Meiotom - Contos


 

vestido de tafetá

Vana Comissoli

       

            Não sei bem porque guardo este vestido. Penso isso enquanto sobe o cheiro enjoativo de naftalina e eu bato a saia chamuscada pelo tempo.

            Parece quase novo, o bandido! Parece quase igual ao que já foi.

            Coloco na frente do corpo, eu ainda entro nele, mas não ouso vesti-lo. Mal chega aos joelhos. Sua bela saia com marcantes pregas que o deixam baloné se abrem como um tortuoso caminho reto e aberto para trás. Tem um belo cinto do mesmo tecido. Aqui tudo é negro com essas reminiscências multi facetadas de arco-íris? Que boba! É apenas um efeito desse tecido antigo. Tafetá é assim: dá uns vislumbres de cor onde não se vê cor alguma, apenas se percebe. O passado apenas se percebe?

            Fiz uma coisa louca hoje, de vez em quando gosto de louquear. A loucura me traz sanidade. Estranho esse paradoxo? É, bem estranho. Hoje eu resolvi olhar para trás. Só agora entendi porque subi nesta escada e puxei o saco que guardava o vestido de tafetá. Estou em busca do passado. Mas esse vestido nem foi meu, foi de minha irmã.

            Nossa! Quantas vezes eu vesti as roupas da minha irmã! Temos o mesmo tamanho e as roupas dela sempre me servem, mas... Mas sei lá. Ficam meio esquisitas em mim. Frouxas... Macilentas... Será que uma roupa pode ter cara e ser macilenta?

            O vestido é muito bonito e tiro minha roupa para vesti-lo. Tem uma alça larga que atrapalha o vestir. Pronto. Consegui. Preciso de sandálias de salto alto porque de pé no chão não combina. Eu pareço uma mocinha agora. Uma mocinha anos 60. Eu era quase uma criança nos anos 60!

            Tiro o vestido rapidamente, não me sinto bem dentro dele. Odeio preto, quase não tenho nenhuma roupa preta. Me impus ter. Eu gosto de amarelo e laranja. Um pouco de azul, azul turquesa.

            A vida é toda feita de cores e este vestido, lindo de morrer, não faz parte das cores da minha vida.

            Prefiro esse outro que também guardei. Engraçado, não cheira a naftalina. Tem uma cor ocre, um amarelo vivido muitas vezes. É assim que sinto o ocre. Tem um tecido macio, muito mais macio do que o tafetá. É algodão puro e veio lá da Índia. Tem bonitos desenhos bordados e preciso de alguma coisa de ouro que combine. Pulseiras. Agora eu posso vesti-lo e ficar de pés no chão, como eu gosto. E dá uma vontade danada de olhar o céu e não olhar para trás.

            O vestido de tafetá, coitado, está jogado no chão. Sei que este tecido é caro e muito chic, mas eu não quero nada dele, nem um pedacinho, porque é duro, nunca tem caimento bom. Não é envolvente.

            Onde foi mesmo que eu guardei a tesoura?

            Ah, está aqui! Bem perto da mão.

            Dará trabalho recortar este vestido duro, mas sei que terei toda paciência do mundo. Sou tão utilitária. Fico pensando o que poderei fazer com esses quadrados, desencontrados em tamanho. Sabe do que mais? Não farei nada. O lixo que os coma.

            Espera, os reflexos do negro tafetá tem caras. Muitas caras. Nossa! Até parece que vejo os homens que tive!

            Será que eu tive? Ou eles passaram por mim? Ter alguém é uma pretensão braba. Eles também não me tiveram. Nunca usaram vestido de tafetá. Ou usaram e eu não vi? Porque será que os homens têm tanto medo de usar vestido? Não existe mal algum aí. Eu posso usar calças.

            O vestido ainda está ali, mesmo que já recortado. Como eu gostei desse desenho! Tem cara de para toda vida e não foi assim. Acabou.

            Acabou? Esse pedaço do pano da minha vida eu nunca quis ver de verdade. É hora. O vestido está dizendo isso para mim.

            Esse retalho é tão pequeno! Como pude carregá-lo tanto tempo? Ele é tão ínfimo! Teve uma importância mísera dentro de tudo. O que ele me deu é o importante. Conseguiu dividir-se em cinco, em cinco homens que são os meus homens. Não tenho nada para reviver deste pedaço de pano. Posso jogar no lixo do que passou.

            Esse pedaço, recortado que quase nunca olho mais. Tem um nome. Chama-se Antônio. Daria um dedo da mão para estar com ele de novo. O que falávamos... As perguntas sem resposta... A indagação se deitando com a gente. Ele sabia pensar.

            Esses retalhos aqui, mal cortados, esses não são importantes. É como um dia de chuva. Sempre passa. Deixam aqui e ali um resto de germinação, mas não germinam em si mesmas.

            Agora sim. Ops, esse retalho tem forma e nome: Renato, o renascido.

            Esse retalho eu não posso jogar no lixo porque ele me mostra coisas. São coisas que eu já vi. “Dejá vu”.

            Esse retalho vou guardar na gaveta porque ele tem uns fiapos que não posso alinhavar ainda.

            O vestido está todo recortado e minhas pernas estão à mostra. 

            Já posso caminhar de novo.

            O brilho do strass, eu deixo para depois.

 

 

                                                                                                          Vana Comissoli

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