Meiotom - Contos


 

 

A NOIVA

 

 

 

- É, meu filho, sua velha mãe não tem como evitar. Você, meu único filho que me ficou, vai casar. Logo você, meu caçula, com aquela jararaca ...

- Mãe, por favor ...

- Deixa disso, mulher !  Ele tem que fazer a vida dele. Um homem precisa escolher sozinho o seu caminho. - intervém o marido, irritado.

- Até você defende ela ? A mulherzinha me odeia, eu sei. Morre de ciúmes de mim, coloca filho contra mãe. Mas eu já me conformei com a traição de todos vocês, sei que o casamento é inevitável, não tem mais jeito ...

- Não estou do lado de ninguém, apenas falo o que é certo. Agora, larga de besteira e não enche o saco do seu filho. Tá chegando o dia mesmo, te conforma, mulher !

 

         As semanas se passam, até a esperada ocasião. De classe média, o casal não havia planejado um casamento marcado pela ostentação. Mas também não decepcionaria os convidados. Haveria uma recepção após a cerimônia, no salão da própria igreja, que se localizava no centro da cidade. Uma capela discreta, mas tradicional. Foi escolhido um grande número de padrinhos, consequentemente aumentando a quantidade de bons presentes.  As pessoas que estariam no altar, perto dos noivos, eram divididas igualmente entre íntimas do casal e outras não tão chegadas assim, mas de excelentes condições financeiras.

 

- Mãe, estou tão nervosa . Será que vai dar tudo certo ?

- Claro que sim, filhinha.  Olha, já está chegando. Faltam quantos dias mesmo ?  Ah, é, vinte e dois, eu conto cada dia. Você vai ver que vai sair tudo bem.

- Tem uma coisa que eu não consigo parar de pensar, que me atormenta !

- Minha filha, já falei que está tudo certo. Tivemos hoje na igreja e no bufê, semana que vem voltamos lá, está tudo confirmadinho, arrumadinho, até a costureira tá adiantada.

- Não, mãe, eu tô falando da velha.

- Ah, filha, por favor ! Não me venha com este assunto de novo ! Você vai casar, não é ? É o que interessa. Além disso, cá entre nós, ela já tem idade bastante avançada, e ainda por cima sofre do coração. Não teve um problema outro dia mesmo ? Você vai ver só, não vai ter que aguentá-la por muito tempo...

- Deus te ouça, mãe, Deus te ouça ! Só de pensar em ter ela tão perto na minha vida daqui em diante, fico desesperada.

 

 

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         A casa fora arrumada para a ocasião. O fotógrafo se esmerava no serviço, fazendo gracejos sem a menor graça para tentar relaxar a elegante noiva. Quando depois de muitas e muitas fotos ela resolveu  apressá-lo, os pais a tranquilizaram. Afinal de contas, noiva que é noiva chega sempre em cima da hora, até mesmo atrasada. Naquele exato instante, a pequena igreja encontrava-se cheia de flores e gente. Alguns convidados estranhavam a ausência do noivo, que normalmente chega antes e espera a futura mulher com ansiedade, como se ela pudesse deixar de vir.

        

A sessão de fotos na casa da noiva termina, e o luxuoso automóvel preto, alugado com motorista, se prepara para partir. De repente, o primo do noivo, que era também um dos padrinhos, chega correndo à casa.  A noiva olha assustada para ele.  Após um curto silêncio, alguém pergunta:

 

- O que você está fazendo aqui ?

- A tia ...

- O que tem a velha ?   O que ela aprontou desta vez ? - pergunta a noiva, em tom agressivo.

- Ela morreu !

        

         Os carros partem para a casa do noivo, que era bem próxima. A nubente chora copiosamente, consolada pelos pais. Chegando ao local, ela salta correndo, com seu enorme vestido, chamando a atenção da vizinhança. Dentro da casa, alguns poucos parentes cercam o corpo da mulher, estendido na cama. O resto da família está na igreja e ignora o fato. O filho aperta a mão dela contro o rosto, e chora como criança. A noiva se aproxima silenciosamente por trás, arrastando seu véu, e o abraça. Ele chora mais ainda. Logo todos ficam sabendo que foi um ataque cardíaco rápido e fulminante, durante o banho.  O vizinho, que era médico, deu a notícia, e nada pôde fazer. De qualquer forma, uma ambulância estava a caminho. Durante uns minutos, ninguém diz nada. Depois, a noiva começa a falar baixinho no ouvido do companheiro:

 

- Olha, eu sinto muito, de verdade.  É uma tragédia.  Mas ela está descansando agora, vinha sofrendo muito com a doença ultimamente, não é mesmo ?

