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“Então, de repente, no meio dessa desarrumação feroz da vida urbana, dá na gente um sonho de simplicidade. Será um sonho vão?”

[Rubem Braga, em Coisas simples do cotidiano, de 1984.]

*

Meu amigo pergunta o que farei depois de formado.

Outra graduação.

Porque não dou conta da rotina de redação.

Meu editor – aquele que está me ensinando a escrever e abafar meus instintos de ansiedade – não se vê fazendo outra coisa ou em sala de aula.

Fico ainda mais receoso em dizer que pretendo fazer Letras na capital.

*

Reli hoje cedo.

De Antônio Maria, cronista de vielas e becos escuros:

“Com vocês, Antônio Maria, brasileiro, cansado, 43 anos, cardisplicente (isto é: homem que desdenha do próprio coração). Profissão: esperança.”

[Em 23 de agosto de 1964, a menos de três meses de morrer de infarto.]

*

Agora estou a entregar o meu jornal em preto e branco nas cafeterias e bares do Centro, com a alma limpa, talvez algumas mágoas de mulheres que afastei, certas lamentações por mulheres que perdi, as contas do carro que estragou logo agora que viria um tempo bom.

Um susto a cada mulher bonita que passa.

(Se me fizeste tão fraco e sem modos, por que me deste tantos desejos?)

*

Passo em frente ao meu antigo colégio de ensino médio. Ainda tenho de lá velhos e precisos amigos. Alguns casaram, tiveram filhos, foram morar longe, engordaram, outros poucos remoçaram ou nunca saíram de lá, como se fosse possível adestrar o tempo, matéria tão imprecisa feita à base de nossas lágrimas e pressas.

(Sempre que nos reencontramos, a cada história rememorada construímos um novo trajeto, ainda mais romanceado do que o último, os sonhos carregados que não conseguimos matar.)

Entro na biblioteca da praça e pergunto se ainda há o meu cadastro.

Sim.

O que li há dez anos?

Vejamos... Khalil Gibran, Júlio Verne, J.J. Benítez, Rubem Braga...

Júlio Verne aos sete anos: meu primeiro livro, meu primeiro mundo, todos os clichês que você imaginar.

*

Ainda que se faça muito sol, andar pelas ruas de uma cidade em ebulição diz mais do que todos os livros técnicos que ando lendo a seco – uma gente certamente estudiosa que parece nunca ter trabalhado num jornal do interior em que o pai do assassino confesso pede retratação na edição seguinte.

*

São mendigos, manobristas, panfleteiros, carros que falham às vésperas do sinal verde, estudantes agitados com seus sapatos sujos esperando o ônibus lotado, namorados que se cuidam para não serem atropelados – mesmo que o amor seja assim, sempre tão jovem e volátil -, saias que se perturbam com o vento bravo, homens acordados pela manhã de trabalho, rostos desagregados sem um escrivão.

*

Eu e minha solidão: carregando, tranquilos, a poeira da cidade e de cada coração.

Daniel Zanella