|
O TOQUE VIRTUAL DIANTE DO AMOR E DA VIDA
Vivemos a Era Virtual. A Contemporânea começou seu fim com a construção do primeiro computador. A partir daí a automatização de tudo foi crescendo em ondas cibernéticas colossais. Não
precisamos mais fazer ou comprar pão (alimento histórico,
bíblico, simbólico) apenas programamos uma máquina e na hora que
desejarmos ela expurgará pão quente e cheiroso para o café da
manhã, tarde (um tanto obsoleto) ou da madrugada. Esta cada dia
mais extensa, nós cada vez mais insones, estressados, indormidos. A presença de guias, mestres, orientadores tornou-se arcaica, basta ter carisma, um rosto belo, saber cantar, gritar e se balançar ao som de músicas duvidosamente angelicais. Dormimos ao embalo metálico da TV que se desligará já tendo interferido em nossos sonhos não mais mensagens do inconsciente, mas pasteurizados e controladores de nossas escolhas e necessidades. Que dizer então sobre os relacionamentos? A solidão atinge cada vez mais gente, os casamentos desgastados ou impostos, se arrastam e aumentam inexoravelmente na mesma proporção de seu vazio. O sentimento humano resiste entrincheirado em sua cruel antiguidade e obsoletismo sob os olhos da geração hay teck. Bate em nossa cara e em nossos corações impondo exigências esdrúxulas de aproximação e contato. De eco do outro em nós e de nós no outro. Estamos na Era Cibernética, conhecemos pessoas ausentes, anônimas e inverídicas nas baladas, nos chats, nos encontros virtuais. Vez por outra ousamos ouvir suas vozes através do telefone, tendo o cuidado de não revelar o nosso. Se usarmos o celular, outro aparelho que passou a fazer parte de nosso organismo, programamos para aparecer número desconhecido. Ou o Bina nos avisará do inconveniente que clama acreditando ainda em humanidade e solenemente, cheios de razão, não atenderemos. Alguns, mais audaciosos ou mais ultrapassados se expõem a um contato visual, um sexo de uma hora ou de uma tarde. Sexo virtualmente perfeito, sem face e sem alma. Robotizamos o parceiro e usufruímos do corpo pretensamente plastificado por nossa imaginação. Depois, falsamente preenchidos, damos as costas. O sêmen jorrado se descarrega como algo espúrio e damos descarga na privada. Liquidada a questão. Se tivermos o azar de encontrar algo real e tangível, assemelhado à gente, corremos a excluir e bloquear. Simples e rápido. Problema resolvido. A maior parte das vezes nem ao menos nosso nome deixamos impresso na lembrança, um nick nos afasta de forma protetora e escondida. O distanciamento da persona, da intimidade que intimida não fica comprometido. Quando o corpo clamar novamente ou o vazio bater à porta, recorremos ao processo e fingimos que ele funciona azeitado. O que restou? Isso deixou de ser importante e vital. Coisa do passado romântico, afastar-se dos atritos que nos dão polimento é o objetivo. Atrito incomoda e não temos tempo de ser incomodados. Os conflitos são empurrados para longe pelo teclado de um computador e nossa alma jorrará em jatos estrobofóbicos nas ondas da Internet. Sentimentos à vista? Delete. Ser humano ao alcance? Delete. Deus vivo falando através de sinais e símbolos? Delete. Idéias, criação, prazer genuíno e vivo? Delete. Prefira os ícones de sua área de trabalho. Atual e moderno. Os demais são pertencentes às eras anteriores e ultrapassadas. A poesia agora é concreta. Sintetize sua alma no twiter. Beatifique sua imagem no orkut. Atualize-se: torne-se um morto vivo, representante fiel da nova religião Rapa Nui Virtual & Cia. Parabéns, evoluímos! Logo, logo as cavernas cibernéticas se abrirão plenamente nos trazendo êxtase de silicone.
Vana Comissoli |