| Meiotom - Contos |
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Vana Comissoli |
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NEM QUE A VACA TUSSA!
Nem ela acreditou quando o primeiro cof cof saiu enroscado no ruminar constante. Quando sentiu a coceirinha na goela de novo enfiou a cara no feno cheiroso do coxo. Abafar é preciso, viver não é preciso. Isso é um absurdo, pensava quase sufocando. Ainda não sabia que o absurdo é o normal e o normal é um absurdo já que não existe. É uma criação das pessoas que pensam que podem atingir essa esfera de perfeição que é a normal imbecilidade. Todos sonham alguma coisa, esse é o sonho mais constante, mais inatingível e mais idiota. Ser normal é uma vaca perdida na boiada com olhos de bovina resignação. - Cof cof! Ali do lado o cavalo relinchou baixo, abanou as moscas inexistentes com a cauda. Moscas sempre existem, pensou antes de assimilar o som que ouvira, moscas saem de dentro para fora. - A vaca tossiu! – registrou quando o som abafado rompeu a garganta ardida da companheira de cela, digo de cubículo. Há anos conviviam pacificamente sem perturbações, tudo absolutamente normal, nem se incomodavam quando Henry, já habituado aos costumes da terra tupiniquim dizia com raiva: - Não pago estes impostos exorbitantes nem que a vaca tussa! – e escondia o dinheiro verde amarelo nas encovadas contas das Bermudas, ou qualquer outro paraíso fiscal a que só os gringos têm acesso fácil. Não se incomodavam nem quando era o peão grosseiro, de bigodes cheirando a fumo, de dedos amarelados e sempre pronto a acobertar uma ovelha nas barrancas do rio, que dizia: - Não trabalho no feriado nem que a vaca tussa! Era tão banal ouvir isso e ao mesmo tempo tão impossível a pobre Amélia tossir que não tinha razão dar importância a estes ditos populares que são o escape da raiva e do “sem razão alguma”. Agora, de uma hora inexplicável para a outra, o sistema tinha sido rompido ou corrompido. Amélia, a vaca tossira! Por longos dias, sufocando focinho e olhos dentro do coxo, numa experiência ainda mais dolorosa, levantando as patas e tapando o buraco tossidor, enfiando a cara no rabo do cavalo sem nenhum escrúpulo ou nojo, ela tentou voltar ao “status quo”. Ameaçou a alma com os fogos do inferno, com as bruxarias das mulheres, com o sêmen dos homens desviados e nada adiantou. A maldita contra regra atravessava as horas, o peito, como grito transformado, transgressor. Suava, no fundo de sua ruminância passiva e inerte, pressentia o perigo: não se quebra as regras impunemente, algo de terrível aconteceria quando os homens não tivessem um impossível onde se refugiar. Quem os salvaria da ação? Quem os salvaria da salvação? O salvar a ação não feita, eis o fantasma que come a si mesmo. O bulício da fofoca começou ao pé dos ouvidos, não era coisa de se falar alto: A vaca tossiu! Depois nada segurou, a cidade tremia nos becos e nas avenidas: A vaca tossiu! E a polícia não pode deixar de correr atrás do ladrão, a vaca tossiu! As traições deixaram de ser feitas, os assassinatos foram suspensos e o homem perdeu-se no mar de possibilidades que a tossida trazia em seu seio. - “Não vou à missa nem que a vaca tussa!” – ela tossiu, dá-lhe terço, genuflexão e beija mão do padre. - “Como essa mulher nem que a vaca tussa!” – Não comeu mais, foi para casa bem aquietado, murcho, assistindo cinco vezes as mesmas notícias enquanto na cozinha um arrastar de panelas mastigado por “Não faço comida nem que a vaca tussa!” se perdia num monte de pernas de frango e feijão queimado. Foi quando Fabiana na frescura incomparável dos olhos verdes e cabelos recém aloirados e mechados, peitos novinhos em folha, muito bem siliconados, saiu de casa: -“Hoje eu pego aquele gato, nem que a vaca tussa!” O gato queria ser pego, a vaca podia tossir quanto quisesse. Amélia, lá no curral, levada aos trancos e barrancos para as fronteiras perdidas do sem fim onde não se é ouvido, gemia, tossia. A maldita tosse crescia num volume assustador, quanto mais distância mais forte ficava e, de alguma maneira alucinante, todo o eco das ações rompidas ou executadas à força chegavam até ela. Quando Fabiana não achou nenhuma graça embaixo do gato que não dera nenhum trabalho de caçar foi que a coisa começou a ficar escranchada porque saiu meio nua, meio não, a gritar que essa história de vaca tossir era uma praga pior do que a do Egito e só podia ser castigo de Deus como em Sodoma e Gomorra. O mundo estava perdido. Era o fim, o apocalipse. Os anjos da ordem tinham que descer dos céus e dar um jeito na aberração. Ao fundo do discurso escutado não apenas na cidadezinha até então desconhecida, mas até em NY, ouvia-se cada vez mais forte, mais alto, a tosse da vaca Amélia, a resignada por ser a portadora da ira de Deus contra os homens transgressores. O negror foi tomando conta do planeta, crianças não explodiam na Palestina, nem morriam de fome na África, os pés de maconha secaram e a cocaína não aceitou mais refino, o crack estourava antes de ser sorvido e os revólveres viraram seus canos negros para trás: ou suicídio, ou calados. Os homens desistiram de se matar, a vaca tossia. E tudo foi ficando muito chato porque a grande transgressão impedia as transgressoicinhas tão banais da humanidade. O que é um estupro, ou um roubo colossal, ou um iate indo a pique diante da tosse da vaca?
Eram as três horas sacras e no Gólgota se viu a nuvem negra e terminal tomando a forma de guampas, Amélia subiu arrastando a tosse, a sua cruz, não precisou do madeiro, nem de soldados, afinal era apenas uma vaca. Levava um cutelo, com muito esforço prendeu-o entre as pedras com a ponta aguda bem certeira do caminho que seguiria. Quando atirou-se nauseada e bendita ouviu-se um canto vindo das profundezas do inferno, uma aleluia às avessas: -“ Hosana, a tosse morreu, o Pecado está salvo!”
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