Meiotom - Crônicas


 

 

Vana Comissoli

                                                             PARTILHAS

 

                             

 

escrevi tanto neste tempo q estive ausente daí. vivi tanta coisa. umas feias e outras bonitas. na verdade, todas acabaram se transformando em coisas bonitas, ou fatos, ou sentimentos. consegui compreender os feios em mim e nos outros e há indescritível paz nisso. talvez me afaste um pouco do mundo, mas assim posso olhá-lo mais inteiramente. afinal não saio dele de jeito nenhum. nem sei se sairei um dia porque não sei o que será de mim quando não tiver mais corpo. não sei sequer se serei alguma coisa, ou alguém. mas isso também é bonito: depois da morte existe um mistério a ser desvendado.

agora, reorganizo essas passagens todas e o meiotom vai me mandar embora porque ocupo lugar demais. é gozado isso, alguém que achava que não tinha lugar algum, que fora expulsa, ou se expulsara do mundo por causa de uma dor insuperável, é trazida de volta e ocupa um lugar muito grande. Volta trazida pela mesma dor que a levou embora.

eu, afinal, transformei a crônica nisso q te mando agora. tanta coisa a dizer q acabo acrescentando algo. talvez fosse mesmo melhor o silêncio. eu sou uma periquita e fazer barulho é de minha natureza. não me recuso mais ao que sou e continuo ouvindo o ruído das teclas que comem minhas palavras e as transformam em partilha.

                       

 

                                   DIVAGANDO RUBENS ALVES

 

                                                                          Gerusa, senão por tudo o mais,

                                                                                                                                                                        bastava o Rubens, 

                                                                                                                                   que me apresentasses, para eu te amar.

                   Leio o Rubens devagar, é preciso sorvê-lo, ler não basta.

                    Às vezes preciso voltar atrás quando alguma coisa me fere demais e fico triste de ver minhas concepções infantis se desmanchando: amo a mim através do outro. Que chato! Eu queria tanto amar o outro diferente de mim! Mas talvez fosse uma invasão e assim é que está certo, além do que, já escrevi que amamos o outro porque não podemos amar direto a Deus, ao nosso espírito imortal.

           Também volto a reler ao ficar feliz de reconhecer já ter feito tantas dessas sabedorias e me lembro do texto que escrevi quando abateram o guapuruvu que eu enxergava da minha janela e com quem conversava todas as manhãs. O consolei na morte iminente a cada galho tombado. Ele que era tão orgulhoso e feliz com sua beleza e elegância. Depois chorei a perda de meu amigo e para sempre reconheci suas sementes quando as encontrava. Estranhamente recebi uma de presente e fiz de conta que eram dele. Afinal, todas as sementes de guapuruvu pertencem ao mesmo espécime porque suas almas de planta são unas e indivisíveis e, se morrem, não sentem a dor que sentimos sabendo que continuarão vivas em suas irmãs.

Lembro que imitava o Chiquinho (o de Assis que amo incondicionalmente, como ele ensinou) dando bom dia céu, bom dia sol,

ou chuva até mesmo antes de escovar os dentes.

          Lembro que arrancava capim-navalha do meio da grama pensando que ele era muito ardiloso, pois escorregava as raízes por baixo das outras para brotar logo adiante e sobreviver do meu arrancar e matar.

            Deveria por datas no que escrevo senão sempre parecerá que escrevi depois que aprendi e muito pelo contrário, simplesmente era eu.

           Foi assim que lembrei desse conto escrito em bombas quando tinha onze bebedores para beija-flor e ficava sentada olhando sua guerra. Os beija-flores são muito belicosos, sabias? Lutam defendendo seu território. Descobri isso nesse belo tempo, onde não existia tempo e sobrava tempo para aprender as coisas imensamente sérias da vida dos pequenos animais do belo jardim que eu tinha.

