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PÊSSACH ESPECIAL

 

À toda família Rosenblit,

minha gratidão pela partilha.

 

Estava intranqüila. A vida era um turbilhão de erros desconformes. Para aumentar ainda mais a pressão, perdera o emprego. Não havia luz. As janelas da alma estavam trancafiadas e não sentia vontade de coisa alguma, muito menos enfrentar a família cobrando uma felicidade inexistente. Sucesso inatingível.

            O telefone assustou-a, a sensação de estar sozinha no mundo fazia com que imaginasse que ninguém poderia procurá-la.

            Não, pensou rejeitando, era a mãe lembrando-a do Pêssach que reuniria irmãos, primos, primas e tios. A última coisa que desejava neste momento. Arrumar-se, fazer caras e bocas era uma tarefa hercúlea que não queria enfrentar. E não podia negar-se, seria um caos a sua ausência. Famílias judias têm este apego que às vezes pesa, definiu.

            Sentia-se oprimida, presa das circunstâncias, a última coisa que desejava era comemorar. Ainda mais um evento que louvava a liberdade e o abandono da escravidão, fosse ela no Egito ou em qualquer lugar do mundo. O mundo estava pequeno e a aprisionava. Ou grande demais?

            Chegou o dia fatídico. Contra a vontade preparou a roupa e os acessórios totalmente desmotivada e sem nenhum capricho.

            Mal adentrou a casa dos pais e um enxame de alegres familiares a recolheram nos braços. Sacrifício é sorrir sem vontade, dizer que está ótima sentindo-se um lixo. Enfim... “Noblesse oblige”.

            Livrou-se das boas-vindas e resolveu se distrair dando uma espiada no Sêder, a ceia do Pêssach. Ao ver sobre a mesa tudo arrumado com esmero e fé, alguma coisa aconteceu. Num instante, como um filme visto muitas e muitas vezes.

            Seu povo, ela entre eles, oprimido e escravizado no Egito, sofrendo todas as dores da humilhação e da falta de tudo. Gente sendo tratada como animais. Uma dor muito maior do que seu momento apertou o coração.

            As dez pragas que obrigariam o faraó por fim dobrar-se à evidência de que este povo escolhido não seria avassalado por vontade de Deus, passaram com seu rastro de sofrimento e destruição. Deus acima da vontade dos homens castigando a inveja e a cobiça egípcia até a morte de seus primogênitos. Pragas que a ciência explica como fenômenos naturais, mas a fé compreende que Deus não quebra Suas próprias regras e sim usa a Natureza para exprimir Sua vontade.

            A garganta secou na longa e penosa travessia do deserto e compreendeu que seu pequeno instante reproduzia essa marcha forçada em busca da redenção em si mesma, terra prometida. E que só a maturidade construída através de 40 simbólicos anos de provação consegue atingir.

            Viu sua vida repartindo-se como o Mar Vermelho se abriu dando passagem aos filhos de Davi. Indo ao encontro da Libertação.

            No centro da mesa a bandeja com os três matzot, o pão ázimo tão significativo representando as três tribos originais, Cohanim, os sacerdotes, Leviim, os estudiosos e Israel, o povo. Eram suas raízes mais profundas.

            Os olhos redimensionaram os símbolos ali dispostos como se em verdade tivesse vivido aquelas antigas histórias e em verdade as vivera.

            O pedaço mais obscuro do corpo do frango, simbolizando o poder de Deus retirando os judeus do Egito. Zeroá é seu nome e Iahweh seu pastor. Perdidas na imensidão do inconsciente as vozes vieram à tona e ela sentiu o poder de Adonai dentro de si, libertando-a dos pesados laços de injunção que a manietavam.

            Betsá - Ovo cozido, colocado na parte superior à esquerda da bandeja, simbolizando a lembrança do sacrifício que se oferecia em cada festividade. Uma das inúmeras idéias relacionadas com o ovo colocado como símbolo na travessa do sêder é de que, normalmente, um alimento quanto mais é cozido, mais macio se torna. No caso do ovo é o contrário; quanto mais se coze, mais duro se torna.