 

         Ele apenas assente de leve com a cabeça, algumas lágrimas ainda escorriam pelo seu rosto.

 

- Sei que é muito difícil para você, mas a gente tem que pensar em uma coisa. Por favor, escute o que vou dizer. São sete horas, a igreja deve estar lotada, as pessoas impacientes. Pessoas que se importam conosco, também, e que amavam ela. Nós temos que ir agora.  Quando acabar a cerimônia, a gente volta ...

 

         Ele a olha nos olhos, e não consegue falar nada.  O pai dela, que havia escutado quase tudo, repreende-a discretamente com um sinal.

 

- Por favor, me ouça, nós temos que ir.

 

         Desta vez, ela fala mais alto, angustiada, e quase todos os parentes da falecida  escutam. O ambiente fica tenso no apertado recinto. Ela insiste mais uma vez, até que se descontrola:

 

- Ou você vem comigo agora ou nunca mais olho pra você !

 

         O noivo, finalmente, se manifesta:

 

- Sai da minha casa.

 

- O quê ?

- Saia da minha casa, agora !  Vai, porra !

- Seu idiota, sabe o que está dizendo ?

         A velha morta era a única pessoa a não tentar apaziguar o ânimo entre os noivos.  De nada adiantou, porém, a intervenção dos parentes, pois a menina perde a linha de vez, gritando pra falecida:

 

- Safada, miserável, mesmo morta acaba com a minha vida !

- Calma, pelo amor de Deus, filha, olha o vexame !

- Me solta, esta velha desgraçada ! Ela fez isso pra acabar com meu casamento !

 

         E a noiva, toda de branco, sai correndo e gritando pelas ruas mal iluminadas do bairro.

 


 

A SAIDEIRA

 

 

 

-          E aí, conterrâneo, começou cedo hoje ?

-          Fala, comendador !  Sentaí pra tomá uma branquinha.

-          Dá não, vou passar lá na feira pra patroa ...

-          Tá de sacanagem  !   Tá virando pau mandado de mulher agora ?

-          Óia, rapá, não fala assim, não.  Se eu num trazê nada, num tem almoço. E eu já tô tomando umas e outras lá em casa, só no limão ...

-          Então senta o rabo que a gente entorna a saideira, também vou picando a mula.

-          Se é assim tá bom, cumpadre.   Tá beliscando o quê aí ?

-          Uma moelinha, de leve.  Ô, baixinho, traz mais uma porção no capricho.  Não esquece do pãozinho.  E mais duas caninha também.  Ah,  e uma cerva pra rebater.

-          Mas e aí, cumpadre, que qui tu conta de novo, tudo certinho? As criança, dona Chica ?

-          Vai levando, vai levando. Nem te conto o que rolou outro dia, maior danação ... E você, tá ainda trabalhando pro Inácio ?

-          Tô mais não.  Tive um problema brabo lá, fiquei puto.  Eu saí e ele ainda ficou me devendo uma grana.

-          Porra, tu tá brincando, logo o Inácio ?  Gente boa pra cacete, conheço a família há mais de dez anos ...

-          Pra tu vê, eu também fiquei espantado.  Achei uma baita sacanagem.  O problema é que desde que o Elimar entrou com ele de sócio, eu não tive sossego.  Só crocodilagem ...

 

O homem pára por uns instantes, pensativo.  Pede mais duas doses de cachaça e por fim responde, mudando o tom:

 

-          Tu sabe que o Elimar é meu afilhado.  Nosso conterrâneo, inclusive ...

-          Tudo bem, não se ofende.  Eu tenho intimidade contigo pra poder te falar, mas me deram uma puta sacaneada.

-          Mas conta aí ... o quê que houve de tão grave ?

-          Eu dei uma de otário, só isso.  Trabalhei que nem um corno, mais de três meses, vendendo aquelas merdas daquelas roupas, aqueles sapatos ... Rodei mais de cinquenta barraca, tu tinha que ver só.  Conheço todo mundo na feira - tu fala meu nome e na hora qualquer um sabe quem é.  Acabei fechando pedido com uma porrada de gente.

-          E aí ?

