Meiotom - Contos


 

as meninas

Vera do Val

 

 

Dona Jucélia botou a sorveteria ali, ao lado da estrada. Foi esperta. Era um lugar de muita passagem. Embora a cidade fosse pouco mais que uma vila, estava crescendo e já tinha até seu turismo. Mambembe mas tinha.

-A gente tem que acreditar no futuro- dizia ela aos quatro ventos.

Tratou de se informar das modernidades e tascou tudo lá. O sorvete vinha no barco da manhã, chegava derretendo, indo para os balcões brilhantes e montes de baldes coloridos. O freguês tinha só que escolher em meio à variedade de sabores. E ainda por cima, vinham as coberturas. Era apertar a bisnaga e aquilo esguichava adoidado: chocolate, baunilha, caramelo, e coisa que ali o povo nem sabia o nome. Confeito havia de toda cor: pequeno, grande, amarelo e encarnado. Até bolinhas prateadas e doces tinha. A brancura do chão e das paredes era fulgurante, parecia um templo, um disco voador despencado naquela miséria toda. Na inauguração veio autoridade para bater no peito e fazer discurso de progresso,padre para jogar água benta; tudo que D Jucélia tinha direito. Encheu de criança de barriga d’água e olho grande, do lado de fora, com cara aparvalhada e o povo juntou na porta. Parecia o paraíso na terra. Um sucesso.

Daí para frente era só o trabalho de abrir a gaveta e contar a dinheirama, porque a vizinhança não tinha para a farinha mas achava para o sorvete. D Jucélia foi logo tratando de arrumar uma curuminha magriça, cheia de pernas e dentes, dessas ligeiras e que dão conta do recado. O trabalho da gorda era mandar e isso ela sabia fazer como ninguém. O dia inteiro era um limpa daqui, esfrega dali, lava copo, lava taça, recolhe o lixo, passa pano, dá um brilho no balcão que aquilo era coisa moderna e tinha que ficar nos trinques. Era – Suélemmm - gritado de manhã até a noite. Esse era o nome da guria. A mãe, grudada na tv, que no barraco podia faltar penico mas tv claro que tinha, havia lhe dado nome de artista. A menina se pelava de medo e se esfalfava; tudo por uns trocados e um sorvete ao fim do trabalho. D Jucélia suada e resfolegando, um olho no dinheiro e outro na empregada, comandava melhor que general em quartel. O dia ia passando, o olho da menina crescendo, a barriga roncando mas ela lá firme e forte porque a hora do sorvete era sagrada.

Naquele domingo, o sol já estava caindo e dando clemência quando o caminhão parou à porta, chiando pneu e fazendo bonito. O motorista desceu e atrás dele surgiu uma guriazinha de corpo já formado, metida em uma saia rota e mal feita, uma blusa de pano fino que lhe marcava os bicos dos peitinhos púberes, um tremer, e um olhar de bicho do mato. O seu jeito anunciava a infância assustada ainda lhe cheirando o leite no corpo, o riso tímido. Porejava constrangimento: o suar frio das mãos, o medo e a primeira vez. Entraram na sorveteria, ele na frente, gesticulando, falando alto, cumprimentando D Jucélia com uma piscadela safada. Era um homem de lá seus quarenta anos, desses encorpados que todo mundo sabe que arrota sem pejo, palita os dentes e cospe longe. Uma camiseta que um dia fora branca lhe grudava na pele deixando a barriga cabeluda e suada metade de fora. Barba por fazer, um cabelo engordurado de brilhantina, calça caída na pança e umas botinas lustrosas compunham a figura que, toda à vontade, riu pra uma D Jucélia pressurosa que acudia sorridente, pois freguês é freguês, sempre bem-vindo. E esse não tinha jeito de sovina.

A guria chegante aproximou-se do balcão e foi arregalando o olho que ela nem nunca sonhara que aquilo tudo existia. A brilharia toda, o colorido, o perfume do sorvete. Só podia estar no céu. Quanto mais ela olhava mais o seu rosto ia se abrindo , mais ela extasiava, mais paralisada ficava. O homem anunciou que ela escolhesse, tudo que tinha direito, sorvete e confeito, riu alto, bateu na barriga. D Jucélia, que logo entendeu a piscadela dele, também riu pra menina, toda enxerida. - Não se acanhe meu bem ... Ah... que menina bonita... foi abrindo os vidros, oferecendo, exibindo, puxando a guria que continuava muda, desacostumada com aquele dengue que o mundo nunca lhe tratava assim. Suélem também achou esquisito aquele melado todo, mas não estranhava mais que a gorda tinha voz para tudo, voz para agradar freguês e voz para lhe tascar ordem.

A guria, não sabia para onde olhar, não sabia escolher, sempre fora escolhida. Ficou arfante o peitinho pulando na blusa, o olho do homem brilhando, sua boca quase babava. Ele oferecia e ria, insistia mais, gesticulava no ar. Vai minha linda ... pega tudo o que quiser ... escolhe ... é tudo teu... e lhe alisava os braços, mãos afoitas e quentes. A cabeça da menina girou, pouco olho para tanta delícia, a fartura e a cor, toda essas bonitezas lhe subiram à cabeça.

A boca encheu de água, ela tremia, ia de um pote a outro, não se decidia. Tudo era cor de desejo, desejo no confeito encarnado, na calda escura que escorregava devagar, desejo cortando o ar, ardendo na boca salivosa do homem, nas suas mãos sôfregas, desejo no arfar de D Jucélia que quase gozava com isso, desejo de doce, de menina- criança, desejo de Suélem de fugir desse mundo.

A guria olhou para Suélem e Suélem olhou para a menina.

Bem devagarinho, uma presa no olho da outra, quase se escutava, vindo lá do fundo das duas almas, um fio, um piar de passarinho, asa de beija-flor, borboleta. Vinha subindo um suspiro, um gorgolejo, um entendimento, uma aceitação do que as esperava, da vida e da sina. Os olhos das duas brilharam no entendimento e um sorriso cúmplice lhes chegou à boca.

A guria, mansa, encheu a taça. Todas as cores se misturaram derreteram, derramaram pelas bordas, pingaram pelo chão e se lambuzaram.

A registradora tilintou e o homem riu, antecipando o gozo.

O caminhão partiu chiando e Suélem, de olho comprido, pegou o pano de chão e foi limpando.

Limpando e esperando a sua vez.

 

Vera do Val

 

 

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