| Meiotom - Contos |
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Vana Comissoli |
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QUE SERÁ,
SERÁ... O interfone tilintou no “bem-bom” da açucarada sessão da tarde, cheia de filme de amor fácil como a terra que se come na agonia dos dias. - Saco! – levantou-se Miúcha caminhando de costas em direção à porta e dando uma pequena parada antes de chegar até ela. O galã já olhava dentro dos olhos (arcanos secretos) e a mocinha se aproximava bruxa e insólita. Mulher. O interfone foi mais insistente desta vez: - Duas vezes saco! – resmungava a mulher bela na angulosidade de seus 50 anos. Ainda assim olhou pela janela. Os pensamentos são mais rápidos do que a luz e a imagem voltou à sua mente. Cinco anos atrás as malas interrompiam o encontro dos corpos. Beijaram-se sobre elas. Talvez fosse bom assim, se a proximidade fosse extrema não teria conseguido se afastar. Virar as costas. Ir embora. Fazer de conta que a vida se abrira à sua frente. - Já vou, já vou. – gritou para a terceira chamada do interfone. O eco interno respondeu: - Já vou... já vou... Sua entonação, no entanto, era tão diferente. Uma melancolia trágica de submissão, de estar com as mãos vazias. Ainda espiou pelo retrovisor e viu quando ele enxugou os olhos na ponta da jaqueta. A velha angustiada saudade subiu e arrancou o suspiro de resignação tão conhecido. Afinal a vida rola sobre trilhos que trepidam e, às vezes, desencarrilham. Foi uma dessas vezes. Ou o vivido com o Ele foi o descarrilhamento? - Alô! Alô também tem raiva, pode ser de ferro. - Miushka! O tempo todo parou. A voz, o nome... Sacudiu a cabeça, voltou ao normal e tinha sido outro pesadelo, dos tantos que já tivera. - Miushka! Apertou o botão de “abrir” por puro condicionamento. O auricular bateu no chão, nem se deu ao trabalho para ver a questão. A porta ficou jogada para trás, abandonada de cuidados. Os pés estalaram no chão como brasas vivas. O coração batendo em trezentos becibéis por minuto. A escada sem fim. O zunido da segunda porta se abrindo, alguns poucos metros, só mais alguns poucos metros. Era ele, com a mochila na mão caminhando devagar com a certeza de quem volta. Pararam um pouco antes do encontro. Os joelhos frouxos, a paixão vivida estalando os nervos, a pele, a cara, o tempo. Um metro de distância e a lajota rompeu-se sob eles. Tão pouco... tão pouco... Talvez as mãos pudessem se encontrar. As mãos não bastavam. Os corpos queriam se encostar para sentir o prazer de esquecer o tempo. Ficaram assim parados. Coração a coração. Mais fundo ainda. Alma a alma. A saudade latejando como chaga viva. A saudade. Maldita saudade que me sustém, foi o último pensamento que puderam pensar. Das rachaduras da laje subiram as plantas cheias de raízes. Enlaçaram as pernas. Fixaram os dois no chão. Os dedos se tocando a alma de esterco. Quantas horas? Quantos dias? Quantos anos? As plantas se renovam dia a dia, alimentadas pelos restos humanos que damos para elas porque delas precisamos sobreviver. Dias, meses, anos. Quem suporta estar atado dessa forma? Olhos nos olhos, mãos nas mãos e um suspiro de mala pronta no peito? As plantas esqueceram de crescer. Ela esqueceu. Ele esqueceu. O tempo também tem esquecimento. A podridão das plantas encheram seus pés de viscosa e nojenta saciedade. As palavras estavam mortas. Teriam ao menos corpos ainda? Ele articulou quase se esvaindo: - Miushka.... Quem dá a terra da terra se alimenta. Ela o ergueu nos braços e se enroscou nele até descansarem no que ninguém pode brecar. No silêncio fecundo de nós dois. Foi só depois disso que pode chorar e largar-se do sufoco do não ter.
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