-          Aí que não me pagaram nem metade da comissão combinada, só isso. E mermo assim demorou um tempão.  Fiz papel de babaca com os filho-da-puta ...

-          Peraí, peraí  !  Filho-da-puta, não ! – diz o homem, colocando o dedo em riste e demonstrando contrariedade.

-          Com todo respeito, compadre, com todo respeito.  Baixinho, vê mais duas aqui.  Num quero ofender a dona Corália, Deus que a proteja.  Ela anda até meio mal, fiquei sabendo.  Filho-da-puta é o modo de dizer, a mãe num tem nada a vê com as sacanagem dos filho ... Mas mudando de assunto, como é que tá dona Chiquinha, que tu não falou direito ?

-          Porra, não me pergunte por Francisca, que eu tô por aqui com ela.  Quase me botou pra fora de casa anteontem ...

-          Mas quê que tu andou fazendo pra ela te tratar assim ?  Tu também não é fácil ...

-          Nada demais.  Só que ela andou fuçando por aí, com um e com outro, e disseram que eu tava comendo a Martinha, aquela escurinha lá de baixo.

 

O outro parece não gostar do encaminhamento da conversa.  Vira a sua dose de uma só vez, pede pra completar mais duas e pergunta:

 

-          Mas então era verdade ... Tu tá saindo com ela  mesmo ?

-          Fica na sua, compadre, fica na sua.  Mas aquela neguinha fode é muito, tu tem que ver só  !

-          Porra, tu num sabe que eu namorei ela, queria até compromisso firme ?  Foi pouco tempo, rapidinho.  Logo antes de eu me achegar na patroa, ela embarrigar ...

-          Quê é isso, tu é meu irmãozinho !  Entre a gente não tem isso. Então tu sabe que aquilo ali é uma perdição mermo ...

-          Não sei é de porra nenhuma, que eu nem cheguei a ter intimidade com ela.  Te falei, não deu nem tempo.

-          Como não deu tempo, compadre ?  Eu já cheguei passando a rola nela !  Não acredito que tu ficou só de beijinho e abraço.  Marcou bobeira !

-          Tu quer dizer o quê com isso, porra ?  Tá dizendo que tu é mais homem que eu ?

-          Pára com isso, mermão !  Não precisa gritar no meu ouvido que eu não tô surdo  !  Eu não falei nada.  Ô, baixinho, completa aqui pra gente.

-          Aí, precisa completar porra nenhuma não pra mim, que eu tô de saída.  Quanto é que eu tô devendo aqui, baixinho ? – diz o homem, metendo a mão no bolso de trás da calça.

-          Sossega aí, mermão ! Vamos tomar a saideira.  Ficou putinho assim por causa da neguinha, é ?  Pensei que não valia isso entre a gente.

-           Saideira é o caralho, que eu tô cheio de pressa.  Tomaí  ! – o homem então procura o dinheiro nos quatro bolsos da calça.   Por fim, joga algumas notas amassadas no balcão.

-          Aí, faz o seguinte: deixa essa porra pra lá que eu acerto  !   A próxima é tua. 

-          Tá querendo tirar onda comigo, acha que eu não tenho dinheiro ?  Tá me chamando de fudido ?  Presta atenção !

-          Ô, conterrâneo, tu tá muito nervosinho hoje !  É melhor tu ir mermo pra tua casa esfriar a cabeça, porque eu também não vou ficar ouvindo falação, nhém nhém nhém no meu ouvido ! – grita o homem, abrindo e fechando a mão próximo à orelha.

-          Tá me expulsando ?  Que merda é essa ?  Se eu quiser eu fico aqui é o dia inteiro, e que se foda você !

-          Porra, tu tá de brincadeira comigo  !    Faz o que tu quiser e não me enche o saco, que eu já tô perdendo a paciência contigo !

 

O homem pede uma cachaça só pra contrariar, vira em dois goles, e prepara a resposta para seu interlocutor:

 

-          Vou me embora mermo, porque tenho que ganhar a vida.  Num fico o dia inteiro de bobeira, vivendo de favor ...

 

O outro homem parece profundamente ofendido com esta provocação.

 

-          Como é que é, seu filho de uma puta  ?  Tá me chamando de vagabundo ?

-          Não chamei é de porra nenhuma, você é que deve de tá se assumindo !

-          Olha aqui, se eu não te conhecesse há um tempão, inclusive o teu irmão Clodoaldo, que sempre foi gente fina comigo, eu te enfiava a porrada aqui mermo !