            Existiu outro, perdido, se é que se pode perder algum texto já que ficaram escritos dentro de mim e talvez de algumas pessoas que leram, onde eu acompanhava formigas e tinha feito isso de verdade, lá em Canela, no Rio Grande do Sul e me sentia uma delas e as compreendia.

           Houve também aquela experiência no Beira-Mar Shopping, de Floripa, quando nem sonhava em morar aqui e olhei as pessoas com um sentimento estranho e forte de que todas eram uma individualidade fantástica e pulsavam igual a mim. Um sentimento de unidade tão grande que nem eu, amante das letrinhas consigo descrever. Um paradoxo: uma unidade absolutamente cabível na individualidade.

           Por causa dessas coisas todas foi que comecei a pensar que era maluca e agora, parte delas, o Rubens diz que também maluquiou. Encontro então, outro maluco e não me sinto tão deslocada nesse mundo que é de Deus e não é porque Ele está tão esquecido, perdido dentro das garrafas de Coca-cola e outras tantas coisas inúteis.

          Ontem eu pensei muito tempo que não estava me importando com a opinião de ninguém porque eu podia ser eu em paz e foi muito bom.

Pensei no meu amigo que se esforça para me convencer dos caminhos a percorrer, quando sei que já trilhei tantos. Agora desejo o meu próprio que seguirá outras marcas mais sábias, mas provavelmente não as seguirá de forma inexorável e mais pularei amarelinha entre eles.

Até quis escrever, mas estava com sono. Escrevi mais tarde, não saiu do jeito pleno que pensei no travesseiro. Meu amigo colocou no site mesmo assim. Ainda riu de mim quando  desejei que o conto passasse na triagem e me respondeu que os meus sempre passam e isso também é estranho. Acho que só eu posso sentir realmente o que escrevo, são bons apenas aos meus olhos. E, no entanto, tive um amigo, vários na verdade, que choraram me lendo, ou se identificaram. Então é uma tremenda pretensão imaginar que só eu sinto as coisas, tenho apenas a capacidade de transcrevê-las e foi o pessoal lá de cima que me deu isso, não fui eu que criei nada.

           Acaba que isso é quase uma crônica e talvez eu possa arrumar a forma e jogar no espaço da Internet.

           Tenha um lindo dia nublado porque eles também são lindos com seu alívio ao calor e, às vezes penso que sou meio sapo, pois sinto saudades desses dias quando demoram a voltar.

                                      

                                          

                                                 

                                                  O TEMPO QUE ANDA PARA TRÁS

            Dei-me conta de repente que perdi alguns segundos, ou minutos, talvez horas.

            Não adianta retroceder o relógio, os números mudam, mas não recuperam o perdido. Algumas de minhas células morrem no que apelidam de tempo, alguns neurônios apodrecem.

            Agora, enquanto divago no que muitos considerariam uma grande asneira, perdi novamente.

            Serão todas as experiências inenarráveis? Começo a acreditar que sim, enquanto as narramos perdemos as próximas. Viver o que já foi parece um absurdo não-viver. Esperar o que virá pertence à mesma tese. Qual será a antítese? E o que comporá a síntese disso que afinal sou eu? Eu, erguida no passado, deixando o presente escapar enquanto divago no futuro.

            Levanto-me e faço coisas importantíssimas: escovo os dentes, o corpo, a casa. Mergulho em livros e busco a vida morta das palavras de existências passadas. Há um cheiro de mofo nisso. Talvez os de filosofia que dão respostas inexistentes sejam os mais vivos.

            Recebo uma visita e pomo-nos a conversar algumas horas sobre as notícias de ontem. Um carro-bomba explodiu no Iraque, meninos matam e morrem como baratas pisadas nas favelas brasileiras, ciclone na Austrália varre gente e casas. Um homicídio de pseudo-amor, um recém-nascido jogado no lixo...

            Olho o relógio. Minha amiga me observa enquanto volto os ponteiros para trás. -Perdemos muito tempo, acabamos de não vivenciar uma experiência fantástica.- Ela pensa que enlouqueci, tivéramos uma conversa tão séria, tão conseqüente até este exato momento.

