| Meiotom - Contos |
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Vana Comissoli |
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DE UNHAS À MOSTRA
para os parceirinhos que ainda
estão vivos. Choque... choque... choque... Olhos de “dejá vue”, debruados de negro, escassos de descanso. Já meio atirada na poltrona enquanto o rock soa forte seu bate estaca e as luzes sonambulizam a sala. Trovejam também, em relâmpagos estrobocópicos. Assim estás mais uma vez. A blusa colocada de forma sensual e distorcida, mostrando a nascente dos seios. Boca falante de vermelho escorrido. O cigarro quase queimando os dedos. Palavras saem sem nexo, desordenadas, soam na tua cabeça com estonteante lucidez, assim me contas no dia seguinte. Uma figura patética que se julga cult e chocante. Chocar é o maior barato, ser diferente do rebanho fabricado pelo sistema. Estás cercada por uma fauna que se agita com olhos, roupas, piercings, tatuagens, desvario, tudo se repetindo em todos. Fazes um sinal para o garçom, único olhar atento, sabe-se lá por quanto tempo. - Meia dose. Ele já sabe o que pedes, és da casa. Meia dose de vodka com gelo. Meia dose até formar uma dezena, ou duas, depende da hora e da necessidade de espaço entre uma fungada e outra. Meia dose é teu apelido na irmandade cult que te atrai e provoca. Nomes são babaquices dos incautos habitantes das lojas, escritórios e fábricas. Apelidos são marcas de individualidade identificadoras de todo um padrão de comportamento arrojado e cortante. Gente ligada, entendes? É assim que me explicas enquanto eu te tiro a roupa porque faz dois dias que não te alimentas e nem dormes. Talvez agüentasses mais um pouco, mas como és mais ligada, sabes a hora de vir te aninhar no meu covil de lobo bom. Terás comida na geladeira e leite que beberás direto da caixa, lambuzando com tua saliva de ante ontem. Tomarás um banho porque fedes a vício, suor e álcool, nada atrativo para mim que saí dessa arapuca já faz um tempo e procuro me manter fora dela com unhas e dentes enquanto tentas me convencer que sou careta e vil. Me arranhas a cara na defesa de tuas metas de fantástica capacidade filosófica. Enxugo o sangue e choro de pena porque é esse otário que te tira os sapatos, as calcinhas que jogo na lixeira, sei lá quantos paus se roçaram nela e nem percebeste. Estão duras de sêmen, sempre tem algum mais lúcido em tuas festas. Eras apenas uma menininha, gordinha e bem humorada a atirar pedras na molecada da rua, se segurando nas risadas. Jogavas futebol com os meninos e não davas importância às amiguinhas que achavam isso esquisito. Gostavas de ser diferente, de ser a Mônica de nossa turma: a mandona. Éramos parceiros, eu, tão calado, ficava te espiando e sorrindo, fazias tudo por mim, não precisava me dar ao trabalho de correr atrás da bola e nem de aprender a soltar pipa. Meus óculos atrapalhavam e eu tinha preguiça de me movimentar. Era bom ficar sentado te olhando. Foi um tempo curto, eu jurava que nunca nos separaríamos e quando entraste na fase dos peitinhos aparecendo e a turma mudou, eu fui atrás. Fumamos juntos o primeiro cigarro, o sabor acre ardeu na minha garganta, mas na tua não. Eu fiquei ajojado no primeiro pega de maconha e tu ficaste sorrindo feito boba e achando o maior barato. A gente se acostuma a tudo e nós nos acostumamos até não bastar mais. Já sabias então muito mais do que eu, eras a esperta e os garotos passavam a mão na tua bunda enquanto te roçavas neles achando muito legal e excitante. Comigo não fazias isso porque, apesar de tudo, eu era careta. O primeiro porre foi uma delícia de descontrole que me levou ao céu da permissão e pude me agarrar nos teus cabelos e vomitar no teu colo, dizendo que te amaria por toda a vida. Felizmente não lembramos de nada no dia seguinte e tudo não passou de um lance. Eu não podia mais me negar ao líquido queimante, quanto mais melhor. O “plá” vinha mais rápido e eu precisava dele. Fui conhecendo todas as marcas e todas as cores: do azul absinto até o vermelho campari. No fim, no fim valia tudo: os transparentes. A vodka, a cachaça e o álcool de cozinha. Doloroso tobogã inevitável. Bebíamos juntos, em casa, ouvindo Cazuza, Lobão e todos da turma. Caíamos duros no chão mesmo, o tapete era bom, embora não fizesse muita diferença e eu podia te abraçar porque estávamos de porre e valia tudo. O cheiro da maconha empesteava o ar, grudando-se nas cortinas e misturava-se ao cheiro doce dos incensos que nos prometia encobrir todos os demais. Lembras daquela vez que resolvemos criar clima para “Lanterna dos Afogados” da Cássia Eller? Acendemos todas as velas que encontramos e até foste ao mercadinho da esquina e trouxeste outras tantas. Ficou uma belezura e rimos até doer a barriga. Ficou