Meiotom - Crônica


 

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LITERATURA ATUAL: MUITA VIOLÊNCIA E PESSIMISMO

Todo bom bibliófilo que se preze não abre mão de freqüentar livrarias, “fuçando” autores desconhecidos. É pelo garimpo de lombadas anônimas que muitas vezes encontramos verdadeiras obras de arte, escondidas à sombra do farol da mídia e da propaganda. Entendo esse hábito como uma responsabilidade dos amantes da literatura, justamente para que os bons autores possam sobreviver e prosseguir na arte.

Nesse exercício, porém, é extremamente comum vermos contos ou romances onde a tônica é a violência. Proliferam autores que relatam com pormenores cenas de agressão, humilhação, desgraça, barbárie. Quando não apelam para isso, trafegam com vagar e extensão por um cipoal de desencanto e pessimismo. Que haja uma ou outra obra com esse traço, tudo bem, mas por que tamanha freqüência desses mesmos temas ?

Inicialmente, poderíamos dizer que a literatura é o reflexo da sociedade atual. E é. Vivemos numa época de banalização da violência, puxada pela televisão e também fora dela. Filmes, seriados, novelas, nacionais ou estrangeiros, são primorosos em explorar crimes, investigações, cenas de violência gratuita, traições e toda sorte de vilania do espírito humano. Isso está nas telas e nas ruas, as mesmas ruas que caminhamos todos os dias. Não é natural que isso se reflita nos livros? Evidente que sim. Porém, nosso mundo não se restringe a isso. Em paralelo com essa realidade sem dúvida opressora, existe o humor, existem as riquíssimas relações pessoais, existe o horizonte ilimitado que possibilita a exploração dos fluxos de consciência. Cadê a variedade de obras que cuidam desses temas? Temos a impressão de que esse cenário opressor baixa como uma lufada de neblina sobre a capacidade criativa da nossa literatura, “padronizando” uma produção cultural que tinha tudo para ser mais rica e variada.

Literatura é reflexo da nossa sociedade, mas é também fonte de entretenimento. Critica-se a perda de leitores jovens, adolescentes, mercê da concorrência desleal com a Internet e os vídeo-games. Aqui também a violência está impregnada, mas com o tempero, a acessível válvula da escape do lazer. Literatura também tem que ser vista como fonte de lazer, lazer inteligente, lazer que incita o leitor a pensar, refletir sobre suas atitudes e sobre a grandeza do mistério da vida. É exigir demais da capacidade de abstração do leitor ambientar os dramas humanos em porões úmidos e mal-cheirosos, protagonizados por suicidas, prostitutas ou traficantes. A carga de realidade que precisamos já a temos com uma rápida passada pelos jornais, escritos ou televisados. Fica complicado você ver violência no jornal, ouvir estórias de assalto em rodas de amigos, e ainda rechear livros, fonte de reflexão e lazer, com essa temática recorrente.

Não defendo uma visão de Poliana, não defendo alienação, e não ignoro que num mundo cor-de-rosa, sem sobressaltos, dificilmente teríamos a oportunidade de extrair lições de vida. Nas dificuldades é que somos testados, nas situações-limite é que aflora o que temos de mais podre e mais nobre de nossas almas. Não fosse o submundo da miséria, Dostoiesvky não teria nos ensinado o tanto que nos ensinou sobre as múltiplas facetas da alma humana.

Critico é a generalização da edição de obras que abordem temas violentos e pessimistas, justamente para que nossa sociedade possa ser retratada de forma fiel, pois é impossível que nossos pensamentos e dilemas morais sobrevivam só com esses temas. Não é verdade que o humor, a leveza e o escracho só possam ser trazidos por via da crônica, e um exemplo que bem ilustra essa possibilidade é o romance de Carlos Heitor Cony, “O piano e a orquestra”. O humor, por sua aparente superficialidade, não é gênero fácil, pela perigosa proximidade que guarda com a tolice, o nonsense. Nem por isso deve ser visto com aversão por aqueles que se propõem a escrever boa literatura. Não vejo problema em reconhecer valor literário a um texto leve.

Todo escritor, reconheça ou não, tem uma alma inquieta, na medida em que busca traduzir o intangível e impalpável, misturando reflexão e poesia num texto que se propõe a atingir o leitor e fazê-lo ponderar, ver um outro lado de uma verdade, rir, chorar, e despertar emoções escondidas em seu coração. É mais natural que essa tradução ocorra num ambiente de alguma angústia, alguma opressão, mas com inteligência e criatividade acredito que se possa manter a grandiosidade de um texto tornando-o mais leve e convidativo. E apesar de todo pessimismo que os dados objetivos possam nos incutir, é da índole do ser humano buscar dias melhores, contra tudo e contra todos. Que esse otimismo possa ser melhor explorado por nossa literatura e levado ao massacrado leitor.

MÁRIO VELLOSO é escritor, autor do livro “Escolhas” (Ed. 7Letras, 2006).