             Assim é o povo judeu: quanto mais é oprimido ou afligido, como ocorreu no Egito e ao longo da história humana, mais fortalecido e numeroso se torna.

            Se Israel tivera a coragem de reagir ela também poderia fazê-lo. Fortalecer-se na fé e tornar-se numerosa em sua força. Essa era mensagem que recebia.

            Pela primeira vez a ressonância do Pêssach era muito mais que uma tradição milenar e um momento de cânticos de hosanas, era uma onda de movimentos intensos dentro dela. Rompendo diques e libertando as águas aprisionadas de seus impedimentos.

            Marór era sua própria escravidão aos embates da psique. Erva amarga. No entanto, ao comê-la, estaria revivendo a força de seus antepassados quando lutaram contra a dor e a venceram.

            A mistura de nozes, amêndoas, tâmaras, canela e vinho, Charósset, colocada na parte inferior à direita da bandeja, representando a argamassa com a qual os judeus trabalharam na construção das edificações do faraó. A argamassa com as quais os tijolos de si mesma foram se ajustando até chegar neste momento de iluminação diante da mesa do Pêssach. Era a mesma etimologia egípcia, isto é “golpe”, agora interpretada como “Iahweh que salta, ultrapassa, poupa protege” as casas dos israelitas marcadas com o sangue da vítima pascal.

            Ela era uma vítima das ciladas psíquicas e Deus a impulsionava a saltar sobre elas, protegendo-se delas e renascendo para a Libertação.

            Mistérios de Deus.

            O Povo de Israel recebeu e aceitou a Toráh no Monte Sinai, com fidelidade e lealdade, dizendo:

            - “Faremos e ouviremos”.

            Ela também faria e ouviria.

            Seguiu a peregrinação do Sêder como o único caminho possível para a salvação de ser.

            À volta o mundo tinha emudecido. Todos a observavam enquanto seus lábios se moviam em devota oração a Deus. Um toque de extrema santidade envolvia sua contrição e permeava a família. Uma reverência, um reconhecimento da Presença Divina.

            Karpás - O salsão, colocado embaixo, à esquerda. Essa verdura, molhada em vinagre ou água salgada, serve para dar o “sabor” do Êxodo. Lembra o hissopo (Ezov) com o qual os israelitas aspergiram um pouco de sangue nos batentes de suas casas, antes da praga dos primogênitos

            - Lave-se de meu sangue a minha dor e nasça de mim o primogênito da nova geração dos Libertos. – As palavras vinham como que sopradas pelo anjo que os desviara da morte há milênios atrás.

            Chazéret - A escarola colocada sob o Marór para ser mergulhada na água salgada, referência às lágrimas vertidas. Ao mar do inconsciente que se abria dentro dela trazendo a paz e a segurança. Dique rompido.

            Estava purificada, podia agora começar o ritual sagrado do Pêssach. Levantou o vinho kosher reverencialmente. Praticou a Urhas não apenas na ablução das mãos, mas do espírito. Cada hino de louvor, um louvor interno de gratidão pela presença inesgotável de Deus, o Impronunciável, dentro de seu coração. Cada passo ritualístico, um degrau vencido.

            Enfim, Haliel. Então agradeceu ao Senhor Deus pela ceia pascal através da qual reviveu o milagre da liberdade. Encheu um copo de vinho (o quarto), e bebeu depois de ter recitado os salmos chamados de hallel.

            No fim de tudo abriu a porta, para favorecer a entrada de Elihau Hanavi, o mensageiro e fez a  Nirsah, aceitação total.

            Anunciou o término da ceia pascal e pediu a Deus que seja sempre o libertador de Israel. O Israel que mora dentro de cada um de nós.

            Chegara à Terra Prometida de seu Eu maior.

Vana Comissoli