tão bonito que resolvemos deixar queimar para sonharmos com sua luz que seria a nossa luz e queimamos o tapete. A faxineira, coitada, chegou na hora certa e jogou um balde de água quando já quase chamuscava teus cabelos e ficamos furiosos porque nos acordara. Tu jogaste um vaso em cima dela que se demitiu pela quinta vez e desta para sempre. A tua mira não estava lá essas coisas e a parede ficou manchada de terra e folhas amassadas. Conheceste o Nenéu, cara porreta, arguto, fino como uma cobra, o corpo coberto de lindas tatuagens de animais e cruzes. As pernas nos fascinaram com seus buracos provocados pela injeção de cocaína diluída com água do radiador da moto porque não tinha paciência de chegar em casa e morava longe. A droga da água necrosou tudo, embora voltasse a repetir a façanha e achávamos que ele era o máximo da ousadia. Um cara de fé, tu me doutrinavas e eu, aceitava, roído de ciúmes porque não me admiravas assim. O Nenéu foi entrando por debaixo da porta e trazendo o pó branco, puro e alvar como uma estrela. A Vênus que só reluz na noite, como nós. Descobrimos o céu, profetizavas enquanto tuas olheiras aumentavam e teu corpo encolhia. Tu eras beleza pura. Lias Fernando Pessoa e choravas. Tu eras emoção pura. Logo rias a rolar e lias O tempo passou célere? Devagar? Eu não sei. O tempo parou, apesar das previsões de Cazuza. Ficamos nesse céu que levou embora a TV, o DVD, o microondas e por fim meus tênis Nike e tua bolsa Vitor Hugo. Eu morava sozinho e tudo era fácil, não tinha pai nem
mãe para me encher o saco com suas encrencas otárias, mas tu ainda tinhas.
Batias as portas, jogavas as panelas De vez em quando traficávamos um pouquinho, apenas o suficiente para garantir nosso sustento adicto. Encontrei um amigo na rua, tu tinhas ficado dormindo e fui buscar o leite com o qual lavávamos nossos estômagos e nos deixaria em forma para outra ronda. Arthur tinha sumido há um tempão da turma. Esfumaçar, ninguém sabia onde tinha se metido, acreditamos em over dose, coisa de otário. - Oi, maluco! Fico contente em encontrá-lo com todos os ossos em cima. - Tudo limpo, cara? – me cumprimentou. Não deu nem tempo de eu perguntar desfiou a bobeira em que entrou, caiu duro na porta de casa e os pais o levaram desmaiado para uma clínica de babaca onde ouviu coisa que nem Deus acredita. Ficou por lá uns quatro meses. Saiu limpo. Enfiou-se num grupo de auto-ajuda onde os companheiros juravam viver vinte e quatro horas sem a sereia. Fechando a garrafa, acreditando em Deus. Caí duro, o Arthur tinha enlouquecido de vez. E foi buzinando no meu ouvido e o diabo do ouvido foi se abrindo e deixando cair aquelas palavras rosadas. Olhei meus pulsos, as marcas deixadas pela gilete com que os cortara numa noite de desespero quando a cocaína só me enlouquecia. O glamour tinha acabado e tudo girava e eu queria usar, usar e usar. Não tinha dinheiro algum e dei com a cabeça na parede até me convencer que me tornara prisioneiro. Eu que fora em busca da liberdade. - Vem Melanga, vem comigo. Eu fui. Esqueci-me de ti atirada lá no chão e parei de ver teus lindos olhos debruados de negro. Eu tinha problemas, era um adicto. Aditivado pela coca, meu sangue estava líquido de álcool e não gostava mais de comer, só a maconha despertava o apetite. Eu vomitava depois e bebia para passar a ânsia maldita e o tremor das mãos. Ouvi e tornei a fazê-lo. Telefonei a meus pais, chorei ajuda e vieram me internar também O inferno eu já conhecia, a clínica foi a sucursal dele. Dias escorrendo feito fogo na busca da abstinência que me deixava em fúria e eu tinha um arsenal de palavrões para brindar os terapeutas malucos que não sabiam nada. Toneladas de bagas a serem encolhidas e que suavizavam meu sono e me davam coragem. Saiu, lá de dentro do meu peito, uma estrada de encontro, onde caminhava o cadáver de mim. Eu dentro de pouco tempo. Matei o cadáver. Escolhi viver. Tomo-te nos braços e revejo a menininha de minha infância, embora o sorriso seja árduo no teu rosto. Choro sobre ti. Nunca pudesses me ouvir, nunca foste eco. Tu tão esperta, tão disposta a chocar e trazer o mundo à razão, estás aqui, desmaiada e nula. Refresco-te a fronte. Levantas os braços moles e te agarras no meu pescoço: - Me mata, me mata. – Sussurras. – Me mata porque deixá-la não vou. Eu a amo, agora sob todas as formas com que se apresenta. Os olhos se fecham e as lágrimas correm. Peço que elas te lavem da loucura da paixão. Paixão avassaladora que conheço bem. Levas a mão à boca e parece que engoles algo. Fico contigo no colo, assim apertada no peito. Estou esperando o que? Um suspiro, foi só um suspiro. Te levarei flores coloridas. Chega de branco, na tua morte serás colorida. |
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