| Meiotom - Crônicas |
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Vana Comissoli |
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TRAIÇÃO
A vida é
feita de feio e bonito. Bom e ruim. Emoções e sentimentos. Alguns preferiríamos
não ter, mas os temos. Parafraseando o poeta com leve deslocamento. Mas se os
temos, como sabê-lo?
O amor é
bom. O melhor de todos em suas inúmeras faces: fraterno, filial, entre amigos,
parceiros, camaradas. Até o amor que desenvolvemos pela vizinha de apartamento
se torna agradável. Uma troca, um sorriso, uma receita. É o quanto basta.
Pelos
amigos, ah... Delícia de se lambuzar. Gosto de mel, ombro, apupos muitas vezes,
todos intencionando nosso melhor estado. Amigo é coisa para se guardar do lado
esquerdo do peito. Que verso perfeito e lindo fez o Milton, não é à toa que se
chama Nascimento. É o insuperável feito de descrever com perfeição os
sentimentos. Sentimento e nascimento, boa rima.
E os
irmãos... Insubstituíveis, tanto os de carne como os de coração. Não existe
diferença alguma, todos iguais mesmo que tenham os olhos puxados, pele negra,
cabelos lisos ou crespos.
Filhos,
estes nem precisa falar, quem os tem já sabe que são inenarráveis, difíceis
muitas vezes, mas imperdíveis. Qualquer gesto de carinho basta para nos fazer
voar. Qualquer amuo nos
põe
alertas.
Seria
repetitivo demais falar sobre as delícias de qualquer amor.
Os do
enamoramento, aquele estado mais gracioso e completo do que a paixão. É o
companheiro, o amante, o cara ali do lado para toda obra. A de dor ou de
alegria.
Tem o medo
que arrepia. A tristeza que nubla tudo, deixando-nos de olhos foscos e sem
horizonte. Um fechar-se, a tristeza. Não é boa companheira, mas é presente, algo
que nem sequer lateja. Fica ali, parada, observando.
A alegria é
como parque de diversões em domingo de sol. Pura, criança, leve como pluma.
Recorrível sempre que podemos vadiar com ela.
Nossa!
Sentimentos são demais! E tantos!
Agora tem um
que é escuro. Noite sem luar, sombra de morte. Pior do que perda, do que susto.
Pior às vezes do que ir um amigo embora para o nunca mais. É a traição.
Ela é feita
sob os panos, uma cobra soturna, pronta para o bote. Sempre nos pega
desprevenidos. Estamos ali, em pura festa, olhos claros de confiança por que ela
é assassina da confiança. De repente... Para tim bum! Cai-se do cavalo. É a
traição dando passa pé. É fria, não tem coração. É construída de esgares vazios,
de sorrisos falsos, de palavras ocas em sua estrutura. É derrocada, revolução ao
contrário por que não tem outro objetivo a não ser destruir. Às vezes faz bem
seu trabalho e nunca mais reencontramos a confiança, morta à facadas para
sempre.
Espera-se
tudo neste mundo imundo, menos a traição. Entregamos o peito, a vida, o coração
e ela engole tudo. É antropofágica. Alimenta-se de nossa carne já então
desfeita. Não importa de que lado venha, destrói sempre.
É áspera,
ardida, cruel.
A crueldade
é um das piores estações do ser humano por que é calculada, construída passo a
passo até desabar em traição. Somos brinquedos úteis em suas mãos por que ela
pensa apenas em si mesma, nos benefícios que usufruirá. O outro que se dane,
dando para mim, está tudo ótimo. É isso que a traição sussurra. Não tem vergonha
nem respeito.
Abrimos a
porta da casa e as nossas. Ela entra sorrateira, fingindo achar tudo um encanto,
senta-se no sofá, elogia nossas coisas, nossos gestos. Aliás, quanto mais puro o
gesto, mais ela se locupleta, sabe que maior será o tombo.
Gosta de
tombos, a bandida.
Venha de
quem vier, até de um desconhecido que passa correndo para sentar no único lugar
no ônibus enquanto a ele nos dirigimos. Julga-se esperta a infeliz.
Tenho pena
dos traidores, seguem a lei de Gerson: é preciso tirar vantagem de tudo. Até das
pessoas, se são boas ou más, que importa? Importa que possamos usá-las.
Que belo
propósito cretino tem a traição.
Fico
pensando se já usei oportunidades. Devo ter usado, o ser humano é oblíquo demais
para nunca ter andado por estes pagos gelados. Devem ter sido poucas vezes,
sempre fugi dela, preferi a verdade que às vezes dói, mas não trai, não
esfaqueia pelas costas. Não entrega Cristo à crucificação. Exemplo máximo da
traição planejada. Fria, inconsequente.
Ela não mede
danos, nem chagas. É hiena, come até o podre. A carniça. Ou será a própria
carniça? Pelo menos fedem do mesmo jeito.
E tu, já
traíste alguém? Já sentiste remorso depois? E sentir remorso sanou alguma coisa?
Acho que não. O pus da traição não seca fácil. Lateja e traz infecção que
contamina todos os nossos outros sentimentos.
O remorso é
retorno barato para quem trai.
É como
dizem: quem bate esquece, quem apanha não esquecerá jamais. Vale para a malvada
da traição.
Melhor não
trair, não há remédio posterior.
Mal feito,
mal pago.
Vana Comissoli