-          Pois então pode vir, cai dentro que eu quero ver ! – o homem grita, enquanto pega uma garrafa de cerveja vazia no balcão, quebra seu fundo na quina e a aponta para o outro homem.  O balconista tenta intervir, assim como alguns pinguços.  Mas os dois pareciam antigos desafetos, tal a disposição com que partiam para a contenda.

-          Seu frouxo de merda, nem na mão tu sabe fazer, né ?  Então vem aqui, filho de uma égua arrombada ! – o homem arranca uma faca de serra da mão do baixinho, que cortava um pão para servir com carne assada em uma mesa próxima.

-          Tu vai é ver quem é que é frouxo, cabra safado !

 

O homem parte com a garrafa, o outro se afasta.  Erra o primeiro golpe, mas insiste, conseguindo ferir o oponente de raspão na barriga. Entretanto, perde o equilíbrio e cai de bruços em cima de uma das mesas de madeira.  Aproveitando a oportunidade, o outro contra-ataca. Parte para cima do oponente com a faca pontuda, erra, puxa rapidamente. Na segunda tentativa atinge o adversário três vezes seguidas - duas nas costas e uma na mão, atravessando-a e prendendo-a na madeira.  

 

-          Tá vendo, seu cabrão, como que tu é um merda abusado ?  E aí, o que é que tu tem pra me dizer agora ?  Vamos, diz, porra   !   Tu não é homem pra cacete, não é macho ?

-          ...

-          Fala  !  Fala alguma coisa, seu bosta  !   Reage, porra !

-          Eu comi ela... Ai, porra, tá doendo pra caralho !  Comi muito ela, sabia ?

-          O quê que tu tá dizendo, bundão ?  Pára de chorar e finge que é homem !

-          Ai, cacete,  tá doendo ...  Comi ela, passei a pica na Francisca, tua mulher.  Vai dizer que tu nunca desconfiou ?  Aquele sinalzinho na virilha, lambi tudinho por ali ... – o homem, apesar da dor, muda sua expressão por segundos e faz uma careta depravada.

-          O quê, homem, quê que tu tá dizendo ?  Repete, porra, vai !

-          Ai, meu Deus  !   Deixa eu sair daqui, porra !

-          Fala, desgraçado, tu ofende a honra de um homem e quer ir embora ?  Desembucha ! – o homem então levanta a faca um pouco, apenas o suficiente para desprendê-la da mesa, e roda três vezes dentro da ferida da mão do outro, que se contorce.

-          Pára, por favor, eu falo o que tu quiser ! – diz o homem, chorando de dor.

-          Então continua, porra !

-          Não foi culpa minha, ela tava puta contigo !  Ai, deixa eu sair, pelo amor de Deus !

-          Tu se deitou com ela mermo ?  É verdade o que tu tá falando ?

-          É ...

 

O homem pára e pensa por uns instantes.  Abre a carteira, retira mais que o necessário e chama o baixinho.  Em seguida, arranca a faca da mão do homem, que se contrai urrando.

 

-          Tomaí, é pra cobrir o prejuízo !

 

Ele parte com o instrumento cortante na mão, abandonando o tumulto do bar.  Anda rápido, mas sem transparecer o desespero que consumia sua alma.  Em três minutos, está defronte à porta.  Respira fundo, e dá três batidas fortes com a palma da mão aberta.

 

- Chica, minha catraia, abre aí que a gente tem que conversar !

 


ATÉ QUE A MORTE OS SEPARE

 

 

 

-          Bom, então a senhora tá me dizendo que ele tentou te matar, e não é a primeira vez.   É isso mesmo que eu tô entendendo  ?

-          Não, de jeito nenhum, quer dizer ... não sei se o senhor compreende, mas ele não faz essas coisa por mal.  É só quando ele tá agitado, preocupado com alguma coisa ... aí, ele bebe.  Não bebe uma nem duas não, doutor, ele bebe muito, até quase cair. Então, ele chega assim, desatinado.

-          E isso ocorre com que freqüência ? 

-          Como assim, doutor ?  Quer saber se é todo dia ?

-          Isso mesmo.  Numa semana, por exemplo, quantas vezes ele fica assim, sem controle ?