            Que conseqüência terá, para os fatos analisados, a nossa opinião? Será que seus fantasmas compreenderão com ela a transformação que sofreram? Será que podem compreender alguma coisa ou perderam também a capacidade de ser e voltaram ao pó de onde vieram?

            É hora do chá. A criada nos traz lindas xícaras inglesas, o chá também é inglês. Isso denota toda a capacidade de existir dentro da sociedade com o status que te faz gente. Os pãezinhos ainda estão quentes em sua cobertura açucarada.

            Nossas máquinas-corpo trituram e sorvem esse óleo vital que as manterão em funcionamento. Fico imaginando que diferença fará aos dejetos da máquina se fosse pão com manteiga e café preto, ou um sanduíche de mortadela. A diferença está na entrada. Na saída é tudo igual. Será isso que nos irmana? Quem é mais sofisticado, ou mais rico, é mais humano? Mais irmão?

            Atraso novamente o relógio.

            Minha amiga olha seu terceiro brioche, já mordido e o joga para o gato. Não é do gosto do felino. Isso o faz menos criação? Minha amiga tira o relógio do pulso e o atrasa em quinze minutos.

            Sorrimos satisfeitas, parece que afinal não estamos perdendo nada enquanto nos olhamos em silêncio e nos reconhecemos iguais. Partícipes de um acontecimento milagroso, até aqui meio banal, normal demais para causar surpresa e admiração: a Vida.

            Outro amigo chega para o chá. Senta-se acostumado às xícaras de leve porcelana, ao sabor amarronzado do chá e aos pães recém saídos do forno. Um amigo com quem vivi um caso de amor intenso e selvagem, doce e pacífico. No tempo em que não perdíamos nada. Apenas dois metros me separam dele. Atraso o relógio. Nem isso é possível recuperar.

            Não são dois metros que nos distanciam, mas infindáveis minutos perdidos, experiências de aproximação invividas.

            A distância do tempo-sentimento é a única intransponível, não permite volta.

            Há fantasmas de incompreensão em seu olhar. Talvez pense: que bom ter-me livrado dessa doida que perdeu o sentido das horas. Eu o conheço bem, não perdíamos nada juntos e muitas vezes rimos dos relógios que saíam do fuso no nosso esquecimento, no nosso embarque total no sentir a vida pulsando. Principalmente quando deixávamos de ser dois e nos transformávamos em um na eclosão de uma energia incapaz de ser descrita. Às vezes transbordando na doçura e no prazer de olhar o outro, às vezes incandescente de sexo. Portanto o conheço bem e vejo uma doída melancolia em seus olhos, uma breve noção que talvez eu esteja certa.

            Eu esperei sua volta, esperei tanto! Dias riscados no calendário que eu tentava levar para trás. Ri-me agora, esperar é um total desperdício! Deixei de esperar e ele ficou vindo todo o tempo na hora certa. Foi isso que me fez desistir. Jamais deveria ter cortado a existência entre nós com a distância-tempo.

            Vi quando olhava o relógio, estava atrasado, nos disse, meio desajeitado, tantos compromissos...

            Comento que dispensarei a criada. Deixar-se servir é perda imensa, não me permite sentir o amor pelo corpo que sustenta meus pensamentos e me impede a experiência de transformá-lo em conhecimento do outro através do preparo de seus prazeres únicos. Do leve toque entre as mãos quando se coloca um prato cheiroso na frente do amado, ou aspirar o perfume que colocamos em suas roupas. Transformamos nossa intimidade num circo onde transitam alheios e distribuímos minutos como confete que se desfaz na chuva.

            Minha amiga e eu sorrimos satisfeitas, esticamos as pernas sobre as cadeiras frente a nós e escorregamos um pouco.

            Os beija-flores sugam os bebedouros pendurados nas árvores.

            Estamos em absoluto silêncio. Agora não perdemos mais nada, o tempo não andará e podemos começar a envelhecer na doçura de sermos eternas.