minha convidada, diz com sua suave e dominante voz. Constrangedor e bonito da parte dela. Sou consciente que trago uma energia vibrante para sua vida que se apequenou depois que o tempo marcou seus estragos impiedosos. Aceitar esta oferta é um gesto de doação que gosto de fazer. Como impedir a um amigo de ser feliz por superficiais ataques de orgulho? Seguimos para a lojinha do MASP que de “inha” não tem nada. Sabemos que tem um livro sobre o que acabamos de ver e que o preço é inacreditável: míseros cinqüenta reais para levar jóia pura. Novamente sou presenteada. É um gesto de imensa beleza dar tal mimo sem preço para mim. Fico tocada, já estou tocada desde que entrei no museu. A visita acabou, continuo flutuando e a sede de partilhar contigo surgiu. Impossível negar-me, também é um gesto belo partilhar o belo e sei que aceitarás com toda beleza de teu coração.
Vana Comissoli
Edouard Manet
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