-          Ah, doutor, eu acho que ele só fica assim a partir de quinta-feira.  Aí, parece que tá com o diabo no corpo, é outra pessoa.  Mas no começo da semana, lá pra segunda e terça, parece um anjo, o senhor tem que ver.  Se bem que já me bateu numa quarta, mas nunca mais aconteceu.  Foi só uma vez, quando teve o baile lá no terreirão.

-          Tá bom, mas deixe eu lhe perguntar uma coisa:  a senhora quer ou não quer que eu registre uma ocorrência por agressão ?  Veja bem, o que a senhora tem que entender é que a gente também não pode fazer papel de bobo.  Outro dia mesmo a senhora teve aqui pra mudar um depoimento ...

-          Não, doutor, o senhor me desculpe, eu também não quero é incomodar vocês.  Mas aquele acontecido foi outra história, o senhor pode até perguntar pro inspetor Teixeira, que foi quem me recebeu e ouviu tudinho, tudinho, do início ao fim, e sabe muito bem que eu não sou mulher de brincadeira, e nem tô aqui pra complicar a vida dos outros e nem pra caluniar nem difamar ninguém.  Mas foi uma razão diferente, porque foi o dia que ele olhou pra vagabunda da Mirtes e ...

-          Tá, tá, agora me escuta.  Não me interessa qual foi o motivo, o que importa é que a senhora já esteve aqui mais de dez vezes, eu puxei aqui nos arquivos, e sempre é o mesmo motivo: agressão.  Por outro lado, a senhora voltou mais um monte de vezes pra dar outro testemunho, e acaba que a denúncia é arquivada.  É por isso que eu tô perguntando, pela última vez: a senhora vai querer levar isso adiante ou não vai ?

-          Doutor, deve de tá acontecendo alguma confusão, eu nunca que ia prejudicar o trabalho de vocês, tá me entendendo ?  As vez que eu tive aqui foi porque ele tinha mesmo perdido a cabeça, acabou me batendo muito, e eu tinha que me defender, num é mesmo ?  Mas depois a gente acabava que se entendia, ele chegou até a chorar de arrependido, o senhor tinha que ver só, parecia uma criança, e gemia, gemia de dá dó.  Mas hoje ele abusou, o senhor pode até ver pela minha cara, nunca ficou tão inchada assim, e nas outras vez ele batia muito é nas costa, na barriga, num abusava da cara, não, porque sempre dizia que mulher dele num era pra ficar marcada pros outros vê.  Por isso que eu tô aqui hoje, doutor, o senhor me perdoe se eu tô incomodando de novo, mas hoje ele perdeu a razão; ah, se perdeu !

-          Tá bom, tá bom, então vamos lá.  A senhora começa a falar aí, diz como é que tudo começou.

-          Bom, eu tava sozinha em casa, era mais de onze hora, e ele ainda num tinha chegado.  Como falei, doutor, hoje é terça-feira, ele num costuma chegar tarde, eu até que estranhei, mas acabei deixando pra lá.  Mas aí eu tava esperando ele pra pegar um dinheiro e dá pro seu Antônio.  Num sei se eu cheguei a dizer, mas o seu Antônio é o moço que fez um reparo na laje lá de casa, faz mais de uma semana.

-          Sim, e aí ?

-          Aí que eu já tava ficando sem jeito, eu num gosto de ficar devendo a ninguém, não, pode ser amigo, parente, o que for, porque a gente tem que ter palavra, que é uma coisa que ninguém tira da gente, não.  E aí eu tava muito preocupada, porque o seu Antônio é homem de bem, gastou até do dinheiro dele pra comprar material, eu sou testemunha.  Os moleque entregaram tudinho lá em casa, e o serviço que ele fez ficou nos trinque, ninguém podia nem sonhar em reclamar, o senhor sabe que num entrou nem mais uma gotinha d’água lá dentro de casa.  E olha que tem chovido, chovido mesmo.

-          Tá bom, mas diz como é que começou a briga com seu marido.

-          Bom, então lá pela meia-noite ele me entra em casa, doutor, o senhor tinha só que vê a cara, cara de quem comeu e num gostou, e aquele bafo quente de manguaça, parecia até sexta-feira.  E a única coisa que eu fiz, Deus me é testemunha, foi pedir o dinheiro do seu Antônio, e olha que eu num pedi nem o dinheiro todo, sabia que ele tava reclamando de dureza, os serviço tava pior, e eu pedi só a parte do material, sabe, seu doutor.  Mas foi só eu abri a boca que tomei a primeira pancada, doutor, e num foi de mão aberta, não, ele passou a bater com a mão fechada, eu num tava nem conhecendo ele.  Olha, como doía, pensei até que eu fosse desmaiar, e nunca que acabava.

-          Mas ele começou a bater só por que você pediu o dinheiro do conserto da laje ?

-          Óia, doutor, eu num posso agarantir que foi só por isso, até porque ele começou a falar besteira, dizendo que eu tinha ficado sozinha com o homi em casa, mas como é que eu podia consertar as coisa sem tá em casa  ?  E o seu Antônio, coitado, o homem é  casado,  conheço a esposa dele, gente distinta, educada, os dois são até evangélico. Mas ele num quis nem saber, parecia que tava possuído, doutor, de tanta raiva e força que batia.  Mas batia mesmo sem parar, dizia e repetia que eu devia é morrer porque era uma cadela sem-vergonha,  e  que num valia a comida que ele bota em casa.

-          Vocês têm filhos, não têm ?  As crianças presenciaram ? 

-          Graças a Deus e Virgem Santíssima que nenhuma delas tava, doutor, eu bem que pressenti alguma coisa e despachei todo mundo pra casa da Belmira, não sei se já falei pro senhor da Belmira, minha comadre já de muito tempo, viu meus filhos nascê e me deu uma boa mão.  Criatura santa, doutor, daquelas que faz tudo pros outro e num cobra nada, nadinha.

-          Mas então continua, por favor.  Como é que a senhora conseguiu fugir pra vir aqui ? Onde está seu marido ?

-          Bom, doutor, ele tá lá em casa, estirado na cama, porque foi mais ou menos assim: chegou uma hora, como eu disse pro senhor, que achei que num ia aguentar, ia morrer mesmo de tanta surra.  Aí, de repente, doutor, o senhor tinha que vê, num sei se foram as oração pra Deus Pai, Nosso Senhor, mas ele parece que cansou de tanto bater, e bater, e acabou bebendo o resto de um vinho velho que tava na geladeira, no gargalo mesmo, e sentou um pouquinho na cama pra ver televisão.  Foi aí qui num deu nem dez minuto e ele apagou, doutor, começou a dormir feito uma criança, nem parecia o bicho que tava me batendo, tão bonito que tava quietinho. Eu aproveitei então pra me lavar e comecei a preparar um chá, um chazinho que ele sempre toma quando fica de bode, sabe, doutor, nunca que dorme direito, acaba acordando meio zonzo com dor na cabeça, vomita, essas coisa. 

-          E aí a senhora saiu e veio pra cá ?

-          Inda não, doutor, eu tirei a camisa dele, os sapato, a calça, deixei só de cueca e arrumei na cama uma posição pra ele dormir melhor.

-          Tá bom, mas então a senhora arrumou ele, fez o chazinho e saiu em seguida, não é isso ?

-          Não, doutor, inda não, porque aí eu fiquei olhando ele lá, dormindo, e num sei o que me deu na minha cabeça, doutor, que olhando pra ele dormindo, aquela carinha calma, eu comecei a sentir uma raiva, mas uma raiva muito grande, como nunca tinha sentido na minha vida, o senhor sabe ?  E então parece que minha cabeça desandou, ficou fraca, doutor, logo eu, uma mulher que sempre enfrentou tudo de cabeça levantada, nunca fiz mal pra uma mosca, o senhor pode até perguntar pros meus filho, pra vizinho, pra parente, sabe, doutor  ?  E aí eu peguei o chá que já tava fervendo um tempão, encostei um funil largo no ouvido dele e derramei tudo, tudinho, o senhor tinha que vê, doutor, o homem acordou num berro desgraçado, parecia um porco quando tá morrendo, o corpo ficou num tremelique só, e me deu um medo muito grande dele começar a me bater de novo até me matar.  E então, doutor, Deus que me perdoe que eu sei que vou ter que pagar,  mas eu olhei pro chão do barraco e tava as ferramenta toda num cantinho, e aí eu tasquei o martelo na cabeça dele um monte de vez, e o homem apagou, num falou mais nada.  Deve de tá inda lá, quietinho, esticado na cama de cueca, do jeito que eu arrumei antes de vir pra cá falar com o senhor.

 

 

André Calazans é analista de projetos, carioca, e tem 39 anos.  Possui um livro de poesias publicado, e já participou de diversas antologias de prosa e verso.

e-mail: andre001@oi